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MULTIPOLARIDADE

As Sequências Rebeldes

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A versatilidade é algo que se preze num autor? Ou prefere-se que este se cinja a um mesmo tipo de registo, e não "traia" os seus ideais, pelo menos do modo como são entendidos por leitores, críticos ou pares?(Texto Publicado no JL- Papel)

João Ramalho-Santos

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Hän Solo mostra as deambulações hesitantes (a todos os níveis) do jovem holandês Hän em busca de rumo, primeiro numa Lisboa descoberta através do Programa Erasmus, depois em Madrid. Utilizando com brilhantismo os dois tons (branco e não-preto) e mantendo obscuro o passado de Hän, Lacas dá o tom apropriado de melancolia e esperança; sobretudo em termos de gerir o silêncio em torno do protagonista, mau grado o ruído urbano que o rodeia e em que se tenta, sem sucesso, imergir. Hän parece sempre à borda da água, hesitando entrar. Um problema que não aflige de todo as personagens de Asteroid Fighters, uma movimentada, divertida e graficamente conseguida série de aventuras que mistura com evidente gozo códigos e referências que vão dos grupos de super-heróis aos filmes-catástrofe, passando por épicos espaciais ou 007 e seus vários descendentes (e paródias). Mas são claros os sinais do Lacas de Obrigada, Patrão e A Filha do Caranguejo (ou Hän Solo), por exemplo na gestão da vertente pessoal das personagens, que lhes dá uma profundidade diferente da habitual em obras deste género.

Não que não existam reparos a fazer. Nomeadamente que neste segundo volume Asteroid Fighters sofre um pouco do equivalente musical ao "síndroma do segundo disco". Se a estreia surpreendeu pelo entusiasmo e dinamismo, sente-se aqui alguma falta de enquadramentos e clareza. Não há mal nenhum nas múltiplas citações que a série inclui, sendo que as personagens são inspiradas em amigos do autor (e autores de BD, de resto detalhados no final), mas é preciso chegar melhor a um leitor externo, sobretudo com a edição espalhada de volumes que fazem um todo. Ou seja, definir alguns pontos de entrada, independentes da leitura anterior, como sucede nos mais eficazes argumentos de Van Hamme, Jodorowsky, Bendis ou Claremont, mesmo quando em piloto automático. Curiosamente Hän Solo é quase o oposto, no sentido em que (e ao contrário de trabalhos com um ritmo semelhante, como A Ermida) há informação crucial fornecida diretamente ao leitor, quando talvez pudesse ser mais sugerida ou apresentada mais devagar (a bipolaridade do protagonista, o abandono pela namorada). Ou seja, na obra de grande público sugere-se, na obra intimista expõe-se. Costuma ser ao contrário. Na verdade é apenas mais um exemplo de como Lacas surpreende, furando espectativas. E porque motivo é um dos autores nacionais cuja carreira (nacional e internacional) vale a pena seguir.

 

 

Asteroid Fighters 2: Os Oráculos. Argumento e desenhos de Rui Lacas. ASA, 80 pp., 15,90 Euros.

Hän Solo. Argumento e desenhos de Rui Lacas. Polvo, 64 pp., 12 Euros.