Jornal de Letras

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MIÚDAS

As Sequências Rebeldes

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Um aspeto relacionado com banda desenhada que é imperioso repetir até à exaustão (infelizmente) é a sua identidade enquanto linguagem, não enquanto género. Uma consequência lamentável desse equívoco é a acumulação de toda a BD num canto das livrarias, misturando obras que em nada se relacionam. A não ser que se tenha uma (por vezes útil) vertigem enciclopédica, não há qualquer mérito em conhecer e divulgar toda a BD publicada, apenas interessa aproximar obras dos leitores que as poderão apreciar. E tem havido um importante papel pedagógico de algumas editoras em tentar promover isso mesmo.(texto Publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

Com argumento de Sophie Michel e contando com o desenho claro e luminoso de Emmanuel Lepage, Oh, Miúdas! (ASA) é um excelente exemplo de uma BD com um público-alvo claro, neste caso leitoras entre os 10-25 anos. Não vale pois a pena considerar esta obra em paralelo com trabalhos de Hugo Pratt, Alan Moore, ou Edmond Baudoin, Como não fazem sentido comparações com os X-Men, ou, sequer, com outras obras de Lepage. As aproximações deverão sempre ser feitas a outros veículos (literários, televisivos, cinematográficos) destinados a adolescentes e jovens adultos do sexo feminino. Oh, Miúdas! segue três amigas francesas, desde o nascimento à idade adulta; três raparigas previsivelmente distintas, e com percursos que poderão ser classificados como óbvios, o que não nega a qualidade global do argumento, dentro das condicionantes que a si próprio se impõe. Uma imigrante árabe, uma aristocrata privilegiada, uma remediada filha de mãe solteira. Encontram-se na Escola Pública, e só se espera que este pormenor não seja historicamente relevante, já que, num futuro previsível, apenas uma delas teria acesso garantido ao ensino retratado.

Ao longo dos anos em que decorre a história as leitoras são expostas aos diferentes aspetos do percursos das três protagonistas, incluindo enquadramentos culturais e oscilações familiares, crescimentos desfasados (físicos e psicológicos), escolhas distintas do ponto de vista profissional, descobertas cruzadas da sexualidade e do amor. A previsibilidade espreita em Agnès, "pobre menina rica" rica alienada dos pais; ou Leila, imigrante que trabalha mais do que todos os outros. Ou no modo com o mundo do ballet/dança no qual Chloé imerge é retratado, sem a complexidade, por exemplo, de "Polina" de Bastien Vivès (Casterman, 2011). Mas Sophie Michel é arguta na escolha e interpretação dos episódios que marcam as três amigas, incluindo os momentos em que se afastam, e no modo como as faz crescer de forma credível. E é interessante ver como o belo desenho e cores suaves de Emmanuel Lepage, que noutras obras é utilizado como contraponto à violência do argumento, neste caso cumpre a função de atrair o leitor, deixando a história deslizar. Na vida de Leila, Chloé e Agnès sucedem-se aventuras, crises e resoluções, e termina-se com um fechar do círculo que se antevê logo no início. E não há mal nenhum nisso. Desse ponto de vista há claras afinidades com um livro dirigido a um público completamente distinto: Rugas de Paco Roca, onde se acumulam elementos adivinháveis, neste caso com protagonistas na terceira idade. Tal como Rugas, Oh, Miúdas! é um livro muito bem feito, que funciona, e que se espera atinja o público a que se destina, sobrevivendo aos outros. A edição completa num só volume, em vez dos álbuns originais, foi uma ideia acertada; na verdade o modelo franco-belga das BDs com 46 páginas parece cada vez mais obsoleto, tanto pela possibilidade, neste caso, de ler a história de uma só vez, como pelo menor custo que implica.

 

Oh, miúdas! Argumento de Sophie Michel, desenhos de Emmanuel Lepage. ASA, 130 pp., 21,90 Euros.