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As Sequências Rebeldes

Sobre a exposição Tinta nos Nervos e respectivo catálogo foi publicado o texto abaixo no JL-Papel. Reproduz-se o mesmo, mas, porque o tema merece, com algumas reflexões suplementares que, ou não pareceram úteis nesse formato, ou que a limitação de carateres não permitiu incluir. Às vezes a limitação de carateres é mesmo útil ou não nos calamos...

João Ramalho-Santos

A coisa má das exposições é serem temporárias, a coisa boa é deixarem memória e catálogo. Comissariada por Pedro Vieira de Moura Tinta nos Nervos foi uma importante iniciativa na história da BD nacional, reunindo uma seleção de autores no Centro Cultural de Bélem. A missão, simples e ambiciosa, vem de trás: trazer o discurso crítico em torno da BD para onde moram as outras artes, valorizando autores que encaixem numa visão específica.

Não é fácil, e basta pensar noutras linguagens: como seleccionar um número limitado de escritores/realizadores/artistas plásticos distintos, justificar essas escolhas e criar um discurso que os una? A resposta é simples. Ressalvando que se pretende BD experimental e de autor, não se justifica muito ou tenta trabalhar afinidades, deixando as escolhas falarem por si. É pena, porque há pontes óbvias, sejam histórico-temáticas, seja no modo como se entende a linguagem, e algumas foram de resto assumidas na montagem da exposição. Claro que a escolha em si tem muito que se lhe diga. Mas, apesar de até poderem ter sobrado paredes, o objetivo de uma seleção é selecionar para fazer passar uma mensagem. E, tal como nas equipas de futebol, para entrar uns teriam de sair outros. É aqui que se fazem "amigos", na BD como no resto...

Um ponto óbvio é a inclusão de Rafael Bordallo Pinheiro e Carlos Botelho. A missão é clara: validação histórica usando nomes inquestionáveis da cultura portuguesa e de outras linguagens. Um outro a acrescentar aqui seria Stuart de Carvalhais; já ET Coelho ou Fernando Bento (figuras importantes, mas "só" da BD) levariam a mostra para onde nunca quis ir. Mas teria sido possível retirar Bordallo e Botelho sem consequências. Uma validação desse género (se é preciso repetir é mau sinal) já tinha sido dada pela exposição anterior na Fundação Gulbenkian (2000) e respetivas obras associadas, de João Paulo Paiva Boléo/Carlos Pinheiro. Por vezes dá a ideia que na BD portuguesa se está sempre a começar do início. Já a presença de Eduardo Batarda implica outro tipo de validação, a aproximação às artes plásticas. Pedro Proença seria outro nome possível, mas Isabel Barahona e sobretudo Cátia Serrão são muito interessantes. A par de Nuno Sousa, bastaria Serrão para entusiasmar quem acha que já conhece tudo nesta área.

Nos restantes nomes estabelece-se a distinção crucial entre autores que qualquer crítico responsável teria de incluir pela qualidade e corpo de obra, e as verdadeiras escolhas de Tinta nos Nervos. Uns consolidam, os outros projectam. António Jorge Gonçalves, Miguel Rocha, Filipe Abranches, Richard Câmara, Janus, Nuno Saraiva, Victor Mesquita, Isabel Lobinho, João Fazenda, Diniz Conefrey, Teresa Câmara Pestana, Tiago Manuel, Susa Monteiro ou José Carlos Fernandes pertencem ao primeiro grupo. Para além dos já citados Barahona, Serrão e Sousa, Marco Mendes, Miguel Carneiro, Carlos Pinheiro, Jucifer, Bruno Borges, Mauro Cerqueira, Isabel Carvalho e mesmo Marcos Farrajota ou Paulo Monteiro (importantes a outros níveis, não como autores) claramente ao segundo. As escolhas menos interessantes, frágeis, ou prematuras estão aqui, mas sem esse risco não se respeitaria o trabalho. Pedro Burgos, Carlos Zíngaro, Pedro Zamith, Pedro Nora, Alice Geirinhas, Maria João Worm, Ana Cortesão, André Lemos, João Maia Pinto, Luís Henriques, Pepedelrey ou Daniel Lima encaixam (melhor ou pior, de Lemos e Geirinhas a Pepedelrey e Henriques) no esquema global de Tinta nos Nervos (melhor, pressente-se, que JC Fernandes), mas é duvidoso que fossem universalmente seleccionados, até por nalguns casos se repetir material em mostras deste tipo há décadas. E quem falta? Na verdade, e considerando a lógica interna, talvez só Rui Lacas, Fernando Relvas ou Ricardo Cabral (autores e experimentais, mas dentro de um outro cânone). Outras escolhas (Pedro Massano, ZéManel, José Abrantes, Rui Ricardo, Diferr, J Coelho, Luís Louro, Osvaldo Medina, Eugénio Silva, Bernardo Carvalho, Cristina Sampaio, David Soares, Luís Afonso, Jorge Mateus, Zeu...) e esta não seria a exposição pretendida. Em resumo: Tinta nos Nervos foi uma bela mostra de BD Portuguesa, não a única.

Quanto ao catálogo, e embora fosse previsível pela filosofia explicitada acima, é pena que não traduza mais do pensamento crítico que Moura demonstra no seu blogue LerBD. Entende-se que um Movimento não se faz só com um nome, mas as contribuições a montante (Domingos Isabelinho) e jusante (Sara Figueiredo Costa) pouco acrescentam. E o facto de textos e obras expostas se intercalarem por ordem alfabética não resulta tão bem como a ideia. Também aqui a mensagem é clara: (estes) críticos e autores são parte integrante de um mesmo processo/discurso. Essa seria outra discussão, mas o que fica sugerido como corolário é o fechar da iniciativa sobre si mesma. E isso nunca parece ser o que se pretende num objeto que tem potencial para, aproveitando iniciativas anteriores, levar a discussão em torna da BD para fora do contexto historico-nostálgico. Ao nível da edição, intervenção e internacionalização (óbvios caminhos apontados) Tinta nos Nervos tem de ter consequências.

 

 

Tinta nos nervos: banda desenhada portuguesa. Cordenação de exposição e catálogo Pedro Vieira de Moura. Museu Coleção Berardo/Centro Cultural de Bélem, 200 pp., 24,99 Euros.

 

 

 

Acrescentos:

 

0- Consequências

Já depois de ter posto o texto online, a última frase do mesmo teve uma materialização que se saúda. Esta:

1ªs Conferências de

Banda Desenhada abrem inscrições para "Call for Papers"





Nos dias 22 e 23 de

Setembro o IFP - Institut Français du Portugal, em Lisboa, acolhe as 1ªs

Conferências de Banda Desenhada, uma iniciativa do investigador de banda

desenhada Pedro Vieira de Moura. Este encontro tem como objectivo apoiar a

investigação consolidada em torno da banda desenhada e de outras áreas que lhe

estão intrinsecamente associadas como a ilustração, a caricatura e o cartoon editorial, entre

outras. As conferências serão um fórum de encontro e de troca de leituras sobre

o tema que, para além de colocar perspectivas teóricas sobre o tema lado a

lado, procura aproximar os vários investigadores portugueses de forma a criar

uma massa crítica sobre banda desenhada em Portugal.

 

O primeiro passo para

inscrever trabalhos para a avaliação da Comissão de Apreciação para  serem

apresentados nas Conferências de Banda Desenhada é realizar o envio dos papers através do e-mail bd@wakeup.com.pt até 1 de Julho. Os trabalhos

seleccionados serão divulgados em blog.wakeup.com.pt no dia 29 de Julho.



1. Ofertas. É costume nestas ocasiões agradecer-se a eventual oferta de livros. Neste caso agradeço a Pedro Moura e ao CCB a intenção de me oferecer o livro... Que, como todos os que me enviam para o JL, desapareceu num misterioso buraco negro. Esses livros nunca me chegam às mãos, espero sinceramente que sejam úteis a alguém na Sede (que nunca visitei). Note-se: nunca deixei de falar de um livro por não o ter recebido, aliás  recebo muito poucos (noutra morada...). Este adquiri-o no CCB, em conjunto com outras obras, por exemplo o último de Marcos Farrajota ou a coletânea Destruição da Chili com Carne que, por motivos que me ultrapassam, não é possível adquirir na livraria Dr Kartoon. Não comprei mais porque, seguindo uma "filosofia" que reconheço de editoras francófonas como a L'Association ou Frémok, alguns livros tinham preços incomportáveis, nalguns casos a roçar mesmo o risível, considerando o tamanho e qualidade das edições.

 

2. Agradecimentos. Nestas coisas o importante é descobrir. Para além da excelência global da exposição, eu descobri Cátia Serrão e Nuno Sousa, percebi um pouco melhor Marco Mendes e Isabel Carvalho, fiquei com vontade de ver mais de Carlos Pinheiro. Só por isso já teria valido a pena.

 

3. Seleções. Há sempre um princípio fundamental: se se critica é preciso propor alternativas. E, tal como as listas dos melhores isto e aquilo, tem sempre alguma graça. Então que autores teria eu selecionado para uma exposição deste tipo? Sublinhe-se: deste tipo, não com estes objetivos/missão, nem contexto. Desde logo teria de ser uma exposição única, mas com ramos, tendências e grupos.

Caso não tenha ficado claro do texto acima: escolhia todos os do primeiro grupo (mais Lacas, Relvas e Cabral), alguns do segundo, e quase todos do terceiro, dependendo do alcance desta exposição virtual, uma perspetiva história implicaria todos, uma perspetiva atual não. E claro que me esqueci na altura de mandar o texto ao JL de gente que convinha considerar, como por exemplo Álvaro ou José Pires, entre provavelmente outros. Mas a ligação à ilustração/cartoon parece-me interessante e a explorar. Porquê poucos do segundo grupo? Porque, honestamente, teria de conhecer um pouco mais o trabalho de alguns deles. Não os de Farrajota ou Paulo Monteiro, que considero importantes enquanto editor e dinamizador, não autores, para já. Quanto aos restantes, em ciência dizemos muitas vezes que apresentamos nos nossos trabalhos "resultados representativos" das experiências que fizémos. Isto é um código, cuja tradução é: estes são os melhores resultados. Para estar numa exposição deste género um autor teria de ter suficiente material para um organizador agonizar com as escolhas concretas que teria de fazer. Por outro lado, detetei traços de endogamia e citações cruzadas entre autores deste segundo grupo, o que me levanta sempre dúvidas.

Iria ainda buscar alguns dos novos autores a trabalhar para o mercado americano (Plati, Tércio, etc). Porque, ao contrário daquilo que refere indiretamente Sara Figueiredo Costa no catálogo, e modificando um pouco a sua metáfora cinéfila, que é sempre mais fácil de entender: não se trata aqui de optar entre Michael Bay e a Disney de um lado, e Abbas Kiorastami ou Hal Hartley de outro. Ou seja, não está de um lado o cinema/BD de explosões acéfalo ou o infantil açucarado-moralista, e do outro o cinema/BD pessoal de autor, que também não é necessariamente uma fórmula mágica para o que quer que seja. A meu ver o objetivo de algo deste género deve ser sempre incluir autores de Kiorastami a Hal Hartley, a David Fincher, Christopher Nolan, Emir Kusturica ou Catherine Breillat. De Hergé a Seth. Pessoais, inteligentes e experimentais, mas que não desdenham necessariamente o público ou vêem o entretenimento enquanto anátema.

Para isso é bom ter amigos (e sócios) com gostos variados e abertura de espírito, que dão sugestões fora da nossa área de conforto. E também é útil pensar um pouco para além de simpatias pessoais e afinidades estéticas que entram sempre neste tipo de escolhas. Por mais que se diga o contrário, ou se disfarcem preferências em discursos pretensamente objetivos, esse fator é incontornável.

 

4. Associações. Na apresentação da exposição dizia-se que não se pretendeu tecer nenhuma associação entre autores. Talvez tenham sido inconscientes, mas estavam lá. Separar fisicamente o mais possível Victor Mesquita, Carlos Zíngaro e Isabel Lobinho (unidos por uma época que se reflete claramente nos estilos) não esconde outras aproximações, como Susa e Paulo Monteiro, António Jorge Gonçalves, Miguel Rocha e Filipe Abranches, ou entre vários autores do grupo das "verdadeiras escolhas", que até colaboram em obras expostas. Não há mal nenhum, podia ter sido mais trabalhado, até nos textos.

Noutra perspetiva a escolha de algum material exposto também foi reveladora no sentido em que sublinhava a vontade de mostrar os autores fora de uma estrutura que o público identificaria com a BD. Se isso é difícil com José Carlos Fernandes (que chegou a parecer deslocado na mostra) quem visse o trabalho exposto de Pepedelrey dificilmente reconheceria o autor em livro.

 

5. Catálogo. Um pormenor óbvio é a capa. Claro que não podia ter desenhos, por dois motivos. Era ceder à uma iconografia/imagem da BD à qual se pretende escapar, e como escolher qual(ais) usar? A solução não me pareceu particularmente conseguida, mas a edição é curiosa na união entre páginas (sugerido à primeira vista a necessidade de uma faca para abir páginas ocultas), que vinca a união entre críticos e autores, mencionada acima.

Por outro lado, o facto de os textos não estarem concentrados no início (ou final) do catálogo tem como consequências indireta que nunca poderiam ser muito extensos, ou gerar-se-ia um desequilíbrio.

E todos os textos andam à volta da mesma questão, usando perspetivas diferentes. Para prolongar o raciocínio acima, o ponto comum a todos é que a BD é excelente como linguagem, mas tem sido (mal) servida por autores e críticos que, ou só valorizam Michael Bay e a Disney, ou não os distinguem de Abbas Kiorastami, ou não sabem louvar Kiorastami como merece. São textos introdutórios, que pouco passam da introdução. Percebe-se: estão a chegar a um público que não conhece a linguagem, e que tende a confundi-la sempre com Michael Bay/Disney. Só que o espaço curto não dá muita alternativa para um seguimento. E, com uma oportunidade notável como era esta, fica a ideia que houve algum receio de arriscar no texto, completamente contrário ao espírito das escolhas.

Como disse acima: na BD portuguesa parece que se está sempre a justificar, e a começar de início. Em edições de BD histórica entra-se de forma sistemática pela nostagia para desculpabilizar defeitos do objeto, quando se devia apostar nas qualidades, sem esquecer os defeitos. Os próprios autores dos textos de Tinta nos nervos têm dito isso mesmo várias vezes com toda a razão, e um exemplo recente encontra-se na bela re-edição de Quim e Manecas.

 Mas outra justificação recorrente (repetida aqui) é a de que "agora a BD já não é só para miúdos".

E o fato de ser recorrente é mau sinal, como é óbvio.

Neste caso, aproveitando a indesmentível valorização/validação dada pelo CCB/Museu Berardo, o catálogo podia ter ido mais além dessa "limitação", sem a esquecer. Pelo menos um dos textos, e como fica claro acima, em minha opinião o do próprio Moura, poderia ter sido autista a esse nível, e explicado mais da visão do autor sobre BD. Como se toda a gente já soubesse e aceitasse que a BD é excelente como linguagem.

Quanto aos restantes, o texto de Sara Figueiredo Costa desenvolve boas análises sócio-editoriais conhecidas (admitidamente que não para este público-alvo) e independentemente de se concordar ou não com a sua interpretação ou exemplos (na internacionalização da BD nacional faltou referir JC Fernandes), poderia sózinho cumprir a tarefa que todos os textos parecem ter como sua. Por último, mais do que os restantes autores, que são críticos com espaço no "mainstream", Domingos Isabelinho teve aqui uma merecida oportunidade única para divulgar o seu pensamento num fórum alargado e apropriado para os seus interesses. Por um lado consegue simplificar e resumir um discurso que às vezes é demasiado denso, por outro a sua contribuição resume-se ao reciclar comum a todos os textos. De passagem entra em mais um processo de sanitização crítica seletiva dos autores que lhe interessam. Antes "defendera" sem necessidade Carl Barks (autor de BDs da Disney) ou Jack Kirby (o seminal criador de superheróis da Marvel) do facto indesmentível de terem sido autores formulaicos de grande público. Algo que nunca os impediu de serem pessoais e experimentais, mas encaixa mal no cânone pretendido. Desta vez consegue culpar a Disney pela misoginia de Robert Crumb. Tudo isto até poderia ser muito interessante, se contribuisse para a discussão em torno da BD portuguesa, que supostamente era o objetivo.

É evidente que a maior vitória de algo como Tinta nos nervos é sempre para os autores, como não podia deixar de ser. Mas o catálogo fica. A única razão para as falhas apontadas acima, e para um catálogo, a este nível, abaixo das espetativas é que haverá outras publicações e iniciativas futuras nas quais o projeto (para usar sem ironia um elemento perdido da BD no tempo das revistas) continua. Pelo menos é nisso que escolho acreditar.

 

6. Acasos. No CCB havia em simultâneo uma exposição brilhante sobre mapas (e, claro, territórios). Lars Arrhenius, artista plástico sueco, utilizou um plano de Londres para cruzar várias histórias, numa gigantesca BD de um só quadradinho múltiplo. O livro (na forma de mapa turístico) chama-se AZ, e para o publicar (em 2002, pela PEER) for preciso dobrar o mapa. Ver a obra completa com todas as narrativas em simutâneo foi um prazer. É isto a Arte: umas coisas levam a outras.