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LOUCURA

As Sequências Rebeldes

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O desafio mais importante em banda desenhada ao nível do argumento  relaciona-se com escolhas. Se num romance em prosa acrescentos de páginas ou mesmo de capítulos podem não ter grande significado (sendo facilmente resolúveis do ponto de vista gráfico), em BD algumas palavras ou conceitos a mais podem causar problemas na extensão e equilíbrio da obra. (texto publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

Não quer isto dizer que em prosa a seleção de palavras não tenha de ser judiciosa, mas em banda desenhada é-o particularmente. Não só porque as palavras se têm de relacionar com o desenho, mas, sobretudo, porque são muito menos. Essa é, de resto, a primeira reflexão que suscita "Palmas para o esquilo", mais uma interessantíssima colaboração entre o escritor David Soares e o desenhador Pedro Serpa (Kingpin Books).

Como é já notório há algum tempo, a Kingpin tem hoje um papel fundamental na edição de BD feita por autores nacionais. Tanto mais porque é visível uma estratégia clara e bem definida, que não passa "apenas" pela qualidade individual dos seus autores, mas pela complementaridade entre eles, pela escolha de oportunidades temáticas, pela abordagem a públicos específicos. E pelos valores de produção, incluindo um preço acessível que não estará dissociado de uma limitação ao nível das páginas disponíveis. É precisamente aqui que é preciso ter em conta a estrutura do argumento.

"Palmas para o esquilo" decorre em três locais com naturezas específicas: num asilo para pacientes com distúrbios mentais (versão mais asséptica da "casa amarela" de João César Monteiro), na mente auto reflexiva do narrador-filósofo, e na cabeça das personagens, uma de um modo óbvio, outra subentendida no final.

O tema central não parece ser tanto a diferença entre imaginação e loucura (frase do argumento escolhida para a contracapa), mas o modo como se negoceia continuamente a sanidade por entre os vários acontecimentos castradores e traumáticos que nos marcam, pormenores que se vão amplificando com a idade até dominarem a existência, podendo mesmo ser transmissíveis a outros. A interrogação mais profunda é, no fundo, porque motivo não somos todos loucos. Ou seremos?

Aquilo que me parece fundamental no desenho de Pedro Serpa é o modo como consegue sugerir emoções extremas com detalhes mínimos, incluindo espaços vazios, e como resolve de maneira subtil imagens fortes sugeridas pelo argumento, simultaneamente evitando o sensacionalismo, e aumentado a perturbação. Desse ponto de vista a complementaridade com David Soares é total, melhor do que no anterior "O pequeno deus cego".

Apesar de usar alguns lugares comuns reconhecíveis no que diz respeito à definição e representação da loucura (com o que de bom e mau tal implica), Soares mescla muito bem diálogos simples e credíveis, com uma narração que, apesar de seguir o seu habitual estilo gongórico, não deixa o leitor para trás. Sobretudo o argumento escolhe muito bem as poucas palavras que usa. Quem quiser pode (tentar...) decifrar todos os significados e referências (ao contrário de Alan Moore, Soares não é adepto do uso copioso de notas), mas a verdade é que a história não o exige, e as muitas reflexões que o livro suscita também não.

Em termos daquilo que deve ser a edição de banda desenhada com qualidade num mercado como o nosso, as diversas facetas e camadas de "Palmas para o esquilo" mostram o que uma coerência na visão de autores e editores pode acrescentar a um projeto.

 

 

Palmas para o esquilo. Argumento de David Soares, desenhos de Pedro Serpa. KIngpin Books, 52 pp., 11 Euros.