Jornal de Letras

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LEGADO

As Sequências Rebeldes

Por vezes a edição tem destas coisas: pretexto para uma boa exposição no Festival da Amadora do ano passado É de noite que faço as perguntas (Saída de Emergência) é agora lançado. Valeu a pena a espera. (texto publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

Concebido por David Soares o livro é uma meditação sobre a República, preparado a propósito do centenário da sua implantação. Ao longo de vários episódios um pai-narrador propõe-se transmitir a um filho ausente enamorado com o Estado Novo uma espécie de legado: a memória desiludida de como o desejo de liberdade na República originou o conforto da opressão salazarista. É de noite que faço as perguntas é uma livro interessante logo aí, por não se deter no tom celebratório, mas na amargura que compõe o reverso da medalha. Nas efemérides o contraponto é sempre útil, mesmo que tão parcial quanto o ponto, e, desse ponto de vista, é pena que o livro não tenha saído antes.

O tom meditativo usado nesta banda desenhada parece aplicar-se a qualquer outra revolução que não tenha cumprido integralmente ideais, ou seja todas. Para muitos leitores pode ser mesmo inevitável senti-la enquanto elegia ao 25 de Abril, atrasada no tempo. Mas também podia ser sobre a Revolução Francesa, ou a Americana, ou... O facto de no livro a mensagem não passar, e o legado se revelar inútil, pode representar isso mesmo.

É de noite que faço as perguntas divide-se em episódios confiados a distintos desenhadores. Os temas abordados vão do regicídio à nomeação de Oliveira Salazar para a pasta das finanças, passando por toda a turbulência intermédia que inclui a Primeira Guerra Mundial ou a ditadura de Sidónio Pais. Mas David Soares pesquisa mais fundo, tenta traçar um retrato mental do país com elementos que incluem o Ultimato inglês (notável o uso dos penicos debaixo da cama), as viagens de Sacadura Cabral e Gago Coutinho (encaradas enquanto uma espécie de "Descobrimentos, série B"), ou marcos culturais como o Orpheu. O ritmo oscila entre o onírico-simbólico e a narratividade mais linear, sendo que o segundo dispositivo serve sobretudo para acompanhar a evolução do protagonista, enquanto o primeiro pontua a mutação paralela do país. A utilização de simbolismo é aqui muito eficaz a resumir estados de alma em cada um dos capítulos com um mínimo de espaço. Noutros tipos de obras poderia resultar pesado, vago ou ostentatório; neste caso, não só resulta em pleno, como é essencial, considerando a condensação temporal que se pretende. Nesse particular sente-se o espírito de uma das grandes influências de Soares em BD, o inglês Alan Moore. Falta, no entanto, um elemento fundamental deste último: as detalhadas notas finais que em obras como From Hell contextualizavam o contexto histórico e decifravam as várias citações (gráficas e narrativas) mais ou menos escondidas em cada página. De facto, É de noite que faço as perguntas também se pode considerar um exercício de decifração para o leitor, embora (e a ressalva é crucial) resista muito para além disso; mesmo que não se compreendam algumas referências o "spleen" é palpável. E para tal contribui sobremaneira um trabalho gráfico excelente, dos melhores que tenho visto numa obra coletiva. Encarregando-se de diferentes episódios, Jorge Coelho, João Maia Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara conseguem transmitir uma unidade global à obra, mantendo-se ao mesmo tempo perfeitamente individualizados na caraterização gráfica de cada um dos momentos/andamentos escolhidos pelo argumentista. Ao contrário do que sucede noutros livros com estas caraterísticas, aqui não há elos fracos.

Fugindo a expetativas É de noite que faço as perguntas é um livro que vale a pena ler, decifrar, discutir.

 

 

É de noite que faço as perguntas. Argumento de David Soares, desenhos de Jorge Coelho, João Maia Pinto, André Coelho, Daniel da Silva e Richard Câmara. Saída de Emergência, 64 pp., 18 Euros.