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DÍVIDAS

As Sequências Rebeldes

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A utilização da linguagem da banda desenhada para fazer passar uma mensagem não é algo novo, e a sua eficácia tende sempre a surpreender mesmo os mais céticos. Mas o género tem um percurso limitado em Portugal, e não só por causa daquela perigosa palavra que parece diminuir toda a forma de Arte que toca: "pedagogia"...  (texto publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

Em termos de objetivos pedagógicos a forma mais divulgada entre nós sempre foi a BD histórica, dedicada a um local, uma organização, um indivíduo. E os seus cultores (como José Ruy) transpuseram para esse trabalho a mesma estrutura-base da BD de aventuras, na qual se tinham aperfeiçoado enquanto autores, produzindo obras onde a pedagogia parece forçada, e a narrativa desconexa.

Para funcionar um livro deste género tem de saber criar um ritmo próprio, não clonar o de obras com as quais nunca poderá competir. E sobretudo tem de saber selecionar e dosear a informação, e ir mudando o registo, por exemplo alternando sequências em BD com a caricatura e o texto ilustrado de modo a evitar o desconforto de ter "personagens" e debitar informação de forma irrealista. É o que Larry Gonick faz na notável série The Cartoon Guide to...

Claro que é preciso um tema galvanizador, e quem o saiba desenvolver. Como a crise e de como chegámos aqui, retratada em Isto é um assalto, a história da dívida em banda desenhada (Bertrand), já em segunda edição. 

Um livro que procura desconstruir a história recente do país, contextualizando-a numa perspectiva global (da Antiguidade aos nossos dias), e acrescentando números e histórias laterais de dívidas (não pagas) de muitos outros (as de todos os bancos, e de países como Islândia, Argentina, e, recuando no tempo, Alemanha), relações perigosas entre governantes e bancos (desde a monarquia ao "ramo português" do globalizado "Governo Goldman Sachs"), e explicações simples sobre "subprime", "défice", "juros", "dívida odiosa" ou "mercado".

Não serão demasiados tópicos? Talvez sim, e é inevitável que a organização global sofra por isso mesmo, quer em termos de profundidade, quer na interligação dos diferentes temas. Desse ponto de vista o livro lembra outra obra sobre um assunto complexo, Best of Enemies: A History of US and Middle East Relations, dos franceses Jean-Pierre Filiu (historiador) e David B (autor de BD), só que aí houve uma sensata divisão em vários volumes. Mas Isto é um assalto é também um Manifesto, e os Manifestos não se fazem em fascículos. É sabido que nenhuma abordagem a este tópico é neutra, mas sempre ideologicamente marcada, e ao pegar num livro escrito por Francisco Louçã (e Mariana Mortágua) os leitores saberão desde logo com o que contar. A questão é que este pode ser um ponto de partida para outras leituras, reflexões, descobertas, discussões, ações; cada vez mais exigentes. Ou, até, para se perceber que talvez as coisas não sejam assim tão complicadas, e não devam ser vistas apenas sobre a perspetiva dos que estão nos vários degraus do poder, com acesso ilimitado aos mídia, e visões apenas distintas nos pormenores. Sobretudo agradece-se que seja lido (como parece estar a suceder) não apenas pelos já convertidos às posições dos autores.

Embora haja alguns pormenores editoriais que poderiam ter sido mais trabalhados, o texto funciona (concorde-se ou não com a substância) e Nuno Saraiva é o ilustrador ideal, com a qualidade e ecletismo necessários para uma tarefa deste género. Na verdade, já tinha abordado o tema nas ilustrações (e perspetiva de esquerda) para o ecuménico duplo livro infantil A crise explicada às crianças (Esfera dos Livros), com texto (e perspetiva de direita) de João Miguel Tavares.

Para além do efeito que possa ter a outros níveis Isto é um assalto é um excelente exemplo de como a linguagem da BD pode ser utilizada para transmitir mensagens e opiniões, desde que quem o faça perceba os mecanismos, e saiba o que está a fazer. Já era tempo.

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Isto é um assalto (a história da dívida em BD). Texto de Francisco Louçã e Mariana Mortágua, ilustrações de Nuno Saraiva. Bertrand Editora 175 pp., 15 Euros.