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Days of the Bagnold Summer, Joff Winterhart

As Sequências Rebeldes

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Listas há muitas, que não apenas a das 1001 bandas desenhadas que se devem ler antes de morrer. Todos os anos surgem novas, como a lista das BDs do ano do jornal britânico Guardian. E nessas listas devem buscar-se sobretudo livros e autores que se conhecem menos. Como este. There are many lists besides Paul Gravett's "1001 Comics you should read before you die".  Every year there are new ones, such as The Guardian's best comics for 2012. In those lists I always recommend going for books and authors you have never heard of. At the end an English version of this review is provided.

João Ramalho-Santos

Days of the Bagnold Summer, do inglês Joff Winterhart é uma "graphic novel" muito particular, não tanto pelo conteúdo, protagonistas ou tema, mas pelo formato em que são abordados. Na verdade o ponto de partida da história é banal, e parece contente em sê-lo. A inglesa Sue Bagnold tem 52 anos e é bibliotecária de profissão numa pequena cidade, com todos os "clichés" associados a quem sabe, organiza e lê, mas pouco faz, e com nada se parece. O seu filho Daniel tem 15, e todas as habilitações para ser um adolescente tímido não-alinhado, nem popular, nem estudioso, nem suficientemente diferente ou depressivo. Embora não o entendam, porque o diálogo entre eles é pouco mais do que nulo (outro "cliché"), o descontentamento e desilusões são comuns, apenas as espectativas são diferentes, porque a experiência não é a mesma. A esta micro-família falta o pai,  emigrado nos EUA onde entretanto criou outras raízes. Daniel deveria visitá-lo na Florida durante as férias, mas a gravidez da sua madrasta americana levou a uma mudança de planos, e os longos dias de Verão serão passados em casa, com a mãe. O que se segue é a sequência lógica da premissa inicial, com Sue e Daniel hesitantes nas suas relações com a vida e com os outros, tentando tirar sentido e felicidade de um dia a dia banal que oferece possibilidades limitadas. E procurando que as respetivas órbitas pessoais se intersectem (Sue), ou nunca se cruzem (Daniel), como a capa do livro resume brilhantemente desde logo. Para cúmulo o traço grotesco delicado de Joff Winterhart parece vincar as imperfeições (físicas e mentais) das personagens.

Parece deprimente, não?

Mas não é, devido a duas opções do autor. A primeira, mais simples (conceptualmente, nem sempre é bem executada), consiste em humanizar as personagens, tornando-as credíveis e tratando-as sem qualquer ponta de cinismo. A segunda é estrutural, e muito mais interessante. Days of the Bagnold Summer não tem uma sequência narrativa linear, antes é constituída por dezenas de pequenos momentos temáticos contados numa página com seis vinhetas cada. É na ligação entre esses momentos, no preencher do que ficou por contar, que a história se completa. Trata-se pois de mais um exemplo de como utilizar a linguagem própria do formato, expandindo a necessidade de transição entre vinhetas, que é comum a toda a banda desenhada, acrescentando-lhe uma outra transição, entre momentos minimamente auto-conclusivos, que fica também à responsabilidade de cada leitor. Por outras palavras, esta é uma narrativa dramática organizada como se fosse uma colectânea de tiras cómicas, sem o humor (que não umas pitadas, aqui e ali). 

O efeito pode ser considerado a dois níveis, e funciona em qualquer um dos casos. Quem não reconhecer o formato apreciará o modo como Winterhart define a história utilizado episódios que têm de ser lidos para além do próprio instante que representam, de modo a criar um fluxo linear. Quem for leitor habitual de tiras cómicas não deixará de admirar o modo como o autor subverte o modelo, adaptando-o a um outro tipo de história. Em Days of the Bagnold Summer a banalidade é apenas aparência.

 

Days of the Bagnold Summer, Joff Winterhart. Jonathan Cape, 2012 (18/20)

 

Joff Winterhart's Days of the Bagnold Summer is a very unusual graphic novel. Not necessarily because of content, characters or theme, but in terms of how these elements are brought together. In fact, the starting point seems almost content in being completely banal. Sue Bagnold is a non-descript 52 year-old English small town Librarian, with all the "clichés" that one might immediately associate with such a description. Her son Daniel, 15, is a shy and awkward teenager that fits into no particular clique.  Although they live in a permanent state of non-communication (yet another "cliché") their disenchantments are actually very similar, with small changes due to age and experience. Their micro-family is missing a father, who left for the US on business, never to return. Daniel was supposed to visit him there, but the pregnancy of his American stepmother threw a wrench in that plan. The long summer days must therefore be spent at home, with his mother. What follows are the logical developments of such a premise. Sue and Daniel hesitantly feeling their way around their world and other people, trying to squeeze whatever happiness or sense from what perfectly ordinary lives can offer. And trying to either connect (Sue) or avoid each other (Daniel) in the process, something the cover of the book is excellent at immediately establishing. On top of all this the hint of grotesque in Joff Winterharts thin drawing style brings out the apparent worst in his characters.

Depressing, right?

Actually no, not at all. And for two main reasons. One simple, but often poorly executed, solution is to treat the characters with respect, making them humane, and avoiding the easy temptation of cynicism.  This is done brilliantly here. The second has to do with structure, and is what makes this book so interesting. Days of the Bagnold Summer does not have a linear flow, but is instead composed by dozens of small moments/episodes told in a single page with six cases each. The reader needs to connect these small stories filling in whatever is missing, thus completing the narrative. Thus what we have here is a second layer of reader-dependent bridging. The first layer involves connections between consecutive cases, and is common to all comic books. The second consists in establishing transitions between semi self-contained moments. In other words: this is a dramatic graphic novel structured as if it were a collection of comic strips, minus the humour (or with a bit of the dry variety thrown in for good measure). This option can be appreciated at two distinct levels. Those who do not recognize the format will appreciate how Winterhart organizes the story, using multiple episodes that must be read beyond the moment they represent in order to create a narrative flux. Those who normally read comic strips will admire the way the author subverts the model, adapting it to a different type of story. In Days of the Bagnold Summer banality is mere appearance.