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Composição: Obras do 23º AmadoraBD, Parte II

As Sequências Rebeldes

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Repete-se: nem todas as obras foram apresentadas no AmadoraBD, mas estiveram em destaque no evento. E algumas merecem um tratamento mais individualizado, por diferentes motivos. Desde logo registe-se a qualidade média notável das propostas. Conclusão da entrada anterior.

João Ramalho-Santos

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O Baile, de Nuno Duarte e Joana Afonso (Kingpin Books)- Já referi várias vezes que na BD nacional se nota uma maturidade gráfica superior à maturidade narrativa. E por isso é que este foi o livro que li com mais espetativas. Porque a Kingpin de Mário Freitas tem feito excelentes apostas e cultivado a partir da base (como deve ser, portanto) um tipo de BD  que mais ninguém trabalha de maneira tão completa. Mas sobretudo porque O Baile era de Nuno Duarte. Sem desprimor para o excelente desenho de Joana Afonso, que consegue capturar as diferentes cambiantes pedidas pela história, aqui o interesse maior era mesmo rever o argumentista nacional que melhor gere um ritmo narrativo clássico. Entendam como quiserem, para mim é um elogio. Duarte foi responsável, nomeadamente, pelo notável A Fórmula da Felicidade (com desenhos de Osvaldo Medina, também da Kingpin). Em relação a essa obra há, desde logo, diferenças importantes. A Fórmula da Felicidade tem dois volumes e uma narrativa muito focada do ponto de vista temático. O Baile tem 46 páginas e toca uma grande diversidade de tópicos. Desde logo glosa a Ditadura Salazarista e os métodos da PIDE, algo demasiado ausente na BD nacional (e não só na BD). Depois, e tal como Filipe Melo no segundo volume de Dog Mendonça e Pizzaboy, Nuno Duarte utiliza temas conhecidos, mas adaptando-os à realidade portuguesa, sejam "zombies", exorcismos e possessões demoníacas, ou a influência da religião. Há ainda o cenário pesado de uma aldeia piscatória isolada do mundo, e os fantasmas do Exílio e da Guerra Colonial. O protagonista, inspetor da PIDE mas que a investigação acaba por tornar numa espécie de Hellboy (e as afinidades com Mike Mignola são claras), terá de enfrentar tudo isto, bem como os seus próprios fantasmas.

Há um fio condutor claro: o(s) terror(es) que atormentam a aldeia deve(m) ser entendido(s) enquanto espelho(s) do terror da Ditadura que atormenta o país. Mas há demasiadas (sub)narrativas para 46 páginas, e é inevitável que não seja possível desenvolver tudo adequadamente. A dimensão caricatural no desenho de Joana Afonso ajuda a equilibrar todas as facetas do argumento, embora por vezes sugira um humor que parece deslocado. O Baile é livro corajoso e de leitura obrigatória, com excelentes pontos de partida; falta-lhe algum espaço para respirar.

(12 Euros, adquirido na Amadora).

 

Cinzas da Revolta, de Miguel Peres e Jhion (ASA)- Tal como O Baile este é um livro de leitura obrigatória, por vários motivos diferentes, mas um idêntico. Tem como ponto de partida um tema complexo do passado menos brilhante de Portugal, a Guerra Colonial. Fora algumas exceções (vêm-me à memória Victor Mesquita ou, num registo totalmente distinto, Vassalo Miranda), esta é uma temática muito desaproveitada, quando não evitada. O argumento de Miguel Peres toca ainda num ponto muito sensível: a identidade dos brancos nascidos em África, e que não foram "retornados", porque não estariam a retornar a lado nenhum. Desse ponto de vista é uma aposta da ASA na BD nacional que se saúda, por oposição a outras menos compreensíveis. Apesar de mais focado tematicamente do que O Baile, Cinzas da Revolta mistura componentes de relato de aventuras de guerra (e aprisionamento, com referência ao Síndroma de Estocolmo), com reflexões sobre colonialismo, e tem por isso o mesmo problema em termos do espaço disponível. A vontade de transmitir mensagens claras, e a necessidade que estas sejam entendidas, causa alguns saltos na narrativa, recorrendo por vezes a diálogos forçados. Noutra perspetiva, talvez demasiado seja transmitido ao leitor expositivamente, em vez de mostrado. No entanto, e apesar de não totalmente conseguido, o trabalho de Peres promete algo para o futuro.

Conhecia o trabalho do desenhador que aqui assina Jhion enquanto o João Amaral que ilustrou, a meu ver bem, a adaptação para BD de A voz dos deuses, de João Aguiar; bem como outras obras de cariz institucional. Aqui adota um estilo mais depurado com cores planas que, ao contrário dos efeitos usados na obra anterior, sublinha algumas deficiências do traço do ponto de vista anatómico, da expressão das personagens e do movimento. Lamento imenso ter de dizer isto, mas é a questão de sempre: tem de haver a mesma exigência que se aplica a outras obras. E este problema, que chegou a ser endémico na BD nacional, foi claramente ultrapassado por inúmeros autores (que trabalham, por exemplo, para a Marvel ou Kingpin), mostrando que não se trata de uma inevitabilidade. Espero que, numa linguagem tão marcada pela primeira impressão visual, esta caraterística não afaste muitos leitores de um livro que os merece, para que este tipo de edições corajosas por parte da ASA possa ter (con)sequência.

(oferta do editor)

 

S

angue Violeta e outros contos, de Fernando Relvas (El Pep)- A edição de um trabalho de um dos maiores autores portugueses de sempre tem de ser motivo de interesse. Esta colectânea de pranchas publicadas no jornal Se7e vai agitar as memórias de quem as leu na altura (e recortou, e colecionou), e confundir quaisquer outros leitores. Porque nela encontramos espelhada a imagem de Fernando Relvas, autor de BD. Um talento (quase sobre)natural para o desenho e para a linguagem da banda desenhada. Uma verve impressionante no texto, da coloquialidade à erudição (real ou pseudo). A capacidade de criar no leitor uma sensação de familiaridade imediata com personagens e situações num espaço narrativo mínimo. A mistura de registos (relatos urbano-depressivo-boémios, histórias de aventura e acção, "pastiches" de filmes), e a inventividade surreal das meta-narrativas. A confusão de histórias que não se sabe onde começam, e que quase nunca acabam. As mudanças de registo, o non sequitur, a "improvisação" constante. A incapacidade de criar uma narrativa mais longa que seja consistente. Algo que se nota muito mais numa coletânea do que na leitura de pranchas semanais que, percebe-se claramente agora, nunca foram pensadas para serem um conjunto.  Importante para a história da BD portuguesa, Sangue Violeta relembrou-me o prazer e a frustração simultâneos que sentia na altura em que lia o Se7e, e de certo modo testemunha porque a carreira de Relvas (nomeadamente a carreira internacional) nunca foi o que achávamos que na altura poderia ser.

Em termos de trabalho editorial faltam, em minha opinião, duas coisas. Uma memória descritiva que acompanhasse o livro, descodificando alguns elementos. E, já agora, uma datação que não apenas "pranchas publicadas na década de 1980".

(12 Euros, adquirido na Amadora).

 

Há piores 2, ainda mais profundo! de Geral e Derradé (Polvo)- Espero que esta sequela de Há Piores! seja sinal que o primeiro livro foi bem sucedido. Como boa dupla de humoristas no panorama nacional que são (era bom haver também mais Álvaro), Geral e Derradé voltam a mostrar o seu talento descontraído, desinibido, e bem ciente das suas qualidades e limitações. È esta qualidade que junta simbioticamente texto e desenho sem sobre ou subvalorizar um deles que faz com que a parceria funcione nas histórias dos Badsummer Boys ou Bubas, nas diversas paródias, ou nas "reflexões" de Shades. Mas sobretudo, e ainda mais neste segundo volume, na vertente de meta-narrativa, na qual Geral e Derradé surgem enquanto personagens de próprias pequenas histórias/tiras, e refletem sobre a sua atividade (precária) enquanto autores de banda desenhada, e de como a vida artística pode ser torpededa pela vida familiar, ou por milhares de outras coisas. Esperemos que consigam manter-se focados (e financiados) o suficiente para um terceiro volume.

(oferta do editor)

 

Sobrevida, de Carlos Pinheiro e Nuno Sousa (Imprensa Canalha)- Um livro muito curioso, de dois autores que tinha vislumbrado nalguns projetos promovidos por Pedro Moura (desde logo Tinta nos Nervos), mas dos quais não conhecia praticamente nada. Diário Rasgado deu a conhecer a um público mais alargado um outro, Marco Mendes; e as afinidades entre os três são claras, apesar do trabalho de Mendes apresentar, até ver, outra dimensão. Sobrevida é uma colaboração composta por dois registos independentes graficamente notáveis: A Noite (Pinheiro), O Dia (Sousa). Com um traço entrecruzado a preto e branco o Pinheiro recria um ambiente pouco definido através da sobreposição, lembrando gravura; com uma aplicação muito interessante de cor a indefinição em Sousa evoca um esboço muito bem trabalhado (ou um desenho que se esforça por parecer um esboço). A indefinição gráfica é uma ferramenta importante no fluxo temático de Sobrevida, onde o tempo passa esforçadamente e nada acontece (nem a gata- de Schrödinger?- morre). Em A Noite o hedonismo simbólico cansa-se a si mesmo numa celebração oca, em O Dia a rotina doméstica alimenta a inação. Em ambos se sente a espera por alguma coisa que teima em não chegar, que não se sabe se vai chegar ou não, que talvez até tenha já chegado (e partido). O mais interessante do livro é a soma iluminar para além das partes, ler uma das contribuições modifica a leitura da outra. No entanto, e talvez devido à própria temática, a sensação que fica é não se ter passado nada. Sem dúvida que é propositado, mas os livros deste tipo caminham sempre no fio da navalha. Também se deve considerar, sejamos justos, a gestão de espetativas. Deste livro esperava alguma coisa, do seguinte não esperava mesmo nada, porque nunca tinha ouvido falar do autor.

(10 Euros, adquirido na Amadora).

 

Auto-Grafia: O nome do pai, de Topedro (Ed. Autor)- Não conheço outros trabalhos de Topedro (António Pedro?), tão pouco os pesquisei. Como já disse noutras ocasiões: se um livro tem de ser explicado ou justificado se calhar não tem de ser lido. Encontrei os livros na Pedranocharco, que pouco mais me soube dizer sobre o seu autor. Comprei este, e fiquei agradavelmente surpreendido.

Relato de uma vida dos anos 1960 até aos nossos dias, O nome do pai faz um uso interessante da memória, desde logo atravessando com naturalidade os momentos de exaltação e crise da História de Portugal, encarados enquanto meros instantes laterais de um percurso individual que, como todos, está dentro da História mas a transcende. A indefinição que permeia o livro anterior surge também aqui, desta feita com imagens de tipo fotográfico desfocadas pelo desenho, solidificadas pelas palavras, mas nunca sabemos se devemos confiar por inteiro num texto associado àquele tipo de ilustração. Simbolizando, no fundo, a realidade embaciada de que são feitas recordações. E as recordações aqui não são contínuas, mas soluçantes, marcadas por objetos. Neste caso destacam-se os meios de transporte, uma bicicleta, alguns autocarros. E carros, muitos carros. Em O nome do pai focam-me muito os meios de transporte mas, tal como em Sobrevida, não é claro que se venha a chegar a lado algum. Entretanto, viveu-se, fizeram-se livros, aprendeu-se alguma coisa. Ou não. Sem dúvida que é propositado, mas os livros deste tipo caminham sempre no fio da navalha. Sinceramente, e por oposição ao livro anterior, acho que a Topedro só falta entrar no clube para ser mais reconhecido pelos mesmos leitores.

(7 Euros, adquirido na Amadora).

 

Pessoa & Cia, de Laura Pérez Vernetti (ASA)- O fascínio evocado além-fronteiras pela poesia de Fernando Pessoa é conhecido, e não é estranho que tenha sido também traduzido em banda desenhada. Aconteceu, por exemplo, neste interessante livro da espanhola Laura Pérez Vernetti. Nascida em Barcelona, Vernetti colaborou, por exemplo, com argumentistas como Felipe Hernández Cava ou Antonio Altarriba, e aqui oferece uma perspetiva interessante à obra do poeta, misturando-a com a sua vida. Na primeira parte do livro (a preto e branco) resume-se a vida (real e nada excitante) de Pessoa. Na segunda parte (a cores) os diferentes heterónimos surgem numa encenação de alguns dos seus textos/poemas, e os pontos de contato entre ambas as perspetivas não serão mera coincidência, como não o é a simbologia cromática.

Comum a muitos leitores de Pessoa é a primazia dada ao muito modesto (enquanto heterónimo) Bernardo Soares, e ao seu fabuloso Livro do Desassossego. Mas o que chama sobretudo a atenção é a natureza dos textos selecionados dos diversos heterónimos, que focam sobretudo a contemplação, quando não a resignação. Inteligente e cerebral, mas nem por isso menos resignada. Nada da força épica e vontade de ação que (também) se encontra no melhor do poeta. O desenho de Vernetti, num estilo que se pode designar como "grotesco amansado", é muito eficaz do ponto de vista evocativo, e perfeito para o tom que escolheu. Mais uma vez, não será coincidência. Pessoa & Cia é uma boa aposta num livro com potencial para transcender o mundo dos leitores tradicionais de banda desenhada, que se espera possa ter sucesso, e assim estimular outras experiências.

(oferta do editor)