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Composição: O que eu achei do VII Festival Internacional de BD de Beja

As Sequências Rebeldes

Depois de muitos anos de ausência voltei a visitar o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, agora na sua sétima edição. Mas fi-lo numa altura diferente do habitual, e tive de pensar um pouco sobre o que escrever. Isto porque a sensação foi estranha: por um lado (re)descobri um excelente Festival, por outro não evitei pensar se estará no sítio certo.

João Ramalho-Santos

O Festival Internacional de BD de Beja é o segundo maior evento dedicado à banda desenhada em Portugal (a seguir ao da Amadora), e aquele que tem uma filosofia organizativa mais sólida. Isto num duplo sentido: as exposições e autores propostos seguem critérios de qualidade, mas há uma grande variedade de estilos e abordagens. E é um Festival onde a banda desenhada tem um papel central, sem grandes desvios por outras artes. Infelizmente o facto de ser em Beja faz com que uma visita não seja tão linear como isso, sobretudo para alguém cuja actividade principal não gira em torno da BD. No entanto este ano um fim de semana prolongado ajudou a uma excursão improvisada.

Como evoluiu então o Festival de Beja? Muito bem, dentro do modelo inicial. E, sobretudo, cresceu. O esquema de exposições e a cenografia manteve-se constante e sóbrio. Excelentes autores internacionais, com destaque para os consagrados Jacques de Loustal (França) e Ivo Milazzo (Itália), bem como Aleksandar Zograf (Sérvia) e ainda as belas (para mim) descobertas de Andrea Bruno (Itália, cujo trabalho reconheci da Canicola) e Pablo Auladell (Espanha). De entre os portugueses boas mostras de João Mascarenhas e Fernando Relvas, destacando-se ainda Rui Lacas, Ricardo Cabral e as muito interessantes coletivas Futuro Primitivo e a dedicada a autores portugueses a trabalhar para a editora americana Marvel. Não que o crescimento apenas tenha vantagens. Na verdade talvez pudessem ter sido propostas menos exposições, já que o núcleo central da Casa da Cultura parecia algo apinhado, a delimitação do espaço não era evidente, algumas exposições mereciam mais visibilidade (Portugueses na Marvel, por exemplo) e outras não faziam justiça aos autores. Uma intervenção cenográfica diferente poderia ser possível, e pensadas outras actividades com ligações a outras artes (cinema, animação) e a outros públicos (mais jovens). Apesar disso, e como se disse: o Festival cresceu dentro do seu modelo inicial, e a qualidade do material exposto compensa largamente eventuais limitações.

Um outro aspeto referido por muitos outros muitas vezes, mas que é justo repetir. Tal como em relação ao Festival da Amadora, a dispersão de exposições por vários espaços da cidade, copiada do maior Festival de BD europeu (o que decorre na pequena cidade de Angoulême, em França), não funciona muito bem em termos de um Festival português, mas entende-se na perspetiva de valorização de espaços culturais da cidade. Talvez se pudesse pensar numa sinalização melhor.

A registar com muito agrado a oferta livreira, pela variedade e visibilidade. Mostrando que o Festival percebe que promover a leitura de BD é uma obrigação maior do que expor pranchas, algo que o Festival da Amadora parece não querer compreender. Isto embora se notassem poucos títulos de editoras importantes como a ASA, a VitaminaBD ou a Gradiva. Destaque para novos lançamentos, sobretudo os da própria Bedeteca de Beja e da Mmmnnnrrrg/Chili Com Carne. No primeiro caso as Cartas Portuguesas ilustradas por Susa Monteiro, e a habitual obra coletiva Venham + 5, como sempre na forma de laboratório, com prestações muito interessantes (Conefrey/Worm, Marco Silva), evoluções ou confirmações (Vete, Inês Freitas, Carlos Páscoa) e descobertas (Sónia Oliveira, André Araújo). No caso da Mmmnnnrrrg/Chili Com Carne mais três obras que vale mesmo a pena descobrir, como as coletivas Boring Europa e Futuro Primitivo.

A primeira reúne autores de vários países europeus numa espécie de périplo autoreflexivo na forma mista de diário/reportagem sobre uma viagem por uma Europa de movimentos independentes, que se transforma numa espécie de mini-manifesto (é algo pomposo, mas adequado) sobre modos de pensar a arte, a vida, o mundo. Destaque aqui para o importante trabalho de Marcos Farrajota, que, com todas as suas limitações formais, tem aqui um papel crucial ao unir as diferentes contribuições e preencher espaços em branco, destacando-se ainda o seu olhar sobre as várias contra-culturas que o grupo vai encontrando na viagem, entre a extrema empatia/admiração e o desprezo ácido (o episódio de Berlim é particularmente elucidativo). Sem este fio condutor o livro seria uma amálgama de acasos individuais, e não faria grande sentido. Futuro Primitivo tem sobretudo autores nacionais e no fundo serve de catálogo à exposição com o mesmo nome. A qual, enquanto conceito e qualidade global, foi em minha opinião a mais conseguida de todo o Festival.

Pelo mesmo projeto editorial recomenda-se Mundos em Segunda Mão (vol 1) do muito interessante diarista, cronista e repórter em BD sérvio Aleksandar Zograf. Zograf é conhecido sobretudo através de Regards from Serbia, onde relata a partir de Belgrado o conflito na ex-Jugoslávia (incluindo os bombardeamentos à cidade), ajudando a mitigar o simplismo que caracterizava os sérvios na imprensa ocidental como únicos "maus". Este livro inclui crónicas publicadas em duas páginas no semanário de Belgrado Vreme (Tempo), e para completar uma ideia Zograf usa muitas vezes blocos grandes de texto, como refere Marcos Farrajota na sua boa Introdução. Embora isto possa afastar alguns leitores, vale a pena conhecer o universo único deste autor, da arqueologia da cultura popular a entrevistas com artistas contemporâneos, passando pela análise de estranhos (mas reveladores) objetos encontrados em feiras da ladra e alfarrabistas por toda a Europa. Quanto a livros saúda-se ainda o regresso de Fernando Relvas à edição nacional com Li Moonface (Pedranocharco), apesar das limitações da obra (não é o do melhor Relvas) e da edição (embora a opção seja compreensível, sofre com ter sido reproduzida a preto e branco, quando o original é a cores).

 

Até aqui referiu-se a parte boa, excelente mesmo. E o Festival só pode estar de parabéns. Mas há ainda algumas questões a discutir.

 

Estar presente na abertura do Festival de Beja é encontrar muita gente do meio da banda desenhada, entre autores convidados, críticos, livreiros, editores, curiosos. É por a conversa em dia, discutir eventos, ver exposições, descobrir coisas novas, conviver. Mas é também ficar com a sensação de que o mundo da BD tem um dinamismo inusitado, que há público para tudo, que as crises são miragens.

Mas visitar o Festival noutra altura dá uma imagem totalmente diferente.

Explico: passei pelo Festival de Beja na tarde do último Sábado, pelo núcleo central na Casa da Cultura entre as 17 e as 19 horas. Estariam por lá uma meia dúzia de pessoas, duas a vender livros as restantes a aproveitar a tarde no parque em frente. No Festival ninguém. Na Biblioteca José Saramago mais gente, mas não por causa de BD. Ou seja, a experiência foi ao mesmo tempo muito boa e deprimente.

Obviamente que não tendo frequentado as últimas edições do Festival não tenho termo de comparação. Por exemplo, a experiência anual no Festival da Amadora fez com que seja muito fácil perceber que haveria um menor volume de visitantes na última edição, como referi no texto sobre esse evento. E este ano na Amadora nem houve grande tentativa de sugerir desculpas simples e lineares; nos anos anteriores se chovia dizia-se que as pessoas tinham ficado em casa, se fazia sol que tinham ido passear para outro lado. Sem perceber que se pode sempre desculpar simultaneamente uma coisa e o seu contrário, haja para isso imaginação.

Neste caso concreto até posso ajudar: era um Sábado de bom tempo em fim de semana prolongado (a seguir ao 10 de Junho). Verdade. Mas pouco antes e pouco depois Évora fervilhava de actividade, local e turista. E das vezes que visitei edições anteriores do Festival em dois dias consecutivos (a abertura e o dia seguinte), a quebra era notória logo no segundo.

A minha reflexão é simples, e faço-a com toda a honestidade e respeito pela organização e pela cidade. O Festival de Beja involve com toda a certeza um grande esforço (até pelo que cresceu) e apresenta um produto de qualidade. Acredito que possa influenciar a actividade cultural da região, embora não tenha dados sobre isso, leio os números oficiais de visitantes como leio os do Festival da Amadora. Sou um cético consistente a este nível, é também uma questão do que se contablize e como. E nada tenho contra um evento tentar justificar-se (e justificar a sua sobrevivência) perante quem o apoia, pelo contrário. Já depois de ter escrito isto, vi que o notável Director e alma do Festival Paulo Monteiro veio a público afirmar que este ano houve mais visitantes do que nunca (cerca de 8000), e vendas assinaláveis. Se assim foi, fico contente por ter contribuído com três pessoas para um dos números, e com algumas dezenas de euros para o outro. Mas da minha visita era impossível ficar com essa ideia.

De facto interroguei-me no regresso se ao fim de sete edições o Festival criou público que o justifique com a dimensão e caraterísticas que tem. É que, muito mais do que o Festival da Amadora, que, apesar de tudo, tem tentado atingir outros públicos, este parece um evento dirigido exclusivamente ao mundo da BD, aos adultos já convertidos, e a sua evolução desde a minha última visita parece demonstrar isso. Que fique claro: do ponto de vista pessoal adorei visitar o VII Festival Internacional de BD de Beja. Mas não é bem o que acho um Festival num país onde a BD tem a expressão que tem aqui deveria ser. Se tivesse de escolher um modelo possível sugeria o que tem tido lugar em Viana do Castelo (com a Associação Ao Norte), que, focando o cinema, traça outras linhas que também passam, por exemplo, pela BD, como o projeto Filme da minha vida. Ou seja, centralizar, neste caso, na BD, mas pensar mais a fundo noutras pontes. Apesar de ser uma analogia bonita, Beja não é Angoulême, porque Portugal não é a França.

Deixando de lado o modelo, a qualidade do Festival tal como está levantou-me ainda uma outra questão. O Festival de Beja tem de ser só em Beja? Ao abrigo de um acordo entre Câmaras Municipais (por exemplo) não poderia, à semelhança de outros tipos de eventos, levar a sua marca a outros espaços, outras cidades, mesmo que de forma parcial?

Duvido que se possam aliciar muitas entidades e patrocinadores para vários eventos semelhantes em diferentes locais. Mas, se não acho que Beja possa ser Angoulême, talvez Beja possa ser responsável por haver em Portugal várias pequenas Angoulêmes ao ano, mesmo que momentâneas.