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COBERTORES

As Sequências Rebeldes

Há livros que surgem como cometas. Livros capazes de apaixonar quem não se apaixona por banda desenhada. Com 600 páginas num excepcional preto e branco, Blankets de Craig Thompson (publicado em 2003) foi talvez o mais inesperado de todos os cometas. (Texto Publicado no JL-Papel) 

João Ramalho-Santos

Retrato desassombrado e duro da infância e adolescência do autor, Blankets toca inúmeros temas. Da alienação social à violência doméstica, passando pelo peso do fundamentalismo cristão numa pequena comunidade rural dos EUA. Da descoberta de diferentes tipos de amor ao trabalhar de um talento artístico enquanto voz e veículo (abstrato e literal) de fuga, passando por todas as hesitações e incongruências associadas. Apesar de maciça a história desliza num só fôlego, deixando constantemente vontade para uma segunda leitura, em pensar e discutir o que se leu. Nessa perspetiva tem particular importância a falta de linearidade narrativa, com o intercalar constante de episódios de infância e da difícil relação familiar, utilizados para contextualizar reações e comportamentos posteriores de autor durante a adolescência. Mas o principal trunfo de Thompson é um traço multifacetado, tão à-vontade em pinceladas largas e fluidas, como na definição minuciosa de detalhes; e que tem por isso a capacidade, quer de criar ambientes oníricos e poéticos, quer de retratar com realismo situações desagradáveis.

Blankets inicia-se com o revisitar de traumas de infância e adolescência num mundo opressivamente definido pela religião, onde as únicas opções parecem ser a aceitação total, a farsa e a fuga. Caminhando na fronteira entre as duas primeiras, o livro vai definindo as circunstâncias que levaram Craig Thompson a optar pela terceira. Incluindo reflexões sobre o significado da religião (e percebe-se bem o interesse que levaria a Habibi, a mais recente obra do autor), Blankets inicia-se verdadeiramente com a descoberta da possibilidade da diferença, materializada na figura luminosa de Raina, descoberta numa espécie de campo de férias católico no Midwest norte-americano, e que serve como pretexto para a primeira viagem de Thompson fora do seu pequeno mundo. Termina com a realização penosa de que a diferença encontrada não o era, meramente o trocar de uma disfunção por outra. A luz de Raina vai esmorecendo sob o peso de uma vida banal controlada por uma família complexa em crise permanente, forçando Craig Thompson a redefinir o seu percurso. Misturando coragem e cobardia, esta é uma história sobre crescer.

Na verdade, o maior milagre de Blankets é este: podia ter corrido terrivelmente mal. A autobiografia soar a vingança, as mesmas situações coalescerem numa telenovela adolescente da pior espécie, o autor emergir como uma única (e insuportável) fonte de verdade. Para alguns, talvez sejam essas as leituras; e tenho pena. Em última análise é a sinceridade de Craig Thompson (a mesma característica que lhe causa problemas em trabalhos posteriores) a resgatar Blankets, precisamente por ser impossível um leitor não oscilar no modo como se posiciona em relação às opções da personagem-autor. Uma única questão me preocupa nesta edição corajosa da Devir: muitas pessoas que se enroscaram em Blankets já têm o livro em inglês. É por isso urgente arrastar novos públicos para um livro verdadeiramente extraordinário.

 

 

Blankets. Argumento e desenhos de Craig Thompson. Devir, 594 pp., 35 Euros.