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Best of Enemies: A History of US and Middle East Relations (Part One: 1783-1953), Jean-Pierre Filiu & David B.

As Sequências Rebeldes

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Na história contemporânea do Mundo há uma pergunta recorrente no que se refere ao Norte de África e ao Médio Oriente. Uma pergunta que se repete desde as Guerras da Independência às Guerras no Iraque (e Irão-Iraque), passando pelas revoluções no Líbano, Egito e Síria; e com o conflito Israel-Resto da Região em constante pano de fundo. Como Diabo chegamos a isto? In contemporary World History there is a recurring question regarding the North of Africa and the Middle East. From the Independence Wars to Iraq (including the Iran-Iraq War), through the revolutions in Lebanon, Egypt and Syria, with the Israel-Rest of the Region conflict as a constant backdrop. The question is this: How the Hell did we get into this mess? At the end an English version of this review is provided.

João Ramalho-Santos

A resposta é simples, e relaciona-se (como sempre) com influência, poder e controlo de recursos naturais (o petróleo, desde logo). E também com erros e compromissos que até poderiam parecer inócuos na altura, mas que tiveram consequências desastrosas. É esse o tema do excelente Best of Enemies: A History of US and Middle East Relations (Part One: 1783-1953) de Jean-Pierre Filiu & David B., lido na sua versão inglesa (apenas porque saía mais barato).

À primeira vista o livro parece quase um complemento (mais abrangente e mais "neutro") a Persepolis de Marjane Satrapi, já que aborda também a história  conturbada da Pérsia-Irão que levaria à fuga de Satrapi do seu país natal. Se alguns leitores poderão achar o estilo gráfico de David B. aparentado com o de Satrapi, a verdade é que, no que ao desenho diz respeito, a inspiração funcionou ao contrário. No entanto, do ponto de vista temático, sente-se a influência de Persepolis neste projeto. Que vale a pena conhecer até pela abordagem que faz em termos de transformar a informação que pretende fazer passar em linguagem de banda desenhada, utilizando para o efeito um estilo simbólico e alegórico (típico do cartoon político), apenas com curtas passagens que lembram BD "normal".

A banda desenhada histórico-pedagógica nacional é uma espécie de instituição, onde se destacam nomes incontornáveis como José Ruy e José Garcês. A solução adotada por estes autores sempre foi algo que considero como um "disfarce",  ou seja, tentar fazer passar elementos pedagógicos numa BD realista, que se assemelha a uma história de aventuras no sentido clássico. Em teoria a opção não parece descabida: trata-se de modificar um formato conhecido do público-alvo, leitor habitual de BD de aventuras de representação realista. Levanta, no entanto, uma série de problemas. Desde logo um que não foi culpa sua: fez jurisprudência,  tornando difícil o aparecimento de outro tipo de soluções. Por outro lado, a mistura de formatos e objetivos faz com que nenhum atinja o seu potencial, dando origem a um todo menor do que a soma das partes. Nem a história funciona bem, nem a pedagogia passa. Uma caraterística muito comum são diálogos artificiais ditos por personagens pouco definidas, cuja única função é fornecer informação de modo expositivo; a pedagogia enquanto obrigação, logo inútil. Mas a questão principal é outra, nomeadamente que a premissa está errada. O público-alvo ideal para estes livros (leitores de BD de aventuras) é diminuto e envelhecido, arrisco-me a dizer que já não existe, nem que seja porque deixou para trás a leitura de BD enquanto passatempo juvenil. A aposta deveria ser a de tentar atrair outro tipo de interessados, nomeadamente leitores de Maus, Persepolis, Joe Sacco. Leitores que nem leem habitualmente banda desenhada.

Desse ponto de vista o estilo alegórico-pedagógico assumido como o adotado em Best of Enemies (claramente influenciado por Maus ou Persepolis) é extremamente eficaz. Informa sem cansar, usa o desenho como pontuação permanente, põe na boca das personagens apenas frases-chave imediatamente entendidas como tal, porque não estão inseridas em sequências narrativas canónicas, nem o leitor foi induzido a esperar tal coisa.

O texto do historiador Jean-Pierre Filiu, sem ser neutro (nenhum historiador o é) consegue resumir quase dois séculos de história de uma maneira fluída, em grande medida porque há poucas surpresas, sobretudo para quem conhece (nem que seja de filmes) a política de influência dos EUA no Sudeste Asiático (Coreia do Sul, Vietname), ou na América Latina; ou alguns dos seus agentes mais conhecidos no século passado (como os irmãos Allen e Foster Dulles).

Mas mesmo se esse não for o caso há aspetos muito fáceis de entender. A importância de controlar o acesso a recursos naturais, quer através dos próprios recursos, quer das rotas de transporte. O papel de grandes companhias enquanto agentes (e/ou patrões) de governos. A facilidade em gerar revoltas e criar dissensões através da força, corrupção e manipulação dos media. A possibilidade de apoiar ditadores e torcionários ou até de criar países-chave que sirvam os interesses dos EUA, mesmo que a sua filosofia seja completamente contrária àquilo que os próprios EUA supostamente representam, como a Arábia Saudita. Talvez a parte verdadeiramente surpreendente do livro seja, na verdade, a primeira, na qual se descreve o envolvimento dos EUA no controlo de rotas comerciais do Norte de África, quando o país ainda nem se tinha propriamente estabelecido enquanto tal, quanto mais como potência mundial.

Quando mais tarde chegamos à Segunda Guerra Mundial e ao controlo do petróleo entramos, por assim dizer, em território mais conhecido. O livro detêm-se depois com algum detalhe no papel dos EUA na mudança de governo no Irão na década de 1950, de modo a colocar no poder dirigentes mais maleáveis aos seus interesses. A ponte com Persepolis é óbvia, substituindo o olhar "interno" da família de Satrapi, por um olhar externo, que revela mecanismos invisíveis. Como o papel do agente americano na zona Kermit Roosevelt (sobrinho do antigo presidente) ou do General Norman Schwartzkopf (mais tarde comandante-chefe no Iraque); ou ainda as movimentações de que resultaria, em última análise, a Revolução Islâmica, e o Irão contemporâneo como Novo Grande Inimigo. O curto prazo torna-se muitas vezes refém do longo. David B. deixa transparecer todo o seu talento na representação gráfica (onde mistura BD com o cartoon político), quer das convolutas relações em causa, quer, sobretudo, das diferentes personagens, definindo-as muito mais do que aquilo que dizem ou fazem. A pequenez cobarde do Xá Reza Pahlevi, o espírito de missão do resignado (e condenado) primeiro-ministro nacionalista Mossadegh, a capacidade de manipulação amoral de Kermit Roosevelt (claramente o "mau da fita"). Note-se que a capacidade de resumir não implica necessariamente uma abordagem simplista. Pelo contrário, utilizando a banda desenhada de uma maneira muito inteligente Best of Enemies revela-se uma narrativa fascinante na sua complexidade. E útil. Se é sempre importante percebermo-nos a nós próprios (e David B. já publicou várias obras excelentes com essa temática), não deixa de ser crucial por de lado algum tempo para tentar compreender um mundo que não nasceu ontem.

 

 

Best of Enemies: A History of US and Middle East Relations (Part One: 1783-1953). Jean-Pierre Filiu & David B. Futuropolis/SelfMade Hero. 2011 (18/20).

 

The reasons for world struggles throughout the ages are always the same: power and control of resources, with oil playing a huge (but recent) role in the particular case of the Middle East. There are also secret stories and policy mistakes that can come back to haunt those who made them, such as earlier interventions in Iran eventually resulting in the creation of the most recent New Main Enemy. This is the starting point for the excellent Best of Enemies: A History of US and Middle East Relations (Part One: 1783-1953) written by French historian Jean-Pierre Filiu and illustrated by the outstanding French artist David B.

In a way this is a book that links with Marjane Satrapi's Persepolis. Although the drawing styles are similar, it should be noted that it was David B. who influenced Satrapi, not the other way around. But David B. seems also to have been inspired by Persepolis, in terms of how the retelling of the changes of government in Persia-Iran mirror those described by Satrapi, but from a more "neutral" and omniscient perspective. But Best of Enemies is more ambitious, in that its aim is much broader. The first volume covers almost two hundred years of US influence in the area, and some elements of the story will sound familiar to those who have followed US involvement in Latin America or Southeast Asia, or are aware of some of the major policy players (such as the brothers Allen and Foster Dulles, or General Norman Schwarzkopf). There is always an ultimate goal of controlling resources and access routes. Large companies and their interests are omnipresent both as government partners, and even as vested employers. Dictators can be supported, and foreign governments toppled using alliances, corruption, and a controlled media. A whole country can be created to aid US interests, even if that very same country (Saudi Arabia) seems to go against everything the US is said to represent. But, although readers are probably at least aware of more recent episodes involving World War Two, oil and the Israel-Palestine issue, the first part is more surprising, showing that the US was already committed to guaranteeing access to the area even before it was a true country, let alone a world power.

There is certainly a lot of information to fit into 100 pages, and Jean-Pierre Filiu (who, as any good historian, is objective but not neutral) does a magnificent job of choosing what to present in order to create a convincing, but always nuanced, portrait. On the other hand, David B. is absolutely brilliant in the way he uses his style as punctuation, both in the more typical "comic-book style" narrative passages (which are few and far between), and especially on his allegorical-symbolic representations, which try to sum up the mood of a moment or country in one single drawing, thus mixing comics with political/editorial cartoons.  In the case of the changing of government in Iran to a more US-friendly alternative there is more time to flesh out characters, and David B. does not shy from showing the Shah Reza Pahlevi as a hesitating coward, or the main US agent Kermit Roosevelt (nephew of the former President) as clearly the "bad guy" in this movie, both opposing the calm (but doomed) premier Mossadegh. Deceptively simple and engaged, the underlying narrative of Best of Enemies is fascinating in its overall scope, rendering a complex picture of a troubled world. Yes, autobiographical and reflexive graphic novels are very cool (and David B. has a few excellent ones), but we also need to take some time off to learn more about a world that was not born yesterday.