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ARTE

As Sequências Rebeldes

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Quando se fala de banda desenhada enquanto Arte é curioso ler uma BD notável que reflete (também) sobre Arte. Na verdade a banda desenhada surge de dois modos em The Dying Draughtsman/O desenhador defunto de Francisco Sousa Lobo (Chili Com Carne, em inglês com texto também em português). Enquanto linguagem em que é contada a história, naturalmente. Mas também como uma espécie de forma de expressão "intermédia" para o protagonista/narrador, que compartilha com o autor o nome de batismo. (texto publicado no JL-Papel)

João Ramalho-Santos

Desenhador incompetente num escritório de arquitetura, os dias de Francisco Koppens têm como pontos "altos" visitas com cunho nostálgico a galerias de Arte, e momentos catárticos em que realiza bandas desenhadas provocatórias, nunca terminadas, e que acabam destruídas após o desenho ser coberto com tinta preta. Incapaz de se expressar através da sua profissão, e resignado à condição de espectador fora dela, a princípio sente-se aqui uma visão da BD enquanto compromisso, diluída porque é em BD que a história é contada.

O cenário de fundo mínimo de The Dying Draughtsman dá um tom asséptico, com a paleta tricolor usada para sublinhar elementos. O efeito gráfico vinca a sensação que o protagonista é ele mesmo parte de uma exposição, que a sua vida é a sua Arte, o livro uma meta-galeria onde espectadores/leitores comentam as suas desventuras. Ou, em alternativa, que a sua loucura é irremediável. O estoicismo da composição retangular e o desenho quase anódino contrastam admiravelmente com a violência extrema que fervilha logo abaixo da superfície, nas reflexões e nas BDs incompletas de Francisco (Koppens). Começa no silêncio da mulher do protagonista (um castigo marcado por tragédia), e culmina em quase clássicas diatribes sobre a repressão na Igreja Católica, com doses de sexo (sublimado), misoginia, frustração, inocência, inveja, insegurança e, claro, culpa. A meditação sobre a natureza de Deus conjuga-se com interesses de Sousa Lobo, que, num ensaio de 2010, relaciona a presença de uma figura divina em alguma BD contemporânea, quer enquanto simbolismo do poder de um autor solitário sobre a sua criação, quer como ponto de ligação à infância (e ao seu fim). No entanto, o que dá alma ao livro é a empenhada falta de alma do protagonista, a sua (des)evolução. O desconforto de o ver lutar contra quase tudo (externa e internamente), e o desastre em que se transforma qualquer projeto de mudança, tornam a espiral de desagregação e desespero que se apodera do livro quase palpável.

O interesse de The Dying Draughtsman tende a tornar irrelevantes as pistas óbvias sobre a sua natureza, como o nome kafkiano (Francisco K.), as referências bedéfilas ao retirado autor japonês Yoshiharu Tsuge (cuja influência na mescla de banal e surreal é clara, veja-se por exemplo L'Homme sans talent) e ao americano Mike Diana (sobrevalorizado após ter sido acusado de produzir material "obsceno"), culminando no discurso que implica um cunho "autobiográfico", e no facto de a galeria em que o protagonista entra logo ao princípio albergar uma exposição intitulada... The Dying Draughtsman. Arquiteto de formação a fazer o Doutoramento em Arte na Universidade Goldsmiths em Londres, seria lógico que os projetos artísticos de Francisco Sousa Lobo (reais e pensados, realizados ou não) fornecessem a base da Arte que atormenta Francisco K., que o protagonista introspectivamente discuta o autor. Mas tudo isto são apenas elementos adicionais para um livro surpreendente, que estimula tanto pelos diálogos que tenta, como pelos silêncios que não resolve.

 

The Dying Draughtsman/O desenhador defunto. Argumento e desenhos de Francisco Sousa Lobo. Associação Chili Com Carne (chilicomcarne.com) 130 pp., 15 Euros.

O trabalho do autor noutras vertentes pode ser visto em www.franciscosousalobo.com. É só pena (mas não surpreendente) que projetos de BD não surjam em "CV" ou "Work" mas na secção "Other Things". Talvez este livro (que ainda não constava do site) mereça outro destino.