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A GENEROSIDADE DE JULIÃO

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um precurso supostamente intimista de alguém que tem discretamente feito mais pela arte portuguesa do que inúmeros governos

Pedro Proença

O Julião continua com bom aspecto,  àgil a falar, claro nas opiniões, directo. E mais péssimista. O que é normal à medida que o tempo vai avançando e que se vive num país cada vez mais amargurado. Pelo que o Julião fez por si, e por nós, devia ser o contrário. Não vi ainda a exposição de Serralves, mas tenciono ir lá o mais depressa possível. Porque é importante ver esta montagem para além do que nos lembramos, ou temos guardado em catálogos, que já vão sendo muitos. É um luxo ter uma exposição que ocupa toda a parte decima de Serralves, diz o Julião. Mas também é algo justo. Pela obra, em que introduziu na arte "portuguesa", de cá (provinciana), uma série de maneiras de ver, de pintar, uma noção forte de escala, e porque nos mostrou e continua a mostrar a nós, sobretudo aos artistas,  como é que nos devemos desembaraçar de coisas inúteis e ir directo ao assunto no espaço e no tempo certo.

 

Acho que o trabalho do Julião não precisa nem do curriculum, nem de discursos de legitimização, mas é indissociável da sua vida, intensa, sem consessões. É claro que há um discurso montado que não podemos contornar, e que é político e que parte do próprio Julião - a possibilidade de se ser artista em portugal e ter a obra a circular por aí nos quatro cantos do mundo, sem ter que viver nos grandes centros artísticos; o direito a ganhar a vida e desfrutar dela, sem miserabilismos, sem andar a pedir esmola, com direito a um certo glamour; o afirmar a compatibilidade de uma vida sexual intensa com a "carreira" igualmente intensa e fecunda. Para o Julião tudo isto é uma ética sem termos que nos meter nos assados da filosofia ou no politiqueirismo dos partidos. A naturalidade "lógica" com que o Julião criou redes no art world, feitos sobretudo de amizades e belas cumplicidades - e isto é importante porque se trata de um espaço afectivo em que há partilhas de interesses e  diálogos criativos - não o serviu exclusivamente a si. O Julião percebeu desde sempre que seria importante alargar a sua rede a outras pessoas, seja artistas, curators, galeristas, e nesse sentido tenho a certeza absoluta que o Julião fez muitíssimo mais pela "arte" cá por estes lados do que décadas de governação com dinheiro mal gasto, política pomposa, esmifrada. Ele deu a entender como é que se deviam fazer as coisas, como é que elas podem ser postas a circular, e como é exigível aos artistas, e aos galeristas, um trabalho aturado, informado e "profissional", longe dos estereótipos romanticos. O exermplo não caiu em saco roto, mas em mais ninguém, que minimamente se assemelhe, houve ou há esta generosidade de fundo, e uma lucidez no seu uso.

 

O critério do seu trabalho é o prazer. E o prazer é também o do trabalho, que é tudo menos sacrifício ou chatice. A multiplicidade de meios ao longo de várias décadas é notória na sua obra, o que implica um bom conhecimento do que foi e vai sendo produzido, sabendo usar esses media de modo a servirem o seu discurso e produzir um trabalho original. Mas também é notório nesta retrospectiva, e pelo conhecimento que tenho da sua obra, que a pintura predomina, sobretudo a partir do tal "regresso à pintura" do final dos anos 70.  Como dizia por essa altura o Ernesto de Sousa referindo-se a artistas como o Julião, a pintura que se fazia era "mais ou menos conceptual", apesar dos discursos que então abundavam no sentido de o negarem.

 

Por outro lado o hedonismo sistemático do Julião passa por uma fisícalidade que deve muito ao que o Alexandre Melo chamava "as velocidades da pele". E nesse sentido os dispositivos da pintura são propulsores de uma avidez táctil e sexual que é complementada, mas não fica satisfeita, no voyeurismo implicito das práticas que usam a fotografia, o video e o cinema. Para Julião não se trata apenas de desfrutar, da jouissance lacaniana, que serve às maravilhas o discurso da arte conceptual, mas também de levar as coisas para além do desejo, do enamoramento, da propensão predadora, para o próprio acto, para a "porneia", para uma geografia sensorial, próxima do informe. E assim, como quem esfrega um olho, o trabalho do Julião propõe uma "porno-ecologia". Mas a forma como Julião mostra o que pensa, sente e vê é em si uma montagem (des)multiplicando-se em fragmentos que ecoam filões pessoais e culturais, que passam sobretudo pela pintura, pelo cinema e pela literatura. Não se trata apenas de citar para acomodar uma autobiografia, mas sobretudo de entender a "naturalidade" com que esta memória dita cultural se entranha na carne e na vida erótica, e como na experiência se assemelha e difere de qualquer "modelo". Nada de transcendência, nada de moralismos, mas sim uma emersão desdramatizadora e pragmática no que se apresenta para ser vivido, desejado e feito, sem "empata fodas".

 

Se calhar nada disto é heroico, nem tem que o ser. Mas para mim, e é como o sinto, é admirável.