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A Aranha e o Grilo - Rosemarie Trokel e Armanda Duarte

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Duas exposições que estão aí - é preciso falar delas. Neste barulho de justa contestação entrou-se em mutismo cultural. A minha luta será cada vez mais a de mostrar a relevancia do que há aí e do que se vai fazendo.

Pedro Proença

1. As minhas alter-egas, Sandralexandra e Sóniantónia escreveram isto sobre o FlAGRANTE DELEITE da Rosemarie Trockel

 

 

     

 

É a nossa primeira crítica - saíu-nos mal, mas é melhor que nada. A foto em cima é da Susanne Themlitz (muito obrigado Susanne!),  que poderia dizer muito mais e bem melhor que nós - queremos dizer que preferiríamos uma abordagem mais assim, vista de baixo,  rente ao chão, mais de artista e com mais atenção, mas dormimos mal, acordamos abstractas. E aqui vai ela??

 

Já não há origens. Nenhumas.             

Nem se pode saber se. Se foram as origens                         

quaisqueres que sejam. E não há nenhuma razão

para que nasçam           as origens                        

Nenhuma fé            

sequer

?ídolo de Amorgos!?

 

Parece esquisito  começar a abordar a exposição da senhora Trockel citando um poeta italiano, homem, que se chama Emilio Villa e que põe o ponto nos is da questão das origens - já lá vai muito tempo - mas andávamos à procura de um outro poema dele sobre aranhas, ou coisas aracnídeas, porque Trockel habituou-nos a coisas filandeiras (ai Velásquez!) , e lá buscamos e encontrámos esta tradução nossa (feita a partir de um pseudo-latim? ou foi outra lingua? já não nos lembramos - )?a gélida passagemdos Fundamentos das Coisas, alcançadaa divina simulação, ventosae a Teia dos sussurrantesmilénios, indefenida se estendeelipse da aranha que jogae nesse momento o infinitoPerimetro, o grande Desdobramentoda Porcaria, jaula das Mutações,começa a elevar-se?

 

Villa foi um poeta radical e grande divulgador das então vanguardas italianas, sobretudo Burri e Fontana, artistas que de algum modo ecoam, quer se queira quer não ao longo deste corropio de coisas fiadas, desconfiadas e imediatamente sexualizadas, do encarar o suporte tradicional da pintura, a tela, essencialmente como tecido, a fender, a exibir o reverso, a mostrá-lo como saco ou colagem.?Os antigos tinham, assim que nos lembremos, alguns mitos sobre os fios: o das Parcas,  o de Aracné e o de Penélope. As Parcas destribuem os destinos, fiam-nos. Aracné, uma adolescente bordadeira, entrou em competição com Atena, e acabou por se enforcar; Penélope é a hábil senhora da sua obra, uma especialista em adiamentos e esperas, os aspectos complementares do tempo narrativo.

 

O escritor catalão Villa Matas recentemente escreveu uma teoria da narrativa considerando a espera o assunto principal da arte romanesca. Porém o adiamento, ou o inadiável que é a morte, é algo que se produz simultaneamente - a narradora das mil e uma noites - e não é por acaso que também é uma mulher. ?

 

Nesta exposição de Trockel parecemos passar do trauma post-menopausa, que lhe foi duro assunto, para os desafios do inadiável (e a hipotética evasão do inadiável pela arte), entre a vontade de exibir uma obra forte e a re-encenação dos seus fantasmas, das influências, admirações. Inconformismo, serenidade, ângustia, escárnio? Trokel faz parte da corrente menipeica, a que não é estranha a sua inserção na carnavalesca Colónia, e a filiação nessa suposta tradição anti-artistica que foi o Dadaísmo - ainda que no seu caso pensemos em Schwitterz, Hanna Hoch e toda a temática libinal de Duchamp, desde a noiva à sua última obra.  O que supõe um discurso desconversante, assuntos marotos, uma vontade prazenteira de contradizer clichés e desfrutar a vida de corpo inteiro até ao fim. E depois teve, como quase todos os artistas alemães, o peso politizador do chamã fake que foi Beuys, incontornável com o seu chapéu suádo, e claro está Richter e Polke que marcaram, quer se queira quer não os artistas mais irreverentes da geração de Trokel: Walter Dahn, Dokoupil, Oehlen e Kippenberg.?Trokel ficou sobretudo conhecida como "a" artista feminista europeia dos anos 80 por causa dos seus tricots, que parodiavam  a cultura das revistas femeninas de tricot, corte e costura, através de uma pseudo-politização. Conseguiu assim tornar-se uma artista icónica, e floresceram, pouco depois, aos montes, as artistas que se afirmavam como feministas por causa de alguma particularidade da cultura de lazer femenino, mais bordado menos bordado.?

 

A exposição é constituída, salvo pequeníssimas excepções, por obras recentes - duas salas focadas em obras diversas, subretudo tridimensionais; um corredor com a maioria das colagens e duas salas finais com obras mais "pictóricas" ou de grande escala. É claro que podiamos falar demoradamente sobre peças específicas - porque elas o pedem. Como sempre.

 

Também sabemos que a sua obra é ("apenas"?) mais uma das tais que andam a contestar os limites canónicos da arte... a prática oficial da arte parte desse pressuposto. É isso que o ensinam as escolas de arte, os museus, as revistas, que o proclamam os críticos e que mais agrada aos grandes coleccionadores. A juvenilização da cultura e a mercantilização da imaturidade (ó Gombrowicsz!), é o apanágio da nossa época, e a imagem que Trokel e os seus legitimadores querem deixar de si é a da rejeição do "estilo tardio" - pelo menos é o que vem elaboradamente reclamado num dos textos que acompanha a exposição. Forever Young? Desconfio desta polémica, e não conseguimos deixar de sentir nesta exposição as caracteristas dos estilos tardios, que são normalmente "i-moralistas", com maestria, e caracterizados por maior liberdade e desleixe. Estamos a pensar em casos como Ticiano, Rembrandt, Goya, Picasso, etc. É um estilo que mistura o "já me estou nas tintas" com a inevitável revisitação e re-montagem de temas antigos, assim como um aprofundamento das "cenas primitivas" e da auto-auto-retratação.?Por exemplo: as colagens mostram diálogos com a história de arte, sobretudo do século XX: Rainer, Bacon, Gilbet & George, Polke, Fontana, etc.

 

Os organizadores da exposição, não sei se com a cumplicidade de Trockel (acho que ela não se preocupou muito com esta "passagem" pela falida Lisboa, tal como, a contar pelas pessoas que estavam na inauguração, o art world português não se parece interessar muito por esta artista) insistiram sobre a citação/apropriação da pintura de Courbet, a Origem do Mundo, um dos statements mais fortes da arte, pela combinação de duas ideias, a de cosmogonia com a porneia, neste caso o sexo femenino em quase close-up. A associação deste corpo ao artista Raymond Petitbon não nos suscitaria reflexões por aí além, como vem num dos textos, porque nos parece apenas uma piada divertida (e porque não) - já a da aranha (é de Trockel a imagem, ou é uma fotomontagem de outro?) com o fundo manchado (re-des-mentruado?) parece pedir uma reflexão que corrija as reflexões de Brigid Doherty que projecta as suas fantasias sexuais parideiras ou masturbatórias, em vez de olhar para a obra de R.T. , que tantas vezes usou aranhas, incluindo o famoso caso do efeito do uso de diferentes drogas nas aranhas, produzindo padrões bem distintos. É certo que o caracter repelente da aranha aqui associado à sexualidade femenina é um dado adquirido pela cultura popular -  trata-se de enunciar uma relação forte entre o nascimento, a morte, a sexualidade, a criação de teias, padrões, fios que são ao mesmo tempo armadilhas, vestes, filiações, etc. No fundo cada génese implica um luto, e o luto é antecipada consciência de um futuro desaparecimento. Mas será? As colagens sobre a morte da mãe e os seus vestígios de roupa, como se uma memória e energia ainda as habitasse parecem prolongar essa cosmogonia-tanatologia. Porém devemos desconfiar de ideias tão simples. Os idolos cicládicos como o de Amorgos, de que Villa fala a propósito das (não)origens, são a representação neolitica, esquemática e obcessiva, da mulher.?Não sabemos muito bem o que Rosemarie quiz dizer, questionar, ironizar ou qualquer coisa parecida com a maioria dos seus trabalhos. Os artistas estão a maioria das vezes mais preocupados com o fabrico, as ramificações, o natural jogo entre o que os obceca e o que daí pode saír, do que em impôr um sentido. A ambiguidade e a indeterminação existe misturada com "alguma" intencionalidade, mas são os efeitos. 

 

Entretanto saímos da exposição muito meditativas, mais atentas, mais interessadas nos materiais que nos rodeiam, e a pedir também que Trockel se livre dos acrílicos que edstão aparafusados às caixas das colagens, porque as coisas pedem um olhar mais vivo, sem patines. No grande Desdobramento da Porcaria a jaula das Mutações começa a elevar-se.   

 

 

 

 

2. A Armanda Duarte, que já é uma senhora crescidíssima, e anda nestas lides da arte há tanto tempo, fez uma exposição chamada  "Desculpa Grilo, roubei a tua Casinha", na Caroline Pagès Gallery - era bom saber o que é que a artista faz e pensa, merecia uma bonita entrevista. Enquanto a entrevista não chega aqui vai este textinho 

não sei se puseram fora de casa o grilo - ou se foi a artista a desculpar-se de o ter posto fora , ou ainda se somos nós todos os grilinhos da fábula, europeus do sul, a apanhar a chuva e o sol dos invernos do descontetamento que nos esperam brevemente - mas eu vejo este grilo de compridas patas, arguto, qual grilo falante a afinar-se elegantemente na pobreza, mais nobre do que nunca nesta condição de sem-abrigo em busca de umas deliciosas migalhas - não sei se é uma fábula que Armanda Duarte propõe, mas é uma imagem simpática, infantil, comovente e sincera, pese embora a condição supostamente humilhante ou humilde - mas condição, voluntária ou involuntária, faz parte da história do Ocidente, desde os filósofos cínicos até aos franciscanos

 

o trabalho de Armanda Duarte não nos dá nunca uma imagem grandiloquente, nem kitsch, nem espetacular - é quase de uma absoluta delicadeza, à margem dos espetáculos e das massas ­- constrói-se na intimidade e na solidão, sem pompas, sem falsos desígnios, sem falsas teorias a justificar (sem a "treta") - lá terá as suas intenções, ideias, e justas pretensões, e quem sabe se um enorme orgulho  - tudo coisas privadas

 

quando olhamos a frio para a exposição, parece quase decepcionante  - temos que descer o nosso olhar cá para baixo, temos que ter muito cuidado com os sítios por onde andamos - há peças que são quase invisíveis e que se podem estragar num instantinho e não é raro que isso aconteça nas exposições de Armanda  - as peças têm que ser meticulosamente reparadas, o que não é nada fácil - mas o que me parece importante em toda a obra de Armanda é este lado superlativo de fragilidade - não uma fragilidade manhosa - mas algo epidérmico, delicado, sensível, quase a partir-se, resquício das coisas nas antípodas da violência, e muitas vezes marcada por ela

 

há um parentesco muito óbvio, não com a tradição da arte conceptual, mas de uma atitude poética tipica dos "pintores antigos", e que talvez tenha bebido algo, pelo menos na aparência, emRobert Smithson, ou Eva Hesse, ou Richard Tutle, etc.  - posso estar a enganar-me , pois haverá outros filões -mas é na noção duchampiana de inframagro que estas coisasinhas parecem assentar, numa espécie de enorme trabalheira "só para isto" - um bom caso é a almofadinha magrérrima feita a partir de roupa interior masculina onde a artista descansou durante a montagem e que apresenta as marcas do encosto do seu corpo - fetichização, dirão alguns - eu só sinto o rasto poético, como a baba de caracol, ou esses exemplos duchampianos de canalização de energia quase nula, essa interface entre coisas microscópicas que revela sensações, histórias e sentimentos

 

há aqui também um rigor que é uma espécie de racionamente - a escala das coisas é medida, contada, proporcionada, relativa a partes do corpo ou pesos de comidas (um quarto de uma lata de feijões,  a medida de certa parte dos pés, etc.), em que as coisas são transformadas e mostrados os efeitos da transformação (uma lata cheia de folhas que depois são reduzidas a pó) - sente-se a importância dos espaços que as coisas ocupam e de como é tão bom ter espaço para mostrá-las, mesmo que pareçam perdidas - estes trabalhos parecem procurar algo museológico - mas não é o museu que procuram, mas um estado de respeito que as coisas adquirem perante o vazio circundante, como uma anacorese no deserto

 

este estar atento ao infímo tem uma história, e recordemos Frontão e o seu discípulo Marco Aurélio, que combinam a lógica contraindutiva da segunda sofística com a prática de "autarquia" dos estóicos, de independência e rigor moral que leva a valorizar as coisas desprezadas

 

mas é nas palavras contaminadas pela silaba "fra" - na fragilidade, no fragmento, na memória de "Fra Angelico" que a Armanda desenvolve as suas coisas que saíram de uma toca, de um buraquinho, e que fazem cri-cri, humilíssimas e ao mesmo tempo altivas, numa espécie de involuntária santidade que chega entre o acto de respigar e o de ir depurando as coisas de modo a que as coisas fiquem ainda mais coisas, na sua maneira algo discreta

 

falar-se-ia de Agnés Varda, de Tarkovski - ou então invocar-se-á uma aproximação à História de Arte do género da de Daniel Arasse, em que a visão aproximada convida a exaltar o detalhe, precisamente aquilo que na história da pintura convida para uma outra pontuação que torna as coisas representadas maois presentes, como se dissessemos, mão, olho, ornamento, flor, e não um tema alegórico ou histórico

 

 

poder-se-iam dizer que são como haikús, porque esta "redução" não pesa, mas Armanda Duarte não ignora a tradição ocidental - as coisas nesta exposição são como evasivas etimologias que não precisam de história nem de diccionário, para serem coisinhas, mais do transitoriedade e irrelevância - e é nesta quase microscópica relevância que nos sentimos ocidentais, preciosistas, valorizadores

 

e... invertendo o poema da sua amiga Adília Lopes, aqui são as baratas que gostam de jogar as escondidas com o gato.