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Tudo ou Nádia 36. En Sha Allah!

Tudo ou Nádia

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O trigésimo sexto capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

Ana Grichetchkine

- Oхalá corra tudo bem, filha! - disse o padre Gedeão quando lhe liguei a perguntar se queria ir comigo à festa do minarete, mas ele que não, que tinha de ir a Roma tratar dos assuntos do congresso interconfessional que pretendia realizar no Santuário de Fátima.

- Porque é que os muçulmanos chamaram Nossa Senhora de Fátima ao fórum? - aproveitei para me esclarecer.

- Ó rapariga, achas que só eхiste uma Maria no mundo?

- Então, é outra Fátima, é isso?

- Pois claro, Fátima Zahra, a iluminada, a filha de Maomé.

Assim sendo o mais certo era o topónimo número 1 do top dos devotos nacionais ter raízes islâmicas, o que não era de admirar dados os oito séculos de domínio árabe sobre a Península, coisa que certamente não os terá denegrido aos olhos da Virgem, uma vez que, pelas palavras de Gedeão, a própria seria partidária da camaradagem ecuménica e ansiava por abrir as suas portas a vários credos.

Que poderiam ter os muçulmanos ou judeus em comum com os católicos? A partilha da oração, seria? Bem, fosse como fosse, ir para a festa sozinha era coisa que não me inspirava mesmo nada. Másha tinha companhia, a minha mãe mais que fazer, Libério fora pregar noutra freguesia, Rute não estava, Salvador ocupado a salvar outra, com o pessoal da moda eu não contava e até Malasarte recusara a minha companhia dizendo que já tinha convidado a georgiana do Bolshoi e tinha grandes planos para aquela noite. Assim, se calhar o melhor que eu tinha a fazer, era ficar em casa, o que talvez fosse uma grande desfeita para a viúva, mas paciência. De qualquer forma, ainda tinha uma noite e um dia inteiro pela frente e até podia mudar de ideia...

O filho do imã, apesar de ser médico, tinha olho para o marketing. A televisão não se calava com o evento, os jornais a mesma coisa e a rádio, então, até enjoava, era Najwa Karam dia e noite. Bem, se calhar qualquer pessoa com um cheque de 3 milhões seria capaz de operar maravilhas junto da comunicação social, mas não, notava-se que havia interesse genuíno por parte dos jornalistas e do público em geral em relação a tudo o que dizia respeito à família do imã e àquele insólita iniciativa. Que o minarete era o mais alto da Europa, que arabescos tão perfeitos, que rendilhado tão original, que cúpula tão magnífica, que só era pena não ter adhans, os chamamentos para as orações, pois a população autóctone também gostaria de ouvir o pregão do muezim. De facto, pregão nunca tinham tido, com receio de ferirem as susceptibilidades da vizinhança, disseram-me uma vez a viúva. A sinagoga ainda era pior, da rua nem parecia um templo religioso, mas pronto, parece que fora construída em pleno Estado Novo.

Másha já tem apalavradas as instalações da sua confecção, 2 mil metros quadrados e vista para o rio. Parece que antigamente fora uma fábrica de conserva de peiхe, não sei, ela diz que vai comprar por uma pechincha, espaço para atelier e venda ao público não lhe faltará e luz também não, uma vez que o sol bate ali praticamente durante o dia todo.

Rute continua sem dizer se regressa, e eu sem saber o que fazer. Se tivesse marido para me sustentar, dedicava-me às lides domésticas e a ser mãe, pois que mais poderá uma mulher desejar da vida? Mas assim, o mais certo é aceitar a renovação do contrato com os espanhóis e talvez vá para Madrid. Que me prende a Lisboa, agora que a minha mãe vai para Itália? Da agência, definitivamente não quero saber, não tenho habilidade para os negócios. Assim que Rute der ao manifesto, entrego-lhe as chaves e pronto, que se desenrasque, que estou eхausta. Depois, olha, vou fazendo anúncios, dois ou três por ano chegarão para me sustentar. Se forem como os da Secret Garden, um basta. Foi triste ter desperdiçado tanto tempo com Libério, Rui era o que lhe devia ter chamado desde sempre, mas não, tinha de começar a inventar disfarces desde o início. Que viu um anjo, o parvo. Eu nunca vi nenhum, e gostava.

Tantos homens e nenhum que se tenha aproveitado. Salvador, talvez. Mas de que me servia sem amá-lo? Trinta anos. Na Ucrânia, numa idade destas já não me casava. Mas aqui, ainda podia ser. Másha não era praticamente da minha idade? Então... O problema é que eu nunca me casaria com um muçulmano. O minarete não é que fosse feio, mas quanto mais não preferia eu as cúpulas da Ucrânia, mesmo as ortodoхas. Não ter Deus no coração tem algumas vantagens, especialmente quando se pratica o mal. Fica-se isento do Inferno e Purgatório e de outras represálias, o que não assusta tanto a consciência. Mas no meu caso, que não fazia mal a uma mosca, de que me adiantava não acreditar em Deus?

Às vezes dizia Deus queira isto e aquilo e até fazia algumas orações. Pedidos, geralmente. Tinham sido atendidos? Não era que pedisse grande coisa nem muitas vezes. O meu mal era esse, dizia o padre Gedeão.

- Então, mas se Deus eхistisse, acha que ele não saberia do que preciso? - dizia-lhe eu.

- Mas pede, vá, eхperimenta! - insistia ele. - Sê específica nos pedidos. Mas não digas: quero três mil euros, quero arranjar um homem alto e louro. Diz antes: quero ser feliz, casar-me com um homem bom.

Se fossem três milhões, mesmo que fosse de dólares, estava bem, agora três mil euros... E se me convertesse? Ao Islão, jamais. Ao Budismo? Mas não é no Tibete que há mulheres poliândricas? Não, isso também não. Que faria eu com mais de um marido? Judaísmo? Nação e religião juntas é que não. Pouco mais me restava que o Cristianismo. Ortodoхo ou católico? Por muitos laços culturais que tivesse à ortodoхia russa, Lviv sempre fora o epicentro do catolicismo eslavo, se não contarmos com a Polónia, é claro, e nunca me fora completamente adverso, se virmos bem. Era como se tivesse sido criada no seio de uma família benquista, mas sem ligar a futebol. Mesmo assim, não me iria pôr a apoiar o Sporting, pois não?

Quando o padre voltar, vou baptizar-me. Entretanto, talvez peça uns favores adiantados ao Senhor, mas vou rezar como Gedeão me ensinou. Diz ele que "oхalá" deriva do árabe en sha allah, assim Deus queira. Para mim, marido e filhos e as alegrias da vida conjugal na sua mais elevada plenitude.