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Tudo ou Nádia. 34 Outono em flor

Tudo ou Nádia

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O trigésimo quarto capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

Ana Grichetchkine



É Outubro, mas em Lisboa tem chovido como se fosse Inverno. Em contrapartida, na Califórnia, o tempo está morno e seco e os ipês-roxos, que deviam ter morrido em Agosto, continuam floridos e vivazes. Rute diz que sempre gostou da Califórnia no Outono, do cheiro das camélias e magnólias, de ver desabrochar uma série de plantas exóticas e garridas, numa época do ano em que o estado de Nova Iorque se prepara para ver cair as primeiras folhas. Mas este Outono era tão especial que nem as andorinhas se queriam ir embora e fora provavelmente graças ao facto de ter rumado para lá que Rute se livrara de uma grande anemia. Tudo isto devido ao estranho hábito de lascar troncos de ipês, para chupar farripas.

Diz que fora fazer umas análises de rotina ao laboratório nova-iorquino onde costumava ir antigamente e que depois se metera a caminho da Costa Leste sem fazer caso dos resultados. Até que lhe liga o analista. Que ela estava com falta de glóbulos vermelhos, o que podia ser sintoma de talessemia, uma doença grave do sangue provocada pelo contacto com o Mediterrâneo, e que deveria dirigir-se rapidamente ao hospital, que foi a bem dizer o que ela fez, na medida em que não estava para estragar o período mais bonito da sua vida com uma hospitalização desnecessária devido a desleixos. A menos de duas milhas do local onde ela se encontrava a lanchar com Mariska, perto da beira-rio, na guapíssima localidade de Santa Ana, havia um centro médico, e foi exactamente para lá que ela se deslocou mal acabou de receber esta chamada.

- Os níveis de hemoglobina estão absolutamente normais - disse o médico chegando-se à beira da cama dela.

- Tem a certeza? - perguntou ela.

- 13 g/dl - disse ele, mostrando-lhe o resultado do hemograma.

- Não percebo então... - disse Rute.

- Por acaso você andou a beber pau-d'arco? - perguntou o médico.

- Não - respondeu Rute -, isso é coisa que nunca bebi...

Perante o resultado dos exames que tinha na mão, o médico não se inibiu de a mandar para casa, ignorando por completo o aviso do outro clínico, recomendando-lhe apenas uma dieta à base de ferro, ácido fólico e muita alegria.

Quando Rute chegou à sala de espera, contando a Mariska a conversa que tivera com o médico, esta disse:

- Foi da casca do ipê...

- Como assim?

- Não há melhor no combate à anemia...

Fosse da casca, erro laboratorial, milagre, o que fosse, a verdade é que Rute estava óptima e mais desabrochada era impossível, o que era natural, pois há três dias que se encontrava em lua-de-mel com a sua noiva Mariska.

Destas novidades ficara eu a saber pela própria Rute quando ela finalmente me ligou para dar a boa-nova, dizendo que afinal a felicidade nasce connosco e que nós só temos de descobrir o caminho até ela e que o mesmo era dizer até nós.

- Mas há mais surpresas... - cochichou ainda.

Se não fosse pela idade e pelo facto de se ter casado com uma pessoa do mesmo sexo, o que eu teria pensado ao ouvi-la dizer isto era que ela estivesse de esperanças. Mas não. O assunto era o livro que escrevera na prisão e do qual nunca mais me tinha lembrado.

- Está na lista do New York Times há uma semana - disse ela.

- Mas estás aí só há quinze dias, como é que tiveste tempo para isso tudo? - disse eu.

- Ó Nádia, isto é a América...

Fiquei tão embasbacada com aquela informação que a única coisa que me ocorreu foi dizer-lhe que não se preocupasse com a agência, que estava tudo a correr bem. Que título dera ao livro e quando regressaria a Portugal foram questões que me escaparam completamente da ideia e só quando desliguei o telefone é que percebi que nem os parabéns lhe tinha dado.

O livro de Rute chamava-se O mundo ao Avesso e disso fiquei a saber cerca de 15 minutos depois de ter falado com ela, quando a minha mãe, numa grande excitação, me bate à porta, com duas malas de viagem na mão e toda esguedelhada. Já não devia ir à minha casa há uns três anos, por isso surpreendida que me tivesse aparecido naquela figura, sem aviso prévio, e para mais numa altura em que a julgava com o embaixador, no Egipto.

- Então, o que é que aconteceu? - perguntei sem preocupação, pois pela cara dela via-se que nada de mal podia ter acontecido.

- O embaixador recebeu uma chamada para regressar urgentemente à embaixada e olha, tivemos de vir mais cedo - disse ela com a respiração entrecortada, tal não era a sua agitação.

- E estavas com saudades minhas tu, não? - perguntei, enquanto punha a chaleira ao lume.

- Não me pôde levar. Parecia um tiro a caminho do Restelo, parece que está tudo em pé de guerra na embaixada - disse ela.

- Ao menos gostaste do Egipto?

- Não vais acreditar, os poemas da Rute são um êxito - disse ela, contando-me que o embaixador tinha lido a notícia num jornal de língua inglesa, no Cairo. - Nunca me enganou, aquela Rute, sempre reparei que era uma pessoa sensível e talentosa.

Ai sim? Desde quando? O ar do Nilo devia ter-lhe dado cabo da memória, mas pronto, não era eu que lha havia de avivar.

- Então, são bonitas as pirâmides?

- Olha, só as vimos da janela... - disse ela com a maior naturalidade do mundo.

- Então, porquê?

- O embaixador, todo o tempo lhe era pouco... - sussurrou, com a boca repuxada na minha direcção.

Ficámos ainda um bom bocado sentadas à mesa da cozinha, num silêncio quebrado apenas pelo tilintar das xícaras nos pires e pela avidez com que ela sorvia o chá. Não me atrevia a perguntar-lhe mais nada, com receio que ela se pusesse a contar os pormenores sexuais da sua viagem ao Egipto. Até que ela agarrou no molho de papelada que eu tinha dentro de uma cestinha no centro da mesa e se pôs a bisbilhotar.

- JP?... - disse, sacudindo o envelope que o presidente da Telecomunicadora deixara na minha caixa de correio há uma eternidade. Lá lhe expliquei o que era aquilo, e ela soletrou em tom aprovador:

- Mi-o-só-tis?

- Então? - perguntei, levada pela curiosidade.

- Non-ti-scordar-di-me... - respondeu ela.

- Estás a variar? - disse eu.

- Forget-me-not, na língua inglesa... - disse ela.

- Estás a falar de quê? - perguntei.

- Os miosótis têm também o nome de não-te-esqueças-de-mim e simbolizam a fidelidade e o amor verdadeiro. Só não podem é ser azuis.