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Tudo ou Nádia. 1 A Explosão

Tudo ou Nádia

O primeiro capítulo de Tudo ou Nádia, o romance de Ana Grichetchkine, que o site do JL publica semanalmente. Ilustrações de Branca Aurora

Ana Grichetchkine

Mas por que raio cismara ela com aquela ideia de promover o ecumenismo? Se não fosse essa sua obsessão, jamais teríamos iniciado os trabalhos para a campanha de propaganda religiosa, que ela afiançara  pôr na rua antes do fim do ano. Nunca teríamos ido à mesquita de Odivelas fotografar fosse o que fosse. Nunca teríamos  passado pelo McDonald's da frente nem para beber café nem para descansar nem para coisa nenhuma. E, sobretudo, não teríamos dado azo às gravações que agora se apresentam como principal prova de acusação contra  a própria Rute, muito embora baseadas numa brincadeira nem de perto nem de longe relacionada com aquilo de que agora a incriminam e que é precisamente de ter rebentado à bomba com o dito restaurante, em protesto contra o sionismo e a hegemonia dos Estados Unidos no mundo.

Só quem não conhece Rute minimamente pode acreditar neste enxovalho.  Além de aguerrida pacifista, é fanática da cultura americana e professa o Judaísmo desde a sua juventude. Em Portugal, é dona da mais prestigiada agência de modelos e, nos negócios, tem uma reputação inquebrantável. Gosta de viver com os seus pequenos luxos e ninguém, no perfeito uso das suas faculdades mentais, haveria de acreditar que, por alguma razão houvesse de querer arruinar a sua vida.

Rute chegara a Nova Iorque, como ela própria adorava dizer, exactamente duzentos e quarenta e três anos depois de os portugueses terem fundado naquela cidade a primeira sinagoga da América do Norte e apenas três dias antes do lendário concerto dos Led Zeppelin no Madison Square Garden. Estávamos em 1973, numa altura em que Lisboa não vinha no mapa dos roteiros musicais. Por isso, não foi de admirar que ela tenha gasto os dias que antecederam o evento à procura de bilhete. Em vão, porém. Lotação esgotada.

Dadas as circunstâncias, e tendo em conta a importância histórica daquele acontecimento, o que ela resolveu fazer foi dar um passeio à volta do estádio para saborear a atmosfera do espectáculo, mais que não fosse ao de leve, e depois seguir pela Avenida Madison até casa. Acabou, porém, por se meter por outras ruas e ao fim de hora e meia de caminho foi dar a um templo de pedra branca que parecia uma igreja, mas que era uma sinagoga.

No meio dos prédios circundantes, este edifício não se podia gabar da sua estatura. Tinha, no entanto, um ar familiar e acolhedor que a puxou lá para dentro.

Logo à entrada havia uma mesa de doces e salgados. Pessoas conversavam animadamente com pratinhos nas mãos. Antes que pudesse pensar o que quer que fosse, uma simpática rapariga veio ter com ela.

- O serviço acabou agora mesmo, mas - e continuou segurando-a pelo braço - anda comer qualquer coisa, bebes um chá e ficas a conhecer o rabino.

- Quer dizer  - balbuciou Rute - que estou numa sinagoga?

 - Sim, claro! Aliás, na primeira sinagoga da América do Norte. És de onde? - perguntou a rapariga.

- De Portugal, só cá estou há três dias.

- Senhor rabino! - chamou a rapariga, fazendo sinal para um homem que estava no outro lado da sala. - Venha cá, rabino Mendes!

Um homem de meia-idade, magro, alto, vestido de negro, com barba grisalha e um pequeno quipá na cabeça, virou-se e começou a andar na direcção delas com os braços muito abertos.

- Shabbat Shalom! - disse ele, muito animado.

- Rabino Mendes - disse a rapariga  -, nem imagina de onde é esta menina.

- Tem cara de sefardita - disse o rabino, observando Rute com atenção. - Brasil?

- Sou portuguesa, senhor rabino - disse Rute.

-  Mas  que  interessante!  Olhe  que  aqui  também  somos  quase  todos  descendentes  de portugueses. De portugueses e espanhóis. Eu, por exemplo, sou descendente directo de um dos fundadores desta missão. Lusitano, é claro. Bem - disse ele retomando o sorriso e olhando para a rapariga  -, na verdade, temos aqui uns invasores asquenazes que não nos largam a porta, como é o caso da Mariska, por exemplo.

 Asquenaze era o nome dado aos judeus da Europa Oriental e o termo "sefardita" aplicava-se ao judeu ibérico, pois na língua hebraica Sephardi significa nada mais do que Península Ibérica. Retive este dado porque no meu país chamamos-lhe Pirenaica, o que também não se percebe.

- Rabino Mendes, lá está o senhor com as suas brincadeiras! Sabe bem que eu não posso viver sem os seus  sermões. Nem sem os seus sermões nem sem os seus pitéus  - disse a rapariga, levando à boca um bolinho de areia com recheio de doce de frutas, que dava pelo exótico nome de orelha de otomano.

Era mais ou menos assim que Rute costumava descrever o seu primeiro contacto, quase acidental, com a fé judaica e também com Mariska, que à data destes acontecimentos já morava em Nova Iorque há cerca de oito anos.

Mariska era uma das top três produtoras de moda da cidade. Não havia nada sobre designers, desfiles, modelos, agências e media que ela não soubesse. Nas horas vagas era modelo de orelhas. O que acontecera apenas graças à perspicácia de Calvin Klein, que numa edição da New York Fashion Week se terá virado para ela e dito: "Oh Gosh! You  should  be making money on  these ears!" Depois, agarrando-a pelo queixo, terá girado o seu rosto durante  alguns instantes, ora para a esquerda, ora para a direita, de modo a apreciar convenientemente o invejável par de orelhas que ela tinha. A partir dali, aqueles capachinhos foi só facturar.

Ao  contrário  de  Mariska,  a  recém-chegada Rute contava naquela  altura  apenas com  uma fresquíssima licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas, variante de Estudos Portugueses e Franceses, e ainda não se tinha  estreado no mercado de trabalho.  Viera a convite do seu tio materno, Trindade Henriques, que era um conceituado cardiologista, conhecido praticamente em toda  a  Área Metropolitana  de  Nova  Iorque, director do  Serviço  de  Arritmia  do  Hospital Universitário há mais de uma década. Além do renome profissional, Trindade  Henriques era também um ilustre solteirão. Não acreditava no amor nem no casamento, nem na sua capacidade de procriação, e em Deus - ainda muito menos. Quando Rute lhe disse que queria reconverter-se ao Judaísmo, foi assim que ele reagiu:

- Reconverteres-te? Queres tu dizer, converter-te...

- Não, tio! Está visto que a nossa família é de origem judaica! Fomos subjugados ao catolicismo pela Inquisição! Não vês? Temos apelidos de cristãos-novos. Foi o próprio rabino Mendes que me disse... O que eu quero é mesmo regressar à minha fé original, à fé que foi arrancada aos nossos antepassados pelos algozes do Santo Ofício...

- Nunca te devia era ter deixado  ir àquelas aulas nem conviver com a maluca da soviética! - disse ele,  referindo-se a Mariska e ao curso de Introdução ao Judaísmo que a sobrinha tinha andado a frequentar na congregação do rabino Mendes.

Rute tinha ido para Nova Iorque  com o propósito de ser professora assistente da Casa Hispânica, o departamento de Filologia Castelhana e Portuguesa da Universidade Columbia, mas o conhecimento com Mariska  tinha-lhe inesperadamente  aberto portas para um mundo mais atractivo  - o da moda. A casa Gal Schmitz, conhecida pelas suas arrojadas colecções de lingerie, andava à procura de uma relações públicas que falasse línguas. Mariska lembrara-se imediatamente de Rute. Mas Trindade Henriques não queria alteração de planos.

- Tu, minha rica menina, vais é recambiada para Portugal, se não te deixas desses disparates! - dissera ele ao ser confrontado com a nova oportunidade profissional da sobrinha.

- Ó tio, mas eu, juro, não tenho jeito nenhum para dar aulas... Gosto da moda e do ambiente artístico, será que não percebes?

- Essa judia ucraniana não é boa companhia, não senhora! - rematou o tio.

- Sabes que me propõem um salário três vezes maior do que na Casa Hispânica?

- Seja  como for, não foi para venderes cuecas e soutiens que vieste para cá, pois não? Ou será que isso é já o despertar da costela judaica da ganância? Será que tens consciência dos cordelinhos que eu tive de mexer para te arranjar este emprego?

- Ó tio, mas...

- Nem mas nem meio mas! Este ano vais leccionar, no próximo logo se vê. - E depois, mais calmo, continuou: - Fiz  contactos, pedi favores, percebes, Rute? Quanto à conversão, tanto se me dá como se me deu, desde que fique também adiada por um ano.

- Mas  porquê, tio?

- Olha, porque não se pode mudar tudo na vida de repente.

 Rute não teve outro remédio se não seguir as instruções do tio. Nova Iorque parecia uma big caixinha de  surpresas, interessada em tudo o que fosse improvável e inaudito. Do hard rock  à literatura soviética dissidente,  havia naquela cidade quem se interessasse por tudo um pouco, inclusive pela língua portuguesa. Para grande espanto de Rute, cinquenta e sete foi o número de alunos que ela teve nesse ano. Na sua maioria eram jovens quadros da CIA, que se preparavam para prevenir e combater a possibilidade de uma intervenção comunista nas  antigas colónias portuguesas de África. Dar aulas acabou por se revelar uma tarefa muito mais agradável do que ela  tinha suposto. No entanto, uma vez chegado o fim do pacto, a que Trindade Henriques chamava "o período de reflexão", ela resolveu experimentar-se  nos bastidores da moda e nunca mais de lá  saiu. No início, ajudava Mariska na organização de desfiles. Depois, quando já conhecia  o meio como as palmas das suas mãos, acabou por abrir uma agência de modelos e actores em parceria com a amiga e com o apadrinhamento de alguns membros da congregação do rabino Mendes, bons conhecedores dos meandros da indústria televisiva e de entretenimento. O tio, como bom honrador da palavra que era, não se opôs.

A reconversão chegou no Outono, com as primeiras chuvas. Uma corte rabínica reunira-se com o especial intento de ouvir a neófita e atestar os seus conhecimentos sobre a Lei de Moisés. Rute sentia-se tranquila. Qualquer que fosse a pergunta, a resposta seria sempre dada com o coração, nada podia correr mal.

- Filha,  diz-me: qual é o teu prato favorito? - perguntara inesperadamente o ancião do grupo, cuja cara parecia mais velha que o mundo.

- Bacalhau, senhor rabino.

- Que excelente escolha, minha  linda!  Com batatinhas e salada, é daqui!  -  disse o rabino, puxando o lóbulo da sua orelha direita.

 - Diz-me - continuou ele -, serias capaz  de confeccionar esse prato no dia de Yom Kippur?

- Se fosse preciso, seria sim, senhor rabino.

- A sério? Mas não sabes que é da Lei que se pratique o jejum nesse dia?

- Sei, senhor rabino.

- Então, como explicas a tua resposta?

- É que a pergunta não era se eu seria capaz de comer bacalhau nesse dia...

Os rabinos da corte sorriram uns para os outros. O velho rabino sorriu também, depois virou-se para Rute e disse:

- O rabino Mendes, o teu supervisor espiritual, também é um grande apreciador desse peixe, e da tua pessoa então, nem se fala... Bem-vinda à fé de Israel, minha filha! - disse o ancião com voz visivelmente comovida, ao mesmo tempo que erguia os braços para o céu.

Os outros dois rabinos seguiram-lhe o exemplo e disseram em uníssono:

- Sede bem-vinda à fé de Israel, Rute!

A cerimónia de aceitação ficou concluída com um banho de imersão purificante numa piscina sagrada, a que se dá o nome de micvá. No fundo, era uma banheira gigantesca cheia de água da chuva onde Rute foi afogar as suas antigas crenças religiosas, sendo considerada judia de pleno direito assim que, renascida, voltou à tona.

- Se fosses homem, nada disto seria tão airoso  - dizia  Mariska  na brincadeira, aludindo à circuncisão ritual que marca a entrada do sexo masculino no pacto de Deus com o povo judeu.

O tio tornara-se entretanto um bom amigo de Rute e até parecia desenvolver  uma espécie de simpatia secreta pela fé da sobrinha. Só não queria era ouvir falar em remoções do prepúcio. Aos sábados, sempre que o trabalho de Trindade Henriques permitia, costumavam dar um passeio por Central Park. Do ritual fazia parte a paragem num pequeno café onde geralmente encomendavam waffles com xarope de ácer e açúcar baunilhado e se punham a conversar sobre as trivialidades do quotidiano.

- Ó tio, estou-te tão agradecida por me teres recebido na tua casa, por me teres proporcionado esta oportunidade maravilhosa de viver nesta cidade, em democracia e, sobretudo, por me teres ajudado, ainda que indirectamente e com alguma relutância, a encontrar-me espiritualmente...

 - Não tens de quê, minha querida sobrinha! - respondeu ele, sorrindo. - Só não te ponhas a dizer que somos uma família hebraica - prosaica.

 - Mas somos, tio!  Repara, há tantas tradições que conservámos ao longo dos tempos sem sabermos que eram tradições judaicas...

- Tais como?

- Fazer limpezas às sextas-feiras durante o dia, por exemplo.

- Que sabes tu de limpezas se a tua mãe sempre teve empregada?

- Tais  como varrer a casa da porta para dentro. Lembras-te, tio? Era sempre assim que a avó dizia para varrermos a casa...

-  Não  sei  nada de  varreduras nem  de  benzeduras, minha  sobrinha  adorada -  disse ele, passando-lhe as mãos pelos cabelos.

- Vês, tio? Isso também é um preceito judaico! O passar as mãos pela cabeça de alguém com a intenção de acarinhar ou perdoar é uma bênção judaica...

- É tudo?  - perguntou ele carinhosamente.

- Lembras-te daquelas caixinhas douradas que a avó pendurava no umbral das portas?

- Com orações?

- Eram mezuzahs, tio!

- O que são mezuzahs, sobrinha?

- São precisamente essas caixinhas. Os judeus usam-nas para guardar mandamentos da Torá, mas a avó já não tinha essa memória. Tudo o que ela sabia, tudo o que lhe tinha sido transmitido pelos nossos ancestrais era a  existência dessa norma, mas os preceitos da sua prática era um conhecimento que não conseguiu chegar intacto até ela, percebes, tio?

- Isso é interessante...

- E lembras-te, quando o avô morreu, que ela mandou tapar os espelhos todos da casa e dar esmolas aos pobres? Isso também é uma tradição judaica...

Sem grande esforço, Rute arrancara então ao tio a permissão para pendurar as suas caixinhas de fé  nos  umbrais  da  casa dele  e  mesmo quando mais  tarde se mudou  para o  seu próprio apartamento deixou-as ficar lá, porque um homem de sangue judaico mesmo que não acredite em Deus nunca deixa de ser judeu e merece sempre ser abençoado.

Pelo menos era isto que Rute costumava dizer, quando de vez em quando se punha a divagar sobre a sua conversão ao Judaísmo e a resumir os anos que passara do outro lado do Atlântico.

O que não consigo perceber é como é que uma pessoa com todo este background cultural, religioso e até político se possa ter tornado de repente uma vítima de tão ignóbeis acusações... Para mim, o único crime que Rute cometera fora ter-me apresentado Libério. Aquele destruidor de corações que ela  tão egoisticamente  me incitou  a amar. Mas não há um tribunal  para atentados ao coração e mesmo que houvesse eu jamais a incriminaria por ter atentado contra o meu.