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Baile em Kiev

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Na ilha, depois das diversões, depois dos bares e dos karaokes, ali no meio do caminho, já dentro das árvores, juntam-se os velhos. 

Na ilha, depois das diversões, depois dos bares e dos karaokes, ali no meio do caminho, já dentro das árvores, juntam-se os velhos.

Cantam e dançam. Não se conhecem, ou não precisam de se conhecer, estão numa galanteria antiga, aveludados nos modos, tão festivos quanto requintados, numa oportunidade última de sedução.

São muito comoventes os velhos lentos a dançar de roda, girando no meio do caminho aos pares, exalando perfumes, os cabelos todos trabalhados, elas e eles. São lentos, porque não podem cair, sentem-se instáveis, disfarçam bem o medo de se magoarem, sorriem, mas medem o chão constantemente, prestam muita atenção aos pés, suportam-se uns aos outros quando se tocam, abraçam-se.

Dançam para se abraçarem. Mas guardam ainda muita coragem, o que tinha de ser por causa de um certo amor.

São comoventes no modo como se abstraem de quem vê, curioso, e procuram gestos leves, como se ainda tivessem a precisão de outros tempos e a graciosidade absoluta. Os tímidos ucranianos, cheios de vontade de alegria mas disciplinados e contidos, dançam ali pelas árvores aos domingos, com uns senhores a tocar clássicos dolentes, cheios de melancolia.

Parecem gente de fantasia. Um povo esquisito que viva na floresta. Os lenços e as saias delas a pairar, usam folhos e rendas, e os homens trazem cores, camisas azuis claras e rosa, calças amarelas, verdes de água. Podiam ser pássaros raros, desfeitos das asas, escolhidos para andar no chão a criar um movimento bonito, plástico. Escolhidos, efetivamente.

Quando termina um tema separam-se num cumprimento sumário. Um aceno, um sorriso, encostam-se para os lados, são outra vez muito discretos, não estardalham nada. Digo assim porque é muito forte o silêncio, como uma elegância ou um respeito, uma alegria madura. Não é nada parecido com as rodas de casamento, em que as tias e os tios já beberam um bocado e riem a mostrar as covas entre dentes e os arames das placas.

Na ilha, os velhos estão profundos, pensam, sentem, são lúcidos, o que faz do que fazem algo tão feliz e triste ao mesmo tempo. Há uma impressão de resistência, como a reclamar ainda o direito à sensualidade e à beleza. As rendas e os folhos, as cores de rebuçado, inventam um baile encantado como se estivesse o povo a divertir-se à revelia da bruxa má.

Pensamos muito nos países da antiga União Soviética como lugares de gente fria, austera, e é verdade que nas lojas, fora do circuito turístico, sorrirem-me ou apenas cumprimentarem-me é como gastarem dinheiro. Nem pensar. Mas ali, na ilha, há uma delicadeza extrema que redime as pessoas de toda a disciplina e as purifica. Creio que foi o que vi, gente que se purificava, pela dança, pelas árvores a entrarem no escuro da noite, pela idade. Gente finalmente pura, a conquistar a dignidade inteira, linda de mais.

Confundiu-me um pouco que no fim das músicas não ficassem os senhores a dizer palavrinhas com ideias às senhoras. Num contexto normal era o que se esperaria, que aquela maravilha toda fosse para o de sempre, uma espécie de engate à moda antiga, um engate mais paciente porque as mulheres mais velhas já estão muito fartas de tretas e têm de ser convencidas com mais banho e empenho. Confundiu-me porque não acontecia nada assim. Os senhores acenavam às senhoras e iam perfumados e penteados esperar, em silêncio, que outra vez começassem a tocar e novos pares se criassem e a roda recomeçasse.

Talvez ninguém esteja mais interessado em casar e namorar já seja só a dança. Talvez aquele povo puro namore só assim. Pela intensidade de dançar. Não sei. Não vivo na floresta, não sou encantado, não sou ucraniano, não conheço o rio Dnieper como gostaria. Só estive uma vez naquela ilha. Sei que aquilo que testemunhei ultrapassou completamente o que esperaria e curou-me de muita tristeza e agrura que pressenti em Kiev ou em Lviv.

Ao regresso, ainda ouvi como outros velhos cantavam. Em redor de um banco, aos cinquenta ou sessenta, acompanhavam o acordeão a afinar e a desafinar, mais entusiasmados ou aflitos quando os filmei um pouco. Um senhor perguntava-me se filmava, se captava a voz. Falava em ucraniano, que é igual a marciano pré-shakespeariano, mas sei que era o que dizia. E eu confirmei. Um filme. Ele, com força militar, redobrou-se todo e cantou mais alto e mais alto. Virou solista por um instante, até se engasgar num agudo e enganar na letra e achar que mais valia estar calado.

Os senhores das danças eram mais queridinhos, pensei eu. Os das cantorias divertiam-me. Mas os das danças embalaram-me. Quando for velho, se chegar lá, emigro para a Ucrânia e vou para aquelas terras no meio do Dnieper para almejar aquela pureza e aquela candura. Nenhuma vida devia ter por destino candura nem beleza menores.