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Retrato de uma família 'rara'

Artes Visuais

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Dois avós, ja desaparecidos, um fiho e uma neta, num exposicão singular, que abre no dia 13, de que aqui falam o comissário, Luís Serpa, e a "neta", Isabel Manta. E também, sob outro ângulo, Júlio Pomar   (ver completo em versão impressa) 

Carolina Freitas

"O objetivo da exposição é evidenciar o carisma e o espírito artístico de três gerações de Mantas", diz  Luís Serpa a propósito de Manta: Retrato(s) de Família, a mostra de que é curador e que inaugura no próximo dia 13, sexta-feira, na Fundação D. Luís I - Centro Cultural de Cascais. Trata-se de uma grande mostra, que até 24 de novembro ocupará a totalidade dos espaços nobres da instituição, com trabalhos de Abel Manta (Gouveia, 1898-1992), da sua mulher, Clementina Carneiro de Moura Manta (Lisboa, 1898-1992), do filho de ambos, João Abel Manta (Lisboa, 1928), e da filha de João Abel, Isabel Manta (Lisboa, 1952).

São cerca de 100 obras, selecionadas de entre as coleções do Museu da Cidade, Museu Abel Manta, Museu do Chiado, de João Caraça e da própria família, entre as 100 se contando cerca de 45 pinturas nunca antes expostas de João Abel. As obras distribuem-se por cinco salas, e permitem encontrar similaridades e tecer diálogos entre cada um dos artistas. "Não é uma retrospetiva. É um jogo de espelhos", sublinha, ao JL, Luís Serpa, que se fixou em três temas recorrentes na família: retrato e auto-retrato; padrões e cores; paisagem.

Embora a exposição ainda não esteja montada, o curador adianta aquele que será o seu percurso. Haverá um primeiro grande núcleo dedicado ao retrato e auto-retrato, onde se encontrarão auto-retratos de Abel Manta de todas as fases da sua vida, bem como retratos de amigos, familiares e personalidades da cultura portuguesa da sua autoria, de Clementina e de João Abel. Em destaque estarão a "grande pintura" Grupo do Consultório (1955) e Jogo de Damas (1928), de Abel Manta, esta última uma "obra muito importante", sobre a qual escreve um texto de parede autónomo, estabelecendo uma ligação entre ela e O Jogo de Xadrez, de Marcel Duchamp (1910), sustentado na afirmação de José-Augusto França de que o trabalho de Abel Manta representa uma "significativa possibilidade moderna".

Seguir-se-á um pequeno núcleo dedicado à natureza-morta e outro à paisagem, com obras do casal Manta (Abel e Clementina). Haverá, ainda, um espaço com pinturas a óleo, de Clementina, assim como os seus patchworks que se relacionam com um corpo de trabalho de aguarela bastante grande, de Isabel Manta. E, por fim, a sala dedicada às novas pinturas de João Abel.   

É, de resto, este diálogo que torna a exposição "muito interessante" e "surpreendente", diz. Nomeadamente, o "espegismo" entre as obras de pintura do casal Manta (Abel e Clementina) e a "citação" que Isabel faz de trabalhos da avó, partindo de certos padrões que isola, amplia e trabalha, em aguarela. 

Outro ponto forte da mostra é, claro, aquele novo conjunto de trabalhos de João Abel, até agora no 'segredo dos deuses'. "Ele ainda não mostrou a ninguém. Nem a mim, que sou o curador!", conta, com um sorriso de quem já lhe conhece o feitio 'difícil', mas não esquece a sua generosidade.* "Há uns anos, o João Abel Manta fez um retrato meu a partir de uma fotografia que saiu no Expresso e ofereceu-me. Foi muito gentil. Não é qualquer pessoa que tem um retrato feito por ele de livre e espontânea vontade!", conta. 

É que Luís Serpa, 65 anos, um dos mais importantes galeristas portugueses, fundador e diretor da galeria lisboeta de arte contemporânea com o seu nome (antiga galeria Cómicos - Espaço Intermédia), é um velho amigo da família. Foi por isso um desafio "muito aliciante" montar uma exposição cujo intuito era fazer uma espécie de "retrato" de uma família que sempre o fascinou. "Também venho de uma família ligada às artes. Sei quão importante é para a nossa formação um certo cosmopolitismo. É uma das características dos Manta", aponta. "Lembro-me das festas das filhas da Isabel e do Manuel Botelho, que foram casados. Misturavam-se os Manta e os Botelho... Era um ambiente muito engraçado. Toda a gente passava por aquela casa: o pintor Rolando Sá Nogueira, José-Augusto França, João Caraça...".

É esta família, que tem vindo a marcar o panorama artístico nacional desde meados do século passado, e o seu contexto, que a presente mostra pretende evocar. Para tal contribui, ainda, o catálogo com textos de Carlos Carreiras, presidente do Conselho Diretivo da Fundação D. Luís I, Luís Serpa e Luísa Soares de Oliveira, crítica de arte, e ilustrado por fotografias da família, a maior parte delas inéditas.