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Perfil

Oscar Niemeyer: O arquiteto prodigioso

Artes Visuais

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Oscar Niemeyer

Tinha no desenho a sua linguagem e na curva a sua assinatura, espalhada por centenas de obras únicas e inconfundíveis, em numerosos países. Construiu Brasília e morreu a 5 de dezembro, no Rio de Janeiro, a dez dias de cumprir 105 anos. Além de um genial arquitecto, que recebeu os mais importantes prémios, incluindo o Pritzker, em 1988, desapareceu um homem generoso e empenhado na luta contra as injustiças. O JL, que lhe dedicou numerosas matérias (ler comentário de JCV na p. 3), recorda-o aqui através das suas próprias palavras e das de outros artistas e arquitetos, algumas delas publicadas nestas colunas

"Meu nome deveria ser Óscar Ribeiro de Almeida de Niemeyer Soares. Ribeiro e Soares, de Portugal; Almeida, árabe, e Niemeyer, alemão. Sem contar algum sangue negro ou índio que, como se sabe, faz parte de toda a família brasileira. Uma mistura de raças que me faz bem integrado na mestiçagem de meu povo. 

Minha arquitetura não aceita compromissos, visa a beleza e a intervenção, sem cair em pequenos detalhes, atuando, isso sim, nas próprias estruturas, nas quais se insere e se exibe desde o primeiro traço

Minha arquitetura preferida: bela, leve, variada, criativa, criando surpresa.

Tudo começou quando iniciei os estudos da Pampulha desprezando deliberadamente o ângulo reto tão louvado e a arquitetura racionalista feita de régua e esquadro, para penetrar corajosamente nesse mundo de curvas e retas que o concreto oferece. 

A monumentalidade nunca me atemorizou quando um tema mais forte a justificava. Afinal, o que ficou da arquitetura foram as obras monumentais, as que marcam o tempo e a evolução da técnica. As que, justas ou não sob o ponto de vista social, ainda nos comovem. É a beleza a se impor na sensibilidade do homem. 

Sempre que viajo, olhar para as nuvens é a minha distração predileta, curioso, procurando decifrá-las como se estivesse em busca de uma boa e esperada mensagem. 

Como todos os arquitetos da minha geração tive grande influência da obra de Le Corbusier, que pela nossa arquitetura, por sua vez, se entusiasmou.Encontrar os amigos, esquecer um pouco nossas angústias, rir, mesmo sem muita razão para isso, é um velho hábito que, como quem rega uma flor todos os dias, venho cultivando há muitos anos.

Prefiro a linguagem simples, do quotidiano. "A literatura engrandece quando se aproxima da linguagem oral", disse Morávia numa das suas entrevistas. Mas se os livros de conteúdo social me entusiasmavam, outros, que nada disso oferecem, também me atraíam. Era a pureza literária a dispensar outros predicados, embora, juntos, pudessem, sem dúvida, enriquecer ainda mais. Como a beleza se impõe! 

Nunca acreditei na vida eterna. Sempre vi a pessoa humana frágil e desprotegida nesse caminho inevitável para a morte. O importante é dizer não aos que insistem em nos oprimir, incendiar o mundo, ricos e medíocres de mais para compreendê-lo. 

Um dia a vida será melhor, com certeza, sem as preocupações de luxo e poder que tanto a desmerecem. Modestos e realistas, os homens aceitarão afinal serem filhos deste velho planeta, como as florestas e rios, os bichos da terra e os peixes do mar."

O homem segue seu destino, satisfeito, quando suas convicções e esperanças com ele coincidem. Até hoje só fiz esculturas de protesto. 

Sempre defendi a importância que tem para qualquer arquiteto ou artista plástico uma boa experiência do desenho figurativo. Mesmo se na sua profissão não tiverem interesse ou necessidade de desenhar uma figura humana, aquela prática lhes dará a habilidade manual do desenho à mão livre. 

Nunca olhei para trás. Nunca me critiquei pelas faltas cometidas. Sou filho da natureza, um pequeno e humilde ser nela inserido para ela transfiro - em parte, pelo menos - minhas qualidades e defeitos. Foi assim que ela me fez. 

Sábados e domingos são os dias em que mais trabalho no meu escritório da Avenida Atlântica. Sozinho, a folhear alguns livros, escrever um texto qualquer, desenhar, pensar na vida ou simplesmente olhar o belo mar de Copacabana. Dizem que Descartes ficava na cama até 11 horas da manhã a sonhar suas teorias, e isso é o que procuro fazer, nesses dias em que a maioria vai para a praia ou resolve assistir ao futebol.

Sou pessoa simples, aberta para a vida, apta a aceitar todas as mudanças que os tempos estabelecem. E, por isso mesmo, compreendo a evolução da família, o triste e inevitável afastamento entre pais e filhos, a liberdade que a juventude exige para assumir seus próprios destinos. Mas lembro com saudade e reservas, é claro, os nossos velhos tempos.

Duas coisas guardo com satisfação. Uma é esse desinteresse pelo dinheiro, que mantive por toda a vida; a outra, minha vontade de ajudar as pessoas, ser-lhes útil, dividir. Ninguém imagina quantas vezes trabalho graciosamente, como fico longos períodos colaborando sem nada receber; como divido com meus amigos os projetos que elaboro, convidando-os para participar comigo. 

Brasil... Muitas vezes me senti jacobino ao defender meu país no exterior. Ao recusar as críticas, não raro justas, feitas muitas vezes num tom amigo e conselheiro. Mas, não sei porquê, nunca as tolerei. Lembro-me um dia, em Paris, da minha revolta quando alguém começou a criticar o Brasil, as despesas imensas que eram feitas, as obras gigantescas que surgiam, quando a situação, diziam, exigia política mais económica e realista. E não me contive, ponderando que tudo isso era natural - uma espécie de moléstia infantil, inevitável nos países em vias de desenvolvimento. E explicava que o Brasil era um continente. Um país jovem, que tudo justifica. Uma força da natureza. 

Todos temos dentro de nós um ser oculto, que nos leva para um lado ou para o outro. E o meu gosta dessas coisas, de mulher, de se divertir, de chorar, de se preocupa com a vida, é um sujeito complicado. 

Acho que tudo vai desaparecer. O tempo cósmico é muito curto. Já me perguntaram: não lhe dá prazer saber que mais tarde vamos passar e ver o seu trabalho? Mais tarde a gente desapareceu também. É a evolução da natureza. Tudo nasce, acaba, o tempo que isso vai perdurar é relativo. 

Quando me pedem um prédio público, eu tento fazer bonito, diferente, que crie surpresa, porque sei que os mais pobres não vão poder usufruir de nada, mas podem parar e ter um momento de prazer. Por enquanto só usam arquitetura quem tem dinheiro. Os outros estão fodidos, vivem nas favelas. 

No meu trabalho sempre convoquei os artistas, os pintores, mesmo no primeiro trabalho, na Pampulha. A arquitetura não pode ser vista como uma coisa isolada. Quando um arquiteto está a desenhar uma parede, está a imaginar se ela vai ter uma pintura, uma escultura, uma parede de pedra. O artista não vêm depois colocar o quadro onde quer.

Quando fui para Brasília, levei 15 arquitetos, mas também um médico, um engenheiro, dois jornalistas, cinco amigos meus que estavam na merda e precisavam de trabalho. Eu queria que a conversa em Brasilía fosse mais variada e não só de arquitetura.A vida é assim: temos de separar as coisas. É chorar e rir a vida inteira. Aproveitar os momentos de tranquilidade e brincar um pouco. E os outros é aguentar. A vida é um sopro. 

O meu escritório foi sempre de muita boémia, mas que não prejudicava o trabalho. A gente era jovem. Às vezes fechávamos o escritório e fazíamos uma semana de arte e brincávamos um pouco.

Ah, Brasília, como lutámos para te realizar! Como me espanto lembrado que foste feita em quatro anos apenas, respeitando as nuances do plano-piloto do Lúcio Costa, com tuas ruas, praças, prédios de apartamentos e palácios! Mas quantas alegrias e angústias tu nos deste!A arquitectura? Vale repetir. O importante é a vida, os amigos, este mundo injusto que devemos mudar. O resto... Vivemos num regime capitalista, e seus governantes, por mais progressistas que sejam, nada de essencial nos oferecem. Representam essa sociedade de classes, de ricos e pobres, de sem-terra e sem-tecto, que só a revolução pode modigicar.

Para se ser um bom arquitecto é preciso fazer o que se gosta e não ter medo de errar, não olhar para a crítica.

Eu acho que os projectos que fiz na Europa são os melhores, o acabamento foi melhor. Eu fiquei com aquela preocupação de mostrar o progresso do país não apenas no campo da arquitectura mas também no campo da engenharia. As obras são mais amplas, os vãos 'são maiores. Mas o projecto de que eu mais gosto é esse que fiz para o Memorial da América Latina. Pela liberdade que o tema me dava. Vou-te contar uma coisa que você vai ficar espantado. Fiz o projecto em cinco minutos. Eu estava no hotel, fiz uma perspectiva, como quem estava vendo uma coisa que estava surgindo.

Uma vez escrevi uns contos, mas achei que estavam uma merda e joguei fora. Mas um dia vou escrever, sabe porquê? Porque eu gosto de escrever. Quando não tenho ninguém para esperar, eu escrevo, qualquer besteira. Gosto de ver uma prosa limpa, correcta.

Enorme plasticidade da linguagem arquitectónica, possível devido a uma perfeita simbiose formal entre um invólucro muito livre e.imaginativo e o sistema estrutural que o suporta.



Retirado dos livros Meu Sósia e Eu, A Curva do Tempo, do documentário A Vida é Um Sopro e das edições do JL 714, de 25 de Fevereiro de 1998, e 970, de 5 de Dezembro de 2007