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Perfil

Nadir Afonso (1920-2013) Local e universal

Artes Visuais

Morreu Nadir Afonso, pintor, arquitecto e autor de diversos livros sobre estética, e não só, é um dos nomes mais destacados da arte portuguesa, desde a década de 40. Vivia ente Cascais e Chaves, sua cidade natal. Recordamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL de 14 de março de 2007

Nadir Afonso

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A minha vida é sobretudo relevante pelo que não acontece... é uma espécie de anti-autobiografia. Nasci em Chaves em 4 de Dezembro de 1920. Meu pai era poeta e chamava-se Artur Maria Afonso e minha mãe Palmira Rodrigues Afonso. Sou filho segundo, meu nome seria Orlando se, no dia em que meu pai me registara, não tivesse encontrado um cigano que sugeriu chamar-me "Nadir" "Muito Orlando será ele", disse o cigano.

Aos quatro anos pinto o meu primeiro "quadro": um círculo vermelho na parede da sala de minha casa, de tal modo perfeito que ninguém se atreveu a repreender-me. "Tu pintaste a parede Riri?", perguntou minha mãe. "Eu seria capaz de fazer uma roda tão bem feitinha?", respondi. E toda a minha existência se processou sob o signo do ritmo e da precisão geométrica.

 Toda a actividade se concentra então na prática da pintura (2º prémio no concurso "Qual é o mais belo trecho da paisagem portuguesa?", 1937); nesse sentido me dirigo à Escola de Belas-Artes do Porto munido de meia folha de papel selado em que pedia a inscrição no curso de pintura.

 Porém, aqui, segui o conselho errado do funcionário que me convenceu a inscrever-me em arquitetura.

 E assim surgiram novas dificuldades e novos desacertos. Eu não desenhava arquitetura: "pintava" arquitetura. Ficou conhecida a história do estirador que o Mestre Carlos Ramos me ofereceu e devolvi (a mesa foi levada à Escola pelos meus próprios braços) quando, coincidente com a oferta, a classificação baixou.

 Irredutível com o ensino, era pelo o contacto direto com a natureza que me atraía.

 O Porto, com a sua arquitetura barroca, debruçada sabre o Douro impressiona-me. Percorria a cidade pintando. Estreitando as relações com os meus colegas, fiz parte do grupo dos Independentes do Porto expondo em todas as suas exposições até 1946. "A Ribeira" do Porto deu entrada no Museu de Arte Contemporânea de Lisboa tinha eu apenas 24 anos. No entanto, a longa perseverança da minha obra afirma-se, paradoxalmente, através duma sucessão de desastres.

 Em Abril de 1946, com 25 anos, parti para Paris. Levei algumas das minhas últimas últimas telas, que terminaria em França, sobretudo óleos do período irisado. Transporte difícil no pós-guerra! Ainda não se tinha restabelecido a ligação de comboios entre a Espanha e a França, atravessei pela via-férrea entre a estação de Irun e de Hendaye com mala, rolo de telas... e a pé. Uma vez em Paris obtive, por intermédio de Portinari, uma bolsa do Governo francês. Matriculei-me no curso de pintura da École des Beaux-Arts e habitava no Hotel des Mines, no Quartier Latin.

 Pela primeira vez, tomo contacto com o grande mundo da Arte.

 Colaborei com o arquiteto Le Corbusier. Longos anos se passarão divididos entre um trabalho de arquitetura (a bolsa de estudo durara apenas um ano) e um trabalho de pintura. Le Corbusier, conhecendo a minha paixão pela pintura, concedeu-me as manhãs livres para pintar (sem me descontar no ordenado). Servi-me algum tempo do atelier de Fernand Léger e comecei, pouco a pouco, a encontrar forma no abstracionismo geométrico. Os fundamentos imutáveis da estética revelam-se com mais clareza; o meu conceito das origens, da essência da arte, recebe, na assiduidade do trabalho, novas orientações.

 Em 1948 defendo tese no Porto, com um projeto executado sob a orientação de Le Corbusier, no qual ressaltam afirmações que geram grande polémica: "A arquitetura não é uma arte", é o tema da minha tese. "A arquitetura é uma ciência, uma elaboração de equipas" e como tal, um meio de expressão que não me satisfaz.

 Nos princípios de 1949 retirei-me de Paris; desenvolvi uma série de antigos estudos inspirados no barroco português, que resultaram no meu período barroco, a que se seguiu o período egípcio. Mais tarde alguém encontrou influência de Dewasne. Claro que não importa se um Nadir desconhecido é o influente ou o influenciado...

 Em Dezembro de 1951 embarco para o Rio de Janeiro. Aí começo um período de colaboração com Óscar Niemeyer; mais de três anos de dupla atividade: a necessária arquitetura e a obcecante pintura. E participo na elaboração do projecto da Exposição Comemorativa do IV Centenário da Cidade de S. Paulo.

 Regressei a Paris, retomei o contacto com os artistas orientados na procura cinética e desenvolvi estudos de estética e pintura que chamei "Espacillimité". Fiz parte do grupo da Galeria Denise René, expus juntamente com Vasarely, Mortensen, Herbin, Bloc. Tudo vi, ouvi e conheci; desde a prevenção de Dewasne: "Aqui cada pintor é um pirata com um punhal entre os dentes!". Compreendo, sim: devíamos participar na vida artística de Paris, mas... não posso; o meu passado vivido "detrás dos montes", a minha educação simples contrária ao jogo social das conveniências, das considerações forçadas e dos seus interesses subjacentes, me impedem.

 Consciente da minha inadaptação social e da minha dificuldade de integração no meio artístico, refugio-me pouco a pouco num grande isolamento; acentuo o rumo da minha vida só dedicada à criação duma obra. Desenvolvo estudos sobre a geometria que considero a essência da arte. Uma primeira publicação La Sensibilité Plastique aparece em 1958, em Paris graças ao apoio de Gaüzes, madame Vaugel e Vasarely.

 Na vanguarda da arte mundial, expus em 1958, no Salon des Réalités Nouvelles um "Espacillimité " animado de movimento (agora exposto no Museu do Chiado) e realizei em 1959 a minha primeira grande exposição antológica, na Maison des Beaux-Arts.

 Verifica-se desinteresse em relação às minhas exposições no Porto e em Lisboa. Mas eu não procurava nem a celebridade nem a fortuna. Se fossem esses os meus objectivos, há muito teria já abandonado a minha incessante procura da Arte. E em 1965 abandono para sempre a arquitetura, para me consagrar apenas à sua minha obra.

 A elaboração e publicação duma estética absorvem-me. Sucedem-se as viagens entre Chaves e Paris onde me encontro, entre outros, com Roger Garaudy. Por sua indicação trabalho Toulouse com Pierre Bru, com quem revi a forma sintática dos meus estudos.

 Em 1968 Vasarely escreveu ao editor suíço Marcel Joray uma carta em que lhe descreve o meu trabalho. E edita Les Mécanismes de la Création Artistique, a primeira grande monografia duma série que irei perseverantemente elaborando. Nunca corri, como diz Joray, "a cuidar dos seus interesses ", mas a arte, qual corrente caudalosa, ninguém a pode suster.

 Isolado, a minha existência torna-se menos adversa. Pinto e escrevo num regular e crescente sossego. Exponho em Lisboa, Porto, Paris, Nova Iorque, um pouco por todo o mundo. Sem partido político, fui condecorado e homenageado. Publico em 1983, Le Sens de l'Art, a que se seguem vários outros títulos, monografias e textos estéticos. Tenho quadros espalhados por vários museus mundiais.

 Não pretendo ser cientista; no entanto li, escrito por outros, o conteúdo da minha obra O Universo e o Pensamento, de especulação filosófica, nas primeiras páginas dos jornais e o plagiador muito cumprimentado; assisti a intelectuais apresentarem ideias minhas sem as respetivas aspas. E como sempre errante e desprendido e tudo.

 Se uma lição de moralidade pudesse ser entendida nas minhas (e noutras) memórias de artista, talvez fosse finalmente reconhecido por lei o fracasso das instituições culturais. Apoia-se e promove-se, não os verdadeiros criadores, mas indivíduos insinuantes, fura-vidas que gravitam à volta das instituições. Tenho consciência que a minha obra é única, original e de dimensão universal, mas reparo que "bons artistas" não são os que possuem uma obra válida mas os que imitam o que de vanguarda se faz lá fora e privam com os que os promovem.

 Quatro temas que se conjugam e desenvolvem nos meus três precedentes estudos e nos quais as teorias físicas da relatividade, as conceções filosóficas de idealistas e de materialistas e as teses biográficas sobre Van Gogh, são repostas em questão. Imodéstia minha? Sou português, transmontano e filho das Terras de Barroso. Aprendi de tradição a ser humilde, a louvar os mestres e a viver até aos 86 anos na simplicidade que a minha inferior condição sempre me concedeu. Um balanço da minha existência e dos trabalhos a que me devotei ressoa-me subitamente absurdo.

 Assim termino o último livro ainda por publicar: "Estou certo que tarde ou cedo serão acareados à evidência do que aqui deixo escrito; e mais uma vez, espero que qualquer credenciado cientista eleve, em seu nome, estes escritos, ao nível dos postulados. Todo o cientista credenciado que tenha mais possibilidades do que o autor, em promover a divulgação da obra, será mais facilmente reconhecido

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