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Arquivo: Júlio Pomar entrevistado por Joana Vasconcelos e Sara Maia

Artes Visuais

Na morte de Júlio Pomar (1926-2018), um dos maiores pintores portugueses do último século, recuperamos uma conversa, publicada no JL, de 26 maio de 2004, entre o pintor e Joana Vasconcelos e sara Maia, na altura eram ambas 'artistas emergentes'. No próximo JL haverá um dossier dedicado a Pomar

A bela exposição Autobiografia, uma das 'antológicas' possíveis de 60 anos de trabalho de Júlio Pomar, justifica este Tema. O JL sempre dedicou a maior atenção à obra e ao percurso de um dos mais importantes e significativos pintores portugueses do século XX, e deste início de milénio, diversas vezes o tendo entrevistado e tendo-lhe dedicado algumas primeiras páginas. Nesta edição a entrevista é diferente, por conduzida por duas jovens artistas, Joana Vasconcelos e Sara Maia; Pomar comenta para o JL alguns dos seus auto-retratos, e Rocha de Sousa faz a crítica à sua exposição.
Mas Pomar é também escritor, e, além de darmos a lume dois poemas seus inéditos, sobre essa dupla qualidade publicamos um ensaio de Maria Alzira Seixo, com a alta qualidade que é timbre da nossa colunista
A porta do número 6 da Rua do Vale abre para o pequeno átrio onde se destaca uma porcelana da colecção que pintou para a Vista Alegre. Na sala, alguns dos seus desenhos, duas portadas e outros quadros na parede. E, ainda, alguns livros e catálogos de arte. Ao centro a grande mesa: «É Yves Klein», exclama Joana Vasconcelos.
Júlio Pomar confirma.
Foi o início de uma longa conversa entre duas gerações de artistas. De um lado, o grande pintor, de 78 anos, do outro, Joana Vasconcelos, 32, que recebeu o Prémio EDP Novos Artistas, em 2000, e o Prémio Tabaqueira, em 2003, distinguindo-se sobretudo no domínio da escultura-instalação, e Sara Maia, 30, com um percuso singular no desenho e na pintura. Curiosamente, Joana é uma das novas apostas da Galeria 111, que trabalha há mais de quatro décadas com o pintor, e Sara tem exposto na parisiense Galeria Patrice Trigano, com a qual recentemente Pomar também passou a colaborar.
A conversa, de que um redator do JL recolheu o essencial, versa fundamentalmente sobre a exposição de 60 anos de pintura de Pomar, Autobiografia, que reúne cerca de uma centena de obras suas. A mostra, comissariada por Marcelin Pleynet, está patente no Sintra Museu de Arte Moderna -Colecção Berardo, até ao próximo mês de Novembro (todos os dias, excepto às segundasfeiras, das 10 às 18 horas). Entretanto, em Outubro, inaugura no CCB outra mostra da produção recente do pintor, abarcando as últimas duas décadas, intitulada Júlio Pomar e a condição humana, da responsabilidade de Helmutt Woll. E acaba de ser reeditado o livro XX Desenhos de Júlio Pomar, com um texto de Mário Dionísio, enquanto prepara um novo voluminho de poemas, que já tem título -Mas mudaste tudo, um dos versos de um dos poemas inéditos que à frente se publicam

Joana Vasconcelos -Como vê os jovens artistas plásticos?
Júlio Pomar -Não gosto desse termo, mas que façam o que lhes apetecer. Ou a gente se diverte, ou então não vale a pena.

JV -Mas gosta de Vídeo Arte, por exemplo?
JP -Não me faz subir às nuvens, mas a falta pode ser minha. Parece-me que o resultado fica aquém da proposta. Não quero, no entanto, ter um julgamento sobre isso, porque não conheço suficientemente.

JV -Não gosta do termo artista plástico. Quando lhe perguntam o que faz, responde que é pintor?
JP -Digo que faço o que me apetece, é o que ainda vai melhor.

JV -E o que era ser artista antes do 25 de Abril?
JP -Era terrível. Não acreditávamos que era possível viver só da arte e não ter outro ofício...

JV -Ainda hoje não se acredita...
JP -Comecei a acreditar sem dar por isso. Felizmente que não tinha jeito para mais nada. Quando precisei de ganhar a vidinha, tentei fazer o que fizeram os meus colegas, o Vespeira, o Fernando de Azevedo, que entraram para a publicidade. Mas eu era tão mau, tão lento, que ninguém me aceitou.
Foi uma sorte. Assim como também agradeço, depois de, mais tarde, ter entrado no ensino, terem-me mandado para o olho da rua. Conheço pessoas com muito talento que acabaram por ficar professores.

JV -E como conseguiu subsistir? Qual é o segredo?
JP -Fazia uns trabalhos para uns amigos arquitectos, terrivelmente mal pagos. Também fiz umas cerâmicas para uma fábrica das Caldas da Rainha. Alguns amigos compravam-me uns desenhos e foram trazendo outros compradores.
Pouco a pouco, o dinheiro entrava com a venda dos quadros e dos desenhos e ia dando. Lembro-me que um dia o Almada Negreiros, numa das últimas vezes que o vi na Brasileira, sentou-se na minha mesa e perguntou-me: «E você, tem trabalhado? ». Eu disse que sim e ele, no tom teatral do costume, disse-me: «Eu não tenho trabalho».
Ainda parece que o estou a ouvir, como se estivesse no palco do D. Maria. De facto, para ele trabalho representava uma remuneração, uma encomenda.
Para mim, trabalho era o que ia fazendo em casa, e se não tivesse dinheiro para comprar telas preparadas, preparava-as eu mesmo.

JV -E encomendas públicas, não teve?
JP -Nenhumas.

JV -Nem compras de museus e instituições?
JP -Quando a Gulbenkian comprava um quadrinho era uma festa...

JV -O facto de haver poucas colecções que comprem arte portuguesa continua a ser um dos grandes problemas para os artistas de hoje. E muitas vezes sinto que temos uma profissão de risco, de resistência.Como se sente ao fim destes 60 anos de pintura?
JP -É um arrepio... No fundo, foi uma soma de acasos. Hoje, a situação é diferente. Proporcionalmente, tenho a impressão que há mais poss ibilidades para um jovem artista aqui do que em França. Porque aqui está quase tudo por fazer. Por outro lado, todos os artistas que saíram do nosso país, foram bem recebidos quando voltaram a Portugal.

JV -É um fenómeno bem português. Mas nunca voltou...
JP -Fui para Paris em 1963 e nunca deixei de lá estar. Também tenho a sorte, ou falta dela, de mão ter terra, em Trás-os-Montes ou no Alentejo. Nasci em Lisboa...

JL -Podia ter comprado um monte no Alentejo.
JP -Não me apetece. Sou um bicho de cidade.
Mas talvez não tenha uma necessidade aguda de voltar porque nunca cortei completamente com o país, sempre vim a Portugal.

Sara Maia -E como concilia o seu trabalho com o facto de viver entre Paris e Lisboa?
JP -Na verdade, devo ter um lado masoquista muito forte, porque detesto inter romper o meu trabalho. Mas cheguei à conclusão que me é extremamente útil: quando retomo o trabalho, está amortecida em parte aquela relação muito próxima em que se confunde o que se quer fazer com aquilo que efectivamente se está a fazer.E muitas vezes, quando volto, começo tudo de novo. E isso dá-me muito gozo...

JV -Quantos quadros pinta por ano?
JP -Uns 15. Mas quando comecei, se pintasse dois ou três por ano, já era uma festa. E ia-se logo a correr à Brasileira dizer que se tinha acabado um quadro. Lembro-me que uma vez o Eduardo Viana apareceu por lá com um argumento muito forte: «Vejam lá que eu tinha virado um quadro para a parede, porque já não era capaz de fazer mais nada, e o filho da puta acabou-se sozinho». A necessidade da experiência

SM -A exposição de Sintra é uma Autobiografia contada através dos quadros que pintou. É uma espécie de mosaico da sua vida?
JP -A imagem do mosaico é perfeita. A ideia da autobiografia foi do Marcelin Pleynet e a ideia de articular em linha temáticas foi minha. Houve a preocupação, e acho que resultou, de tentar mostrar que em tempos diferentes houve situações semelhantes.

SM -Há uma experimentação contínua ao longo da sua carreira...
JP -Não é propriamente experimentar por experimentar. Não se trata de dizer «hoje vou caçar patos, amanhã andar de patins ». A experiência não é gratuita, é uma necessidade.Sou incapaz de refazer a mesma coisa. Às vezes pedem-me para fazer um quadro parecido com.... Mas não sai assim, porque não sou um fabricante. Fazer um quadro não é como fazer uma cadeira ou um guisado, porque neste sabemos quando está pronto e não nos enganamos. E um quadro, quando acaba...?

SM -A independência do seu trabalho é impressionante.
Tem um lado provocador?
JP -É natural. Dantes a crítica eram umas celebridades que tocavam várias gaitas. Depois, começou a haver uma crítica especializada, encartada. E sempre apanhei porrada desses senhores e espero continuar a apanhar, porque é bom sinal.

SM -Também não consigo olhar para o seu trabalho e vê-lo de forma abstracta. Porque ainda persistem alguns elementos figurativos.
Como é que esses dois elementos dialogam?
JP -Isso é muito difícil. É uma questão que muito críticos não conseguiam perceber... Porque a oposição entre abstracto e figurativo não tem razão de ser. Nunca quis prescindir de nada, embora os meus quadros sejam eminentemente figurativos.

SM -Há, porém, um grande diálogo com a abstracção.
JP -Há. Para mim, quer uma palavra, quer uma forma, tudo tem de ter uma pluralidade de sentidos. Só me apaixono quando posso tocar essa pluralidade. Posso pensar em forma geométricas, mas os quadros têm sempre de definidos organicamente.

JV -Mas no seu trabalho vejo épocas mais abstractas, outras mais figurativas, épocas em que há uma necessidade de cores diferente, com novas paletas cromáticas, épocas marcadas pelos índios da Amazónia.
JP -Pois. Nós somos esponjas.

JV -O que remete para aquela frase destacada na exposição em que se refere à realidade e à irrealidade...
JP -Exactamente. É quase como não haver fronteiras entre a realidade e a irrealidade. A surpresa do desenho

SM -Nos anos 40 e 50, em quadros como o Almoço do Trolha, a sua obra atinge uma dimensão muito política. Vê a pintura como uma forma de luta, como Picasso ou Diego Rivera, ou apenas o espelhar da realidade?
JP -Nessa altura não divergia muito do pensamento de um Diego Rivera, por exemplo. Pensava que a pintura podia ser, linearmente, um arma de intervenção. Hoje sinto que o problema é muito mais complexo e que nem a pintura ou qualquer obra de arte autêntica é facilmente dirigível. O maravilhoso na obra de arte é conseguir escapar ao programa que é proposto, como nas obras de Fra Angelico ou Giotto... É isso que me interessa.

SM -E como vê, hoje em dia, o retrato?
JP -De vez em quando tenho essa tentação, é uma batalha.

JV -Os seus retratos são feitos ao vivo?
JP -Cada vez menos. Aqueles retratos desenhados a lápis, dos anos 70, são paralelos à utilização da cor lisa e são uma espécie de contraponto a essa pintura. Cada um tem uma noite em que o modelo pousa, mas o verdadeiro trabalho só começa quando já desapareceu tudo e estou completamente perdido. Dos retratos presentes na exposição só pousaram o Camponês e o António Lobo Antunes, imagine-se! Mas também neste caso aconteceu a mesma coisa. O desenho não andava nem para frente nem para trás, até que me saiu boca fora: «Este estafermo não tem nariz, nem orelhas de abano, o que vou fazer?». O António desatou a rir-se e assim ficou o tempo todo, tal como aparece no retrato. A grande aflição é quando as pessoas levam a sério o seu papel de retratados...

JV -Também sinto nos seus quadros uma presença muito forte do desenho, que não se esconde por de trás da pintura...
JP -O desenho intervém quase no fim e começa com uma ideia muito vaga. Muitas vezes não desenho antes de pintar, ou faço apenas indicações muito sumárias. A pintura vai-se transformando e o desenho aparece no fim quase como um sinal de trânsito a dizer «é aqui».

SM -Quando uma pessoas desenha muito bem, como é o seu caso, não há uma dificuldade de libertação?
JP -Tenho uma grande dificuldade em desenhar.
Ninguém acredita. Para mim o desenho é outra coisa, não é só agarrar o lápis. Diria que o desenho é sempre uma primeira vez. A pintura é como encontrar alguém que já se conhece muito bem e com quem se faz uma festa nessa noite. Com o desenho, pelo contrário, sinto-me completamente despido. Os desenhos que fazia com pincéis chineses e agora a marcador são resultado de uma operação repetida muitas vezes: os primeiros vão para o lixo e os últimos também, pois o que queremos fazer tem de combinar com qualquer coisa de imprevisto, com a surpresa. Esse é o interesse do desenho.

JV -E a escultura?
JP -Agora estou a fazer bastante, mas é completamente diferente da pintura ou do desenho, pois parto de objectos já existentes. E com eles voume divertindo, construindo.

SM -Nesta exposição, estão em diálogo com as suas obras as de outros artistas que de alguma forma o influenciaram. Como se traduzem na prática essas influências?
JP -A escolha das obras é decorrente da própria Colecção Berardo. Mais do que influências, são encontros, afinidades. Por exemplo, a obra do Pollock é uma das primeiras que ele fez e é engraçado lembrar que no início andávamos à volta de uma mesma actualidade: a pintura mexicana. Pollock frequentou o atelier de Siqueiros, eu não porque estava aqui no «cu de judas» e só conhecia essa pintura através de fotografias. Mas há também um encontro com Picasso ou com o Andy Warhol. Na parte das esculturas, há evidentemente um diálogo entre a pena de Indian Chief, de Jean Tinguely, e a pena da minha escultura, embora sejam completamente diferentes.
Projecto de uma fundação

JV -Ao observar a exposição senti que nos últimos quadros há uma liberdade de expressão maior, um artista mais livre...
JP -Espero bem que sim. Nos meus últimos trabalhos o quadro não tem um limite pré-existente. Por exemplo, no Gadanheiro (1945) havia aquela luta entre figura diagonal e o quadro rectangular. Agora, o quadro vai-se acrescentando: quando os macacos que pinto querem começar a pôr a cabeça de fora é isso que eu faço.

SM -Sabemos que vai ter uma Fundação. Em que consiste o projecto?
JP -A ideia nasceu quando João Soares era presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Foi adquirido o prédio em frente da minha casa. Apenas sei que foi lá que se guardou o «Chora», o antepassado do eléctrico, e que depois foi um armazém de livros. Agora, está perto da traça inicial. O projecto de arquitectura será do Siza, uma pessoa de quem gosto muito, por todas as razões e mais uma. A ideia era ter um atelier, um espaço grande para trabalhar, e a paga era ficarem lá uns quadrecos, quando eu for fazer companhia aos anjinhos. O meu modelo foi sempre o atelier do Delacroix, em Paris, que é um espaço pequeno com meia dúzia de quadros, nada de grandioso. O actual presidente da câmara, Pedro Santana Lopes, já lá esteve e garantiu que o projecto vai para a frente.

JV -Que obras vão ficar na Fundação? E quem fará a selecção?
JP -Vou ter imensa pena de destruir ilusões.Será evidentemente uma escolha daquilo com que fui ficando, o que não é muito coisa. Há artista cedentes da sua obra, mas eu só há pouco tempo comecei a ter essa preocupação, e porque a Tereza Martha [sua mulher] me rói o bichinho do ouvido.... Até agora só comprei uma obra minha, o Camponês, trocando esse quadro por uma das minhas colagens.

JV -Com tão poucas obras, como vai fazer a Fundação?
JP -Há sempre uma cedências, umas ofertas ou obras de amigos. As paredes não vão ficar vazias.