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A mulher que venceu Don Juan

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Teresa Martins Marques sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.

Julieta Monginho

Escolha o leitor uma larga tarde, como aquelas em que deixávamos um filme por ver para ir ao facebook à procura do capítulo semanal do folhetim. Venha o leitor masculino com o desconforto de quem entra em terreno movediço. Sabendo de antemão que há-de ser uma mulher a vencedora do confronto, o triunfo que lhe resta consiste em não se identificar com o vencido Don Juan, o predador, aquele que destrói o outro para sobreviver ao combate que trava consigo próprio e com a sua imagem, personificação de vários tipos que, no seu grau mais virulento, se torna um "serial killer dos afectos", nas palavras da narradora.

Nesta viagem de rigor e aventura, não tenha o leitor medo de se marear, mesmo quando subir para uma embarcação ao sul. Há-de saltar da beleza para o horror no mesmo parágrafo, tal como na vida. Há-de encontrar nas paisagens deslumbrantes o palco dos actos mais atrozes. Contrastes, dicotomias: entre força e fraqueza, entre realidade e aparência, entre liberdade e escravidão. A autora sabe ao que vem, trata de definir os campos em confronto. De um lado as personagens que sabem amar: Sara, a quem ao nascer todas as graças foram dadas. Bela, rica, bondosa, culta e ingénua, caindo na rede de um sedutor. Luís, o professor brilhante e ingénuo, também ele vítima de uma Doña Juana. Lúcia, a psicóloga de passado misterioso, anjo da guarda das mulheres em fuga. Manuela, a jovem que escapa à condição de vítima e se entrega ao estudo do Diário do Sedutor, de Kierkegaard, defendendo uma tese, intitulada "Retórica Amorosa de Don Juan. Sombras da Sedução", destinada a entender a origem profunda do donjuanismo. Da qual, apesar da persistência da dúvida filosófica, emerge uma ideia-força principal: Don Juan não ama as mulheres que conquista em série, através da arte da palavra: Amaro, cirurgião plástico, o mais odioso biltre; Joana, também ela fazendo vida da aparência, o correspondente feminino de Don Juan, no que constitui uma das especificidades mais interessantes do romance; Manaças, um  falhado, através de quem se  descrevem os métodos de sedução, num diálogo que evoca a conversa entre Don Juan Tenorio e Don Luís,  em  Don Juan Tenorio, de Zorrilla (1844).   

O amor romântico não se opõe ao amor erótico, antes o integra como bênção fruída. O confronto dá-se com o amor assimétrico, baseado em relações de poder, o que redunda na negação do próprio amor. Afirma-se, isso sim, a crença na durabilidade da relação baseada no respeito, na liberdade, na doação. Nas palavras da narradora "amar é um verbo transitivo". Um verbo que pede um complemento, um alguém que é outro em si, prolongando a alteridade no novo ente relacional. Uma nova entidade que, não sendo simbiótica, transcende a mera soma aritmética. O amado integra-se neste novo ser, proposto e esculpido pelo amor.

 No ensinamento que a autora nos deixa, um dos ingredientes do amor assimétrico, ou seja da negação do amor, é a ausência de liberdade, por oposição à sua presença no amor verdadeiro. Este preceito - só há amor em liberdade - é repetido ao longo do texto como um refrão, uma ideia que Sara repete para não claudicar, que todas as Saras devem pôr em prática para não perecerem. A liberdade e, acima de tudo, a lucidez da liberdade, não pode sucumbir perante a ilusão do amor idealizado. Esta afirmação de liberdade, contra as relações baseadas no domínio de um sobre o outro, estende-se ao laço filial, o que liga Lúcia à sua filha Joana. A autora aborda este laço por um ângulo pouco visitado na literatura, o da inversão dos papéis tradicionais de autoridade e tirania, como se desta feita fossem os filhos a engolir Cronos. De certo modo prolonga o questionar do instinto maternal, na senda, por exemplo, de Elisabete Badinter, na sua obra significativamente intitulada L'Amour en Plus, traduzido e publicado em português com o título O Amor Incerto. Este romance assume o propósito do que costuma chamar-se o empowerment da mulher, por oposição à sua nulificação. A começar pelas companheiras da Casa Abrigo, cada uma delas com o seu dote próprio, especialmente o de Maria para a cozinha, não importando a sua origem, aliás heterogénea. Ao ler as passagens em que convivem, numa leveza recém-adquirida, apetece-nos aplaudi-las, a elas e a quem, através das associações que as apoiam, no caso deste livro a APAV. A diversidade de origens das mulheres que habitam a Casa Abrigo serve à autora de pretexto, como tantos outros, para viajar através da riqueza cultural do país, de Trás-os-Montes ao Algarve, demonstrando que este território construído está inscrito num mapa inapagável, que a crise morde, mas não vence.

 Neste romance-ensaio muito terá a aprender sobre o amor, mas também sobre história, arquitectura, criminologia, sexo, música, gastronomia, língua dinamarquesa, pintura, cinema, automóveis, psicoterapias e organização doméstica. O folhetim e o livro são duas obras distintas, na estrutura, na consistência, no pacto narrativo. Ficou também um romance cuja ligação a quem lê não se esgota no acto da leitura. Não é Sara quem vence Amaro ou Luís quem vence Joana. No dia em que perdem o medo, deixam, simplesmente, de os alimentar, libertando-se do jogo em que, pelo temor e pela aceitação do sofrimento, tinham participado. Don Juan é vencido pela sua própria incapacidade de escolher. A autora será uma das raras mulheres, que ousaram abordar directamente a figura de Don Juan, aparecida em El Burlador de Sevilla (1630), depois de Zorrilla, Cervantes, Goldoni, Lorenzo da Ponte - o autor do libreto de Don Giovanni, a célebre ópera de Mozart - Balzac, Byron, Pushkin, Dumas, Baudelaire, António Patrício, Saramago, Almeida Faria. E todo o resto da vasta bibliografia oferecida pelo texto. "Vês, vês, eu também sei contar a história", diz Sara à criada/ama, no doce tempo da infância. Sim, Teresa Martins Marques sabe contar a história, e sabe recontá-la a partir de um ponto de vista vigorosamente novo.