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Manuel Resende: Surrealista e mais ainda

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Manuel Resende

Marcos Borga

Como bom herdeiro das tradições literárias surrealista e anarquista, não se revê em grupos, nem em movimentos. E publicar também nunca se revelou uma urgência ou uma ambição. Apenas lhe interessam as palavras, as dos outros, que traduz com paixão, e as suas, que vai compondo em versos (torrenciais, épicos, humanos) que cruzam vida e História. A Cotovia acaba de lhe publicar a Poesia Reunida, volume que assinala os seus 70 anos de vida, celebrando ao mesmo tempo um percurso discreto e deslumbrado com o espetáculo do mundo

Quantos livros são necessários para se reunir uma poesia? Manuel Resende não publicou mais de três, a que juntou as experiências poéticas que atribuiu a um heterónimo (Mika Ahtisaari, nascido em 1960, em Tampere, na Finlândia) e três inéditos e esparsos. Mas a quantidade nada diz da qualidade de um verso. Lemos estes livros de poemas demorados e descobrimos a vibração de uma voz que se emociona com o curso da História que lhe coube viver, com os lugares que descobriu nas suas andanças pelo mundo, em particular na Europa, onde, através da tradução, contribuiu para um entendimento comum, e com a esperança que resiste à mecanização futurística da vida. Aos seus poemas acorrem massas populares, sonhos e utopias, mas também memórias, infâncias, redenções. Ou noutras palavras, as da sua filiação literária, aqui encontramos amor, poesia e revolução. Anarquista na forma, surrealista no conteúdo, a sua demanda é a da palavra certa, a que possa ter uma ressonância no mundo.
Manuel Resende nasceu no Porto, em 1948. Do pai, engenheiro, herdou o gosto pela poesia e as ideias de esquerda, que viriam a explodir, como luz em terra obscura, com o Maio de 68, que acompanhou, informado, à distância. Por essa altura já traduzia, paixão que nunca o abandonou, sendo hoje um dos grandes especialistas em grego moderno (é sua a recente edição dos poemas completos de Konstantínos Kaváfis, das edições Flop). Nunca exerceu engenharia, que cursou, mas passou pelas redações dos jornais (seis anos no Jornal de Notícias), e pelos corredores da União Europeia (duas décadas como tradutor). Estreou-se, em 1983, com Natureza Morta com Desodorizante, a que se seguiria Em Qualquer Lugar (1998) e O Mundo Clamoroso, Ainda (2004). Três etapas de uma vida traduzida em versos.

Jornal de Letras: Este volume assinala os seus 70 anos, os 50 do Maio de 68 e os 35 do seu primeiro livro. Que data foi mais preponderante para a reunião da sua poesia?
Manuel Resende:
O Maio de 68, símbolo da minha geração. Tinha na altura 20 anos. Marcou-me muito.

Reformulando uma pergunta famosa: onde estava no Maio de 68?
No Porto, de onde segui tudo com muita atenção. Através de umas cooperativas culturais conseguíamos estar bem informados. Foi uma rutura total com a sociedade em que nasci, uma luz de revolta e insubmissão, sobretudo para quem, como eu, assumia uma filiação surrealista.

Define-se como surrealista?
Não o posso dizer dessa forma, porque não se pode ser surrealista e alinhar em grupos. Essa contradição, aliás, foi um dos problemas do Surrealismo, a base de muitas das suas guerras internas. Em nada disso me revejo, apenas nas ideias essenciais.

Amor, poesia e revolução?
Sim. Imbuir-nos do espetáculo do mundo e sobretudo o acaso objetivo. Esquecemos frequentemente que nós estamos no mundo. Só na fusão entre nós e o mundo há conhecimento e sensações e amor.

É preciso baixar as armas da razão?
Ser racional é aceitar a nossa condição humana, as nossas emoções. A razão de que tanto se fala acaba muitas vezes em coisas completamente irracionais. O desejo de controlar o mundo, por exemplo. Nunca seremos capazes de dominar a natureza, também porque somos parte dela.

Bem, temos dado bons avanços no sentido de controlar ou, pelo menos, destruir o mundo...
Isso já é possível. Podemos destruir o ser humano, mas o planeta continuará. Será outro, é certo, mas ele não precisa de nós para se salvar.

Destaquei a valorização do Maio de 68 porque normalmente a fronteira, em Portugal, está no 25 de Abril.
Para um slogan de badana, o 25 de Abril não dava conta certa em 2018... Sempre são 50 anos do Maio de 68... Mas, claro, o 25 de Abril foi muito importante, uma explosão. Eu estava na tropa, em Mafra. Tinha tudo preparado para desertar, com um contacto já feito com o passador. Não foi preciso. O curioso é que não nos informaram de nada.

Quando é que soube da Revolução?
De manhã fomos acordados por uma pessoa que entrou aos berros na camarata. Dizia: houve um golpe de estado! E sabe qual foi a reação geral?

Temeu-se um golpe de direita?
Mais engraçado: "Já nos lixaram o fim-de-semana!" No fim do dia, no entanto, já todos cantavam a portuguesa. No dia seguinte fomos para Lisboa ocupar o quartel do Trem Auto. Foram dias incríveis. As pessoas na rua, contentes, eufóricas. Pedíamos um café e era de graça. Nos museus também não pagávamos. Havia orgulho nos militares.

Mas não ficou muito tempo na tropa.
Fui expulso por causa de uns comités que vieram a dar origem ao SUV - Soldados Unidos Vencerão. Lutei por uma democratização total nos ramos militares. Fiz uma proposta ultra-radical: abolir as patentes, todos deviam fazer todos os serviços. Fui aplaudido. Havia uma excitação com aquelas propostas. Mas depois...

Guia de marcha para a rua?
Pois. Até a ideia de um sindicato de soldados, inspirado no que havia na Holanda, foi considerado subversivo.

Pelas histórias que conta e também pela sua poesia nota-se uma consciência política forte. De onde vem?
De casa. Embora não falasse muito de política, o meu pai era um homem de esquerda, engenheiro na Efacec. Numa greve foi instado pela PIDE a denunciar os grevistas. Foi convenientemente transferido para a filial belga da Efacec. A ditadura não era só para os políticos, entrava na vida do dia-a-dia.

Começamos pela política para chegar ao seu primeiro livro, Natureza Morta com Desodorizante, porque nele, como em toda a sua poesia, História e Poesia são indissociáveis. O título, aliás, parece um programa.
Mas olhe que não é. Dei-lhe esse título para não dizer coisa nenhuma. Foi o mais esquisito que consegui arranjar. Há naturezas-mortas com violinos, açucenas, frutas... A minha tem um desodorizante.

Referia-me à ideia de evocar um tempo suspenso - o ano de 1974 está muito presente no primeiro livro -, mas por vezes também amargo (haverá mais tempos no passado). E nos restantes livros também se sente essa ligação da poesia com a vida.
E tem de haver, sobretudo para quem se reivindica surrealista. Mas não é a vida comezinha. É a minha, a sua, a de todos nós. Só nos afirmamos com, pelos e contra os Outros. Mesmo na experiência individual, é esse todo que se busca.

Em alguns poemas seus essa visão individual e coletiva parece devedora de Walt Whitman.
E é. Até tenho um poema intitulado Eu canto os momentos nativos. Poderia até dizer que a minha poesia é sobretudo uma colagem de muitos poetas, romancistas, músicos...

Não sofre da angústia da influência?
A Literatura, para mim, não é um combate, é um um ato de amor. Aceito todas as influências. Afirmo-me com o que recebo. É daí que vem o gosto pela tradução, a procura de me exprimir e ser outro pela voz alheia.

Quando começou a traduzir?
Muito cedo, ainda adolescente, mas aí só para mim. Mais tarde, durante o curso de engenharia, a tradução permitia-me ganhar algum dinheiro. A minha primeira tradução a sério, um ensaio de Jacques Rougerie sobre a Comuna de Paris, foi publicada em 1971. Sempre gostei de traduzir, mas a certa altura os editores começaram a atrasar-se nos pagamentos. Tive de encontrar uma alternativa.

Surgiu o jornalismo?
Sim, houve um concurso para o Jornal de Notícias e entrei. Fiquei lá seis anos. Aproximava-se a entrada na União Europeia. O meu interesse pelo grego moderno [a Grécia entrou na União Europeia em 1985, um ano antes de Portugal] começou aí: queria perceber melhor o que por lá se passava. O meu objetivo era ser correspondente do jornal lá durante alguns meses, mas não havia dinheiro para isso. Por isso, concorri ao cargo de tradutor, com a ideia de voltar passado um ano. Fiquei 20.

Regressando à poesia. Embora longos, publicou apenas três livros.
A poesia acontece-me de vez em quando. Não forço nada, nem a publicação. Quando a oportunidade chegou, publiquei.

Publicar não era um objetivo?
Nunca foi. O primeiro livro surgiu de uma proposta que uns amigos do Porto fizeram à Imprensa Nacional Casa da Moeda para a Plural. O Vasco Graça Moura disse-lhes que a coleção, para começar, tinha de ter vários livros preparados e não apenas um. Chegaram a mim pelo Manuel António Pina, de quem era muito amigo e que sabia que eu escrevia uns versos. Em Qualquer Lugar, da &etc, foi publicado por iniciativa de um amigo meu que, sem me dizer nada, enviou os poemas que lhe mostrara para o Vitor Silva Tavares. Ao Osvaldo M. Silvestre, editor da Angelus Novus, onde saiu O Mundo Clamoroso, Ainda, cheguei mais uma vez através do Pina. E esta poesia reunida também se deve à conspiração de uns amigos, que prepararam tudo nas minhas costas.


Aconteceu tudo por acaso?
O acaso faz bem às coisas. Se publicar, fico contente. Se não publicar, não há problema.

O volume também inclui uns poemas de um tal Mika Ahtisaari, finlandês radicado em Portugal...
... Isso foi um heterónimo que a certa altura arranjei, mas nunca o desenvolvi muito. Estou a passar por um período muito pessimista.

Porquê?
Não sei se vai haver língua portuguesa daqui a algum tempo.

Isso remete-nos para o poema em prosa que encerra o seu terceiro livro de poesia, Apocalipse.
Sim, às vezes penso nele como um testamento. Preocupa-me a crise ambiental, a inteligência artificial, a robotização da vida, o futuro. Talvez um robot nunca venha a conseguir o salto do pensamento do ser humano. Com pouca informação conseguimos criar uma estrutura superior que nos permite observar o mundo de outra maneira. O problema é de outra ordem.

Qual?
Os carros sem condutores, por exemplo. A Humanidade só aprende quando pratica. O ser humano vai ser cada vez mais burro. E quem mandará nas máquinas? Estão a sugar-nos a inteligência, a expropriar-nos da nossa própria vida.

Não poderá libertar o homem para a escrita, a arte?
Se não soubermos plantar não saberemos o que é a Natureza. A relação com o mundo desaparecerá e as palavras perderão o seu significado. A linguagem estará condenada.

"Deitámos tantas palavras sobre o mundo/ A ver se o mundo se arrepende", diz um dos seus poemas. O que pode, então, uma palavra, um verso, um poema?
Nada e tudo, depende da ressonância no presente. Sabe por que razão um exército não pode marchar por cima de uma ponte?

Não sei, na tropa não fui além da inspeção...
O movimento ordenado e cadenciado de um pelotão pode articular-se com a oscilação natural de uma ponte e levar ao seu colapso. Certas palavras ditas na altura certa têm uma força imensa, como se viu no Maio de 68. Mas para isso é preciso encontrar a música, e sobretudo o ritmo, de cada tempo. É muito difícil.