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Viriato Soromenho-Marques: No gargalo da garrafa

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JORNAL DE LETRAS As alterações climáticas, os refugiados e a seca que atinge a Península Ibérica, na habitual crónica de Viriato Soromenho-Marques.

Viriato Soromenho-Marques

A reação extremamente negativa da maioria da população europeia à vaga de refugiados que atingiu um pico em 2015 diz muito sobre o que nos espera nas próximas décadas de constrangimento ambiental crescente, acelerado pela intensificação do processo de alterações climáticas. Apesar de a Europa ser ainda hoje o melhor lugar do mundo para se viver em grandes conglomerados demográficos (não me estou a referir a pequenas “ilhas” de prosperidade como a Nova Zelândia, a Austrália ou o Canadá, com reduzida densidade populacional), a verdade é que os mais de 500 milhões de europeus da União Europeia (UE) sacudiram como moscas repelentes os quase dois milhões de desgraçados que se lançaram ao mar ou a longas travessias terrestres em busca de uma vida melhor, ou, em muitos casos, apenas da sobrevivência.
A chanceler Merkel, com o seu gesto de lisura moral, tão raro na política, ficou isolada na Europa e também na própria Alemanha. Os 94 deputados da Alternativa para a Alemanha (AfD) bem o comprovam. E não nos escondamos atrás da Polónia, da Hungria, dos países de Visegrado. Ninguém queria refugiados à sua porta. O "brexit" foi catalisado pelo pânico com os refugiados, misturados no meio da piza ideológica do populismo sem vergonha de Nigel Farage ou Boros Johnson com os imigrantes em geral. A França fez também o possível para passar imune entre as gotas da chuva. E no entanto, a Europa tem enormes responsabilidades no drama humanitário que - com uma diplomacia de olhos vendados para questões de princípio - afastou para a tutela do governo de Erdogan.
É claro que os governos europeus, como o holandês e até o alemão, são capazes de impedir a entrada de ministros turcos, mas, ao mesmo tempo, fazem da Turquia o grande tapete para onde se vão varrendo os refugiados, à custa de alguns milhares de milhões de euros, que Ancara aceita de bom grado. Nas causas da tragédias de milhões de sírios, iraquianos e líbios, arrancados à normalidade das suas existências, estão também as decisões criminosas de Blair, Cameron, Sarkozy e Hollande, derrubando governos com a força das armas e incentivando guerras civis em países que há escassas décadas eram ainda suas possessões coloniais.
Os refugiados são um exemplo do que nos espera quando tudo começar a ficar mais complicado. Não precisamos de ir mais longe. Nesta fase de longa seca que atinge a Península Ibérica, e apesar dos convénios hídricos entre Portugal e Espanha, a verdade é que os caudais ecológicos estabelecidos não são respeitados. Entre cumprir a lei - enviando água para Portugal, através dos três grandes rios ibéricos, Douro, Tejo e Guadiana – ou satisfazer as suas clientelas eleitorais do regadio no Sul de Espanha, o governo de Madrid não pensa sequer duas vezes. Quem controla as nascentes dos rios tem uma espécie de mandato divino para o abuso, em tempos de escassez. Isto é válido na gestão do Nilo, como é válido na gestão do Tejo.
Na bolha mediática em que vivemos, as coisas do mundo real e analógico vão-se impondo com a sua dureza implacável. Perante isso, somos bombardeados até à saturação pelos fanáticos da inovação tecnológica de todos os matizes, e pelos profetas da vida artificialmente intensificada e potencialmente indeterminada no tempo de duração, sem esquecer o deslumbrado entusiasmo dos fantasistas da inteligência artificial e da infinita digitalização da alma.
No fundo são os caixeiros-viajantes da ilusão, que nos lançam as nuvens de fumo necessárias para irmos habitando, sem maior angústia, num planeta que se aproxima cada vez daquele ponto em que já não caberemos todos nele. Um tempo, sujo e áspero, em que será preciso decidir quem passa pelo estreito diâmetro do gargalo da garrafa. No futuro, o essencial será sempre o pão e a água. E a retórica ética rapidamente se diluirá na força das decisões etológicas, ditadas pela lógica da sobrevivência. JL