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Helder G. Cancela: O lado mais obscuro do humano

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JORNAL DE LETRAS Maria João Cantinho fala sobre a nova obra de Helder G. Cancela, As Pessoas do Drama.

Maria João Cantinho

Helder G. Cancela falou (numa entrevista a Isabel Lucas, no Público), de um “silêncio quase absoluto” com que a crítica recebeu a sua obra Impunidade, publicado pela Relógio d’Água em 2014 e que foi finalista do Prémio da APE em 2015. Porém, se, com Impunidade, tinha feito recair sobre si as atenções de alguma crítica, é preciso referir que já havia publicado anteriormente obras como Anunciação e De Re Rustica, compondo, com Impunidade, uma trilogia, além de um livro de ensaios intitulado O Exercício da Violência. É importante relembrar o seu percurso para se compreender como os temas da violência, da decadência e da loucura se inscrevem no seu universo singular, tanto nas suas personagens como na construção da sua narrativa, criando uma atmosfera obsessiva em que as categorias do grotesco e do abjecionismo refletem a implosão das categorias do nosso entendimento, para dizer um mundo regido pelo caos e pela dilaceração, que se instalam nas relações entre as suas personagens e as empurram para situações-limite.
Lê-se no início de As Pessoas do Drama: “À minha frente um muro. Uma faca nas costas. Eu sentia-lhe a lâmina, seca como uma luz que apenas projetasse sombra. Entre o muro e a lâmina não havia nada. Vontade, medo, expectativa, nada.” Se, como escreve Maurice Blanchot, em O Espaço Literário, “escrever é entregarmo-nos ao fascínio do tempo e, através dessa entrega radical, atingirmos a essência da solidão”, é justamente este movimento que encontramos nas obras de Cancela, o de uma subtração ao tempo e ao espaço para mergulhar no mundo interior das suas personagens e da sua irremediável solidão. Tudo parte aqui de um impulso visceral e de um gesto de sobrevivência, em que o universo ganha uma luz seca, que não (nos) ilumina, mas antes nos lança numa teia, arrastando-nos vertiginosamente.
Cancela coloca-nos sempre diante de um inominável que se instala nos limites da linguagem, de gestos substituindo o que não é dito, mas que se pressente, diante da incomunicabilidade das suas personagens – e como se torna aqui tão forte a personagem de Victor, meio espanhol e meio marroquino, para tornar mais vivida e tensa essa impossibilidade da fala. É no corpo que se inscreve a radicalidade da lei, do mesmo modo que nele se joga a abjeção da sexualidade (não por acaso estes homens apenas têm relações com prostitutas). Dela, e também dos corpos, se ausentou o amor e a própria esperança e o autor dá-nos a ver um universo em que todas as relações se sustentam mais na visceralidade das pulsões do que nas ilusões que a sociedade quis impor-nos.
Nisso radica uma dimensão transgressora e ousada da sua escrita, ao arrepio das narrativas convencionais, fortemente reflexiva e implacável na forma de olhar o mundo. Oferece-nos sobretudo uma visão desencantada da humanidade, regida por estranhas leis, um universo do qual se ausentou, não apenas a linguagem, mas também a noção de família e de comunidade. E se, aquilo que é aqui encenado é a violência, ela escava o que há de mais frágil e precário na humanidade, dilacerando todos os elos (amorosas e familiares), aparecendo como reflexo de uma culpa arcaica e civilizacional, a do incesto, mais uma vez. Ela recai sobre todas as personagens, tornando-as reféns, trágicas figuras que se movem num território de ninguém, em permanente exílio, tanto da linguagem como da comunidade.
Em jogo estão seis personagens, Laura Sperelli, Filippo Arborio, Andrea (filho de Laura), Lisa (mãe de Laura) e o próprio narrador, cujo nome nunca nos é dado. Este parte em busca de Laura Sperelli, actriz, e que encontra em Itália. Alguém que é, antes de mais, uma imagem de um filme cuja violência sexual o excita, “uma mulher impúdica que não hesitava em despir-se para as câmaras”, que encontrará num teatro em Itália. Laura é uma “mulher pública”, que se sente permanentemente exposta, por isso o palco é, para ela, “um estado de exceção” (p. 61), onde mostra o corpo, nesse paradoxal gesto, em que “mostrar e esconder são parte do mesmo movimento” (p. 25). Tal como já acontecia em Impunidade, em que a personagem feminina era incapaz de amar, também Laura revela essa impossibilidade, profundamente perturbada e fechada em si no seu segredo. Como de resto todas as personagens, Filippo, o marido que é constantemente abandonado ou Victor, o empregado mudo sobre o qual ninguém sabe nada.
A inquietação deste drama advém precisamente dessa violência surda e insidiosa que se aloja a cada momento da sua ação, da sua estranheza que é construída por uma linguagem obsessiva e depurada, realçada por uma imagética impressiva e uma densidade metafórica assinalável. Podemos ficar envolvidos (ou não) pela estranheza desta linguagem, pela inquietação do seu universo ficcional, mas não ficamos imunes à contaminação que a sua leitura provoca. E se Impunidade já revelava uma voz singular na ficção portuguesa contemporânea, com As Pessoas do Drama o nome de Helder G. Cancela dificilmente poderá ser ignorado, inscrevendo-se numa linhagem de autores como Gonçalo M. Tavares, Rui Nunes, Jaime Rocha, Hélia Correia, Dulce Maria Cardoso ou António Lobo Antunes. Espreita-nos na sua obra o negrume de Dostoievsky e de Thomas Bernard, em todas essas figuras alinhadas pela constelação de uma escrita que tem o poder de nos dar o lado mais obscuro do humano e sem ilusões que a embelezem. Sem antídotos que a salvem.JL