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JORNAL DE LETRAS Projeto dos Músicos do Tejo, Fado Barroco, chega agora em CD. Ver vídeo

Maria Augusta Gonçalves

Há um ano, Os Músicos do Tejo apresentavam em Lisboa, no Grande Auditório Gulbenkian, o programa que, no final do ano anterior, tinham levado a Helsínquia, na Finlândia, a convite do cravista e regente Aapo Hakkinen, e que Marcos Magalhães e Marta Araújo então descreveram como “uma mini-história da música portuguesa, com a presença central do fado e da música antiga”. O projeto tomava o nome de “Fado Barroco”, recuperava testemunhos com mais de oito séculos, combinava tradição oral e música escrita e cruzava peças para guitarra portuguesa, com música medieval, árabe e galega, expressões do barroco, o fado e o lundum. Os riscos foram imensos. Mas foram eles que deram fascínio ao percurso, assim como os intérpretes de exceção com que Os Músicos do Tejo contaram, a soprano Ana Quintans e o fadista Ricardo Ribeiro.
O projeto, exatamente na forma como foi apresentado na Gulbenkian, em Lisboa, chega agora em disco, através de uma edição da Naxos, que já publicou dois notáveis testemunhos da orquestra de Marcos Magalhães e do seu conhecimento do Barroco, através da música de Francisco António de Almeida: as óperas “La Spinalba” e “Il Trionfo d’Amore”.
Para “Fado Barroco”, Marcos Magalhães saiu da sua área de especialização – o Barroco, exatamente –, e atreveu-se por outras grandes encruzilhadas do mundo. Identificou influências árabes-andaluzas na música galaico-portuguesa do século XIII, que, por sua vez, o levaram a canções de Abou-Khalil, mas também dos Madredeus, assim como à música de Carlos Paredes, António da Silva Leite, Miguel Amaral e Johann Sebastian Bach, de Francisco António de Almeida e também de Rão Kyao, José Palomino, Alain Oulman e Carlos Gonçalves. No Grande Auditório da Gulbenkian, a poucos dias do natal do ano passado, foi inevitável a entrega à proposta, acompanhar a história, assumindo que a essência da música portuguesa (da música), a sua riqueza, é essa capacidade de assimilar saber – saberes – de todas as eras e todos os quadrantes, e de os transmitir, partilhar. Porque também é assim que a memória do mundo se transmite.
O caminho abre com a guitarra portuguesa de Carlos Paredes. Conta também com Miguel Amaral, um dos músicos presentes, e com o século XVIII/XIX de Silva Leite. A segunda etapa demonstra as raízes árabes e galaicas, onde cabem Cantigas de Santa Maria e um “Soneto de Amor”, de José Régio, na música do compositor árabe Rabih Abou-Khalil. O Portugal Barroco, no meio caminho do percurso, recupera áreas de Francisco António de Almeida, para desaguar depois no “Fado Puro”, seja tradicional ou de Fernando Farinha e Rão Kyao. Impõem-se então Lundus e Modinhas, para se ir, por fim, “mais além”, com Camões e Alain Oulman, Pedro Ayres Magalhães e Madredeus, em novas e reconfortantes orquestrações de Marcos Magalhães.
Passado um ano sobre o espetáculo, permanecem momentos inesquecíveis: Ana Quintans, nas árias de Francisco António de Almeida, em Alain Oulman ou em Madredeus, o seu duo com Ricardo Ribeiro na Cantiga de Santa Maria, ou Ricardo Ribeiro na canção de Abou-Khalil. No final, uma certeza – mais do que fado, há “isto”. O disco inclui ainda uma modinha do século XIX, extra programa, por Marco Oliveira. Com Os Músicos do Tejo estão Miguel Amaral, em guitarra portuguesa, Marco Oliveira, viola de fado, e Jarrod Cagwin, percussão.
(Em memória, permanece igualmente um programa anterior de Marcos Magalhães e Marta Araújo, no palco da Fundação Calouste Gulbenkian, “Cinema e Música”, feito na primavera de 2016, em parceria com o realizador Pedro Costa. A sequência ia de Dowland, Purcell, Marini e Bach, a Kurtag e Eisler, em vozes tão fortes como as de Selma Uamusse, Anastácia Carvalho e Elizabeth Pinard. E fica aqui escrito, só para que não se esqueça). JL