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Raquel Gaspar Silva: O Alentejo mágico

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Raquel Gaspar Silva "Enquanto não esgotar a memória, são as vivências reais ou imaginadas que quero contar"

JORNAL DE LETRAS Raquel Gaspar Silva lança o seu primeiro romance intitulado de Fábrica de Melancolias Suportáveis.

Maria Leonor Nunes

O seu Alentejo é tão “mágico” como Macondo, o povoado de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Deu por si a pensar nisso, quando começaram a acudir-lhe à memória as recordações e as histórias que ouviu enquanto criança, na casa dos avós, coisas extraordinárias que se contavam à fresca, em que se confundiam espantos, medos, bruxas, lobisomens e outros mistérios. “Achei que tinha que agarrar nessa magia e passá-la à escrita”, diz.
Fábrica de Melancolias Suportáveis, o seu primeiro romance, agora editado pela Elsinore, resulta assim de uma “memória indireta”: “São retalhos de histórias que talvez fossem aumentadas pela imaginação infantil. Mas quando me vieram de novo à cabeça, não quis apurar qualquer verdade, simplesmente contá-las como as tinha ouvido”. E contá-las foi, para Raquel Gaspar Silva, 36 anos, um “compromisso” com a sua própria identidade e com a geografia da sua formação, o Alentejo.
No centro da narrativa está a fábrica, que se constituiu como seu “fio condutor”, uma “fábrica que se foi construindo e depois destruindo”. As personagens foram “inspiradas” em pessoas que existiram, numa teia de relações familiares encadeadas ficcionalmente. E entre elas, Carlota, a narradora, uma “entidade que representa todas as histórias, a sua transmissora e, em muitos casos, protagonista, a que presenciou e viu tudo de perto, sentindo como nenhuma outra personagem”: “É aquela que está e vai estar sempre presente, pelo menos para mim, que a ouço muitas vezes ‘falar’”, salienta a escritora. Nesse sentido, é também a “voz da escrita”.
Ouvem-se, de resto, no seu livro muitas palavras e expressões da linguagem alentejana. Palavras que escutava da boca da avó, algumas que julga terem sido adulteradas pelo uso, que nem estão registadas nos dicionários, mas que quis manter na sua ficção. “Os meus avós nasceram numa aldeia que é, de alguma forma, aquela que inspira o meu romance. Sou muito apegada à noção de lugar. E pareceu-me que não havia muito escrito sobre esse Alentejo, porque a ruralidade é normalmente retratada de outra forma”, acrescenta ainda. “Não sou revivalista, mas como costumo dizer, os meus velhos estão todos a morrer e há coisas das suas vidas, do seu imaginário que têm que ficar registados”.
Como um “marco” que o assinalasse, Fábrica de Melancolias Suportáveis foi escrito também para “preservar” a memória. A narradora diz ter esperado que todos morressem à sua volta para poder escrever. E dessa maneira, a literatura é a possibilidade de os “resgatar”. “Todos esses fantasmas continuavam muito vivos e quase gritavam”, explica a escritora. “Escrever foi uma maneira de os arrumar nos seus lugares. E agora que o livro está escrito, parece que há um silêncio”.
Se apurar bem o ouvido, Raquel Gaspar Silva distinguirá, porém, outras vozes que falam ainda, “memórias muito vivas da sua infância” que pedem para ser escritas.

À VOLTA DA ESCRITA
Sempre fez diários e diários gráficos, onde regista a corrente dos dias, histórias, acontecimentos, “uma forma de organização”, diz. Porém, não lhe passava pela cabeça querer ser escritora. Era a edição que a fascinava. Foi com esse desejo que escolheu fazer uma licenciatura em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa. Concluído o curso, acrescentou-lhe uma formação em "Criatividade publicitária". Trabalhou temporariamente como criativa numa agência e escreveu crónicas para um jornal alentejano.
Os seus trabalhos andaram sempre à volta da escrita. Talvez um prenúncio. Porque se não chegou a ser editora, aplicou-se na feitura dos livros. É escritora, com muitas histórias por contar. Depois deste romance de estreia já assentou as ideias para um segundo, talvez mais urbano, mas igualmente radicado na geografia alentejana e na memória. É dessa matéria que fabrica a sua ficção. “Enquanto não esgotar a memória, são as vivências reais ou imaginadas que quero contar. Ainda não estou preparada para inventar um universo de raiz”, sublinha.
Nascida em Évora, em 1981, Raquel cresceu com uma forte ligação ao espaço rural, uma infância “livre” e “feliz”. “Apesar de ter nascido na cidade, na capital de distrito, ia muito à terra e tive essa vivência da rua, do campo”, lembra. “Mas, quando cheguei à adolescência, voltei costas a tudo isso e queria era informação”. Veio estudar para Lisboa, mas a necessidade de proximidade da natureza levou-a a ir viver, mais tarde, para Azeitão. Uma decisão que tomou quando ficou grávida. “Não podia voltar a casa, a Évora, mas quis ir para um meio mais pacato e rural”, adianta. “Como costumo dizer, a maior sofisticação é voltar ao simples, ao básico”.
Quando nasceu a sua filha, tomou, aliás, a opção de ficar a cuidar dela em casa até que fizesse dois anos. Tinha então definido “uma estratégia de ocupação do tempo que passava pela escrita”, explica. E talvez porque era mãe pela primeira vez, sentiu uma “facilidade de retornar”à sua própria infância. Durante esse período, escreveu o seu romance, respondendo a um desafio do editor Guilherme Pires. É que ela tinha criado uma página de Facebook com alguns esboços das histórias que queria contar e o editor da Elsinore leu-os e convenceu-a a transformá-las numa narrativa de maior fôlego. “Quando fiz essa página, não tinha ideia do que queria fazer, não sabia do que precisava para avançar. Acho que, afinal, precisava do Guilherme”, diz rindo. “Tive a sorte de ele ter vindo ao meu encontro e de me ter acompanhado”. Sobretudo, pelo incentivo, para que não desistisse, dado que era a sua primeira experiência de escrita romanesca. Demorou-lhe um ano, mas conseguiu “deitar tudo cá para fora”. E “deu um livro”.
Paralelamente, registou a sua maternidade em poesia visual, num projeto sob o pseudónimo Rawquel – #domesticliteraturemovement, que poderá ter, no final, um vídeo e uma edição antológica numa pequena editora norte-americana. Os poemas, em inglês, têm sido publicados em revistas estrangeiras, de um “nicho underground”.
Entretanto decidiu retomar a atividade profissional. Mas não foi fácil. “Infelizmente, ainda se pensa que é um luxo decidir ficar em casa a cuidar dos filhos e tenho sentido esse preconceito “, adianta. Ao fim de muitas entrevistas e recusas, encontrou um emprego, como relações públicas, numa multinacional, na região de Setúbal. Curiosamente, uma fábrica. A da sua escrita não irá parar, enquanto Fábrica de Melancolias Suportáveis vai laborando leitores.JL