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Jorge Ramos Do Ó: O diagnóstico de uma profissão sempre por vir

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Imagem do Congresso O Tempo dos Professores

JORNAL DE LETRAS Jorge Ramos Do Ó escreve sobre O Tempo dos Professores

Jorge Ramos Do Ó

Cumpre-se no presente ano o trigésimo aniversário da publicação de Le Temps des Professeurs: Analyse Socio-Historique de la Profession Enseignante au Portugal (XVIIIe-XX siècle), volume que reproduz a tese de doutoramento que António Nóvoa apresentou à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Genève. Tratando-se embora de obra que espelha uma aturada e erudita investigação histórica, permanecendo inclusive até hoje sem tradução em língua portuguesa, é facto que nenhum outro trabalho académico teve em Portugal a força de condensar e, ao mesmo tempo, espelhar o estar a acontecer da identidade de uma classe profissional inteira.
António Nóvoa mostra-nos nesse seu texto o como e o porquê do destino histórico dos professores se achar associado a uma dinâmica essencialmente paradoxal. A classe esteve efetivamente, e desde a segunda metade de Setecentos, na origem da afirmação do poder central – os professores foram por excelência os funcionários e os porta-vozes dos postulados do laicismo, os representantes máximos de um corpo de saberes e de técnicas, de normas e valores tornados hegemónicos e que estiveram na base da construção do Estado-nação – e, ao mesmo tempo, foi chamando a si a responsabilidade cultural da contestação da ordem existente, amiúde se apresentando à comunidade os professores como portadores das ferramentas culturais necessárias para a mudança das mentalidades e da produção do homem novo. Assinalar esta missão dual parecerá hoje uma evidência aos nossos olhos, mas foi o trabalho pioneiro, tanto teórico quanto empírico de Le Temps des Professeurs, que a tornou efetivamente visível, pensável e assimilável.
Imaginada e produzida na primeira metade dos anos 80, ainda por cima por um jovem professor que tinha apenas 26 anos quando iniciou os trabalhos de pesquisa, dir-se-ia que esta tese de doutoramento não podia deixar de refletir um certo entusiasmo militante, no pós-25 de Abril de 1974, que decorria da tensão agudíssima entre os problemas colocados pela estrutural reprodução da ideologia dominante e a vulgarização mesma dos projetos de emancipação social com que a larga maioria dos docentes se passou então a identificar. Como se, nessa conjuntura precisa, a articulação poder/saber e os próprios caminhos de uma pedagogia ensinante e de transmissão da verdade se esfumassem e desaparecessem por si só ante o vórtice dos acontecimentos revolucionários e a fantasia que os ia acompanhando.
Sem dúvida, António Nóvoa assumiu então o lugar de quem estava totalmente cometido e comprometido com a sua profissão, mas juntou-lhe a posição própria do investigador, que também queria tomar para si, quero dizer, aquele sujeito que entende dever canalizar todas as suas energias para uma zona de tal modo exigente do entendimento que de antemão sabe serem a complexidade e a indiscernibilidade as suas companheiras de jornada mais assíduas. É claro que também ele se lançou a grande pergunta da época: Porquê os professores?
Simplesmente, essa sua reentrada no debate fez-se pela obrigação de pensar mais, de sair da espuma dos dias e das dicotomias do presente. Por isso mesmo o seu Le Temps des Professeurs compõe um objeto de pesquisa com uma fronteira muito distante e que procura dar resposta a uma outra interrogação equivalente: de onde vem a profissão docente? Nóvoa apostou na longa duração para melhor compreender a “produção recíproca da escola e da sociedade”, de um modo tão intensamente acometido que nós, seus leitores, podemos perceber como os processos de reconstituição analítica foram combinando, ao longo dos dois volumes que compõem a obra, a história da educação com a história económica, com a história religiosa e com a história política. Como se assim procurasse a justeza de uma intuição acerca da sua profissão de professor – talvez a possibilidade de uma terceira via – mas soubesse já, igualmente, que apenas se abeiraria dela através de uma inusitada e infatigável obstinação sobre domínios inexplorados da razão.
Por isso cruzou séries documentais legislativas com documentação de arquivos particulares, fontes produzidas por organizações associativas sindicais e de instituições de formação de professores com textos da pedagogia científica, obrigando-se assim à conjugação de fatores diferenciados, a um regime de inteligibilidade que desse efetivamente conta dos processos complexos do devir. A sua tese é construída sobre continuidades e roturas, descontinuidades e intensas sincronias. António Nóvoa, na senda da escola dos Annales, de Fernand Braudel e de Vitorino Magalhães Godinho, acreditava assim que só o tempo longo nos permitirá colocar em evidência as grandes tendências do futuro, fora de essências fixas, das leis incontornáveis, das finalidades metafísicas com que a atualidade tantas vezes se nos apresenta. Le Temps des Professeurs é um grande instrumento de diagnóstico, uma história do presente, que nos permite ainda hoje compreender como nos tornámos naquilo que somos, mobilizando-nos para as tarefas que nos esperam.
Ontem como hoje, precisamos de construir uma epistemologia docente que se aproxime do ato mesmo da criação, que nos permita entrar em relação com os alunos, num patamar realmente distanciado da lei compendiária e da forma coerciva da administração do saber já pronto. Como imaginar todas as aprendizagens no interior de contextos e de práticas em que o adquirir se esteja sempre a subordinar ao produzir? – eis uma pergunta instante do nosso próprio tempo.
Ontem como hoje, a reinvenção das condições de possibilidade do trabalho docente não se fará sem que se coloque em perspetiva, numa assumida zona de exterioridade reflexiva, as missões que temos tido e o que procurámos ser enquanto grupo sócio-profissional. Creio que a potência de Le Temps des Professeurs está em nos convidar a voltar a nossa atenção para o que nos cabe pensar cuidadosamente com o que nos surge como essencial sobre a nossa profissão. Que só podemos encontrar aquilo que nos define e distingue como professores quando formos capazes de produzir um longo deslocamento para o interior de nós próprios, quando conseguirmos produzir um conhecimento investigador. Aquele que busque, encontre, mantenha e comunique a verdade, ao mesmo tempo que dela se vai apropriando. É este gesto que nos continua a encantar em Le Temps des Professeurs.J

* Jorge Ramos do Ó é prof. e investigador do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa e prof. convidado da Universidade de São Paulo (USP)