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Eugénio de Andrade: A Poesia Primeira

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JORNAL DE LETRAS António Carlos Cortez fala sobre a Poesia de Eugénio de Andrade

António Carlos Cortez

Foi Eduardo Lourenço quem disse que a poesia de Eugénio de Andrade (EA) era a “primeira poesia da poesia da nossa literatura”. Julgo que um juízo destes não pode passar sem prova passados mais de dez anos após a morte do poeta, cuja obra se reedita agora com chancela da Assírio & Alvim, numa edição integral de todos os seus poemas.
Tal afirmação, para mais vinda de quem vem, supõe, pelo menos, duas operações: ou estamos perante um poeta que Lourenço vê como voz maior da poesia portuguesa do século XX, medindo-lhe as forças com Fernando Pessoa, antes de mais. Ou estamos perante um daqueles juízos que devem provocar a reação imediata de quem não acredita que o clinamen explique a força de uma obra.
Sendo certo que Eugénio escreveu “de costas voltadas” para o inventor dos heterónimos, nem por isso deixou de lhe dedicar os Primeiros Poemas, como se com esse gesto de homenagem a morte do pai lhe fosse mais propícia à afirmação de uma individualidade. Portanto, mais do que estar num lugar de primazia em relação a Pessoa, EA será o autor da primeira poesia da nossa poesia, na medida em que com ele os diversos caminhos que percorreu o nosso lirismo regressam a uma fonte original que Lourenço soube interpretar. Um outro leitor arguto da poética eugeniana, António Ramos Rosa, em Incisões Oblíquas, volume de crítica de 1987, logo localizava as fontes dessa voz que restaurava ritmos do cancioneiro, formas de oralidade materna, dicções eróticas onde o oiro do dia se colhia na haste mais alta da melancolia. Transparência, leveza, fluidez, eis o que para Ramos Rosa, a poética de Eugénio convocava. Na delicadeza das imagens e na poderosa forma de trabalhar a alusão, o poeta meditava sobre a matéria verbal, sobre as palavras, opondo à ganga gasta da língua quotidiana, a pureza de um obstinado rigor que consigo trazia: “Só desejo de ser/ um travo de alegria”.
Em muitos momentos foi EA colocado sob a égide desse “Green God”, cujo corpo exaltou, dado ele próprio, na acutilância de um nome escolhido com toda a simbologia possível (Eu, génio), ter sido, na vida como na obra, encarnação possível de uma juventude e de uma solaridade que se prolongou por décadas. A respiração sensual, a metáfora como estratégia de um discurso onde o rosto do homem se figurava na sua plenitude máxima, isso mesmo dotou a poética de Eugénio daquela dimensão “autobiográfica”, de fascínio pelo retrato, obsessiva forma de interrogar a própria vida no espelho da morte. Óscar Lopes, atento a essas e outras correspondências na poética eugeniana, lembrava a importância da hipálage, dando a ver o modo como o discurso paramusical do poeta estava “entre o silêncio e qualquer rumor arterial ou fluvial, entre a água e um ardor, entre a luz e a noite, entre a terra e o vento”, rasgando univocidade de sentido, privilegiando, acima de tudo, uma palavra multifacetada, subversiva, sempre exigente quanto à consciência da tradição e dos legados trovadoresco, clássico ou simbolista, com Camilo Pessanha – agora sim – como mestre incontestado.
Por outro lado ainda, há que considerar que o gesto final da sua vida – a organização da sua obra completa editada pela sua Fundação – determinava os próprios modos de receção do seu legado. Trata-se de um gesto que nos remete para uma vida dentro da obra e uma obra dentro da vida. A imagem do atelier, de que Tolentino Mendonça se serve no breve mas agudo prefácio que assina, é justa e dá bem a noção da dimensão, digamos assim, plástica, desta poética. É que, como um pintor que estudasse as colorações a atingir, as densidades ou volumes a obter na obra de arte, EA, como Morandi, mas como Rembrandt, ou como Bach ou Li Bai, não sacrificou ao imediato da vida a lentidão da obra. Daí a visão contemplativa, mesmo quando crítica, que o seu olhar lança sobre a efemeridade do mundo, daí a forma como nos seus versos nos reencontramos com uma pureza que está para além da poesia pura como a entendeu Henri Brémond. E, já agora, a essa lentidão da escrita, a esse saber ponderar que palavras escolher, se deve também a penetrante sintaxe, que parecendo fluir simplesmente, faz do poeta de As Palavras Interditas um dos maiores fazedores do poema em prosa da nossa contemporaneidade.
Entre a luz e a noite, escreveu Federico Bertollazi num estudo recente, a respeito desta poesia. É que, na verdade, na interdicção que a sua obra soube construir, EA colocou-se sempre do lado mais íntimo do sol, mas sabendo que haveria sempre um lado lunar, eternamente seu. Mesmo cantando o corpo, as dunas, as aventurosas areias do amor e do mistério erótico, a essa solaridade permaneceu fiel, mesmo se na última fase da sua obra (de finais dos anos 70 até O Sal da Língua), os motivos e temas (a casa, a mãe, a poesia, o corpo), dão bem a medida de que se fazem os poemas de Eugénio de Andrade: a medida do tempo. Ofício de Paciência é, neste particular, um livro revelador e que, de algum modo, sintetiza, logo no poema inicial, todo um programa de vida em nome da deusa tutelar, a Poesia: “No prato da balança um verso basta/ para pesar no outro a minha vida” (p.513). JL