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Paralaxe: O parque de estacionamento da infância

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Burhan Kalak

JORNAL DE LETRAS Passei a fronteira da Jordânia para a Palestina (ou o que deveria ser Palestina) com volumes de cigarros de outras pessoas, pois os palestinos não podem atravessar a fronteira com tabaco.

Afonso Cruz

Passei a fronteira da Jordânia para a Palestina (ou o que deveria ser Palestina) com volumes de cigarros de outras pessoas, pois os palestinos não podem atravessar a fronteira com tabaco. A minha mala foi exaustivamente inspecionada por funcionários israelitas, depois de, sem qualquer informação adicional, me terem tirado o passaporte. Aliás, sem qualquer troca de palavras. A primeira palavra que ouvi foram as perguntas feitas pela terceira pessoa com quem tive de interagir: nome completo do meu pai, nome completo da minha mãe, o que estava ali a fazer, em que lugares estive antes, morada portuguesa completa, etc.
As pessoas que iam comigo, um editor e três tradutores, tiveram menos sorte e passaram mais duas horas dentro de uma sala a responder a algumas perguntas ou simplesmente à espera.
Do outro lado da alfândega, sentei-me a beber água. Ainda não sabia que teria de esperar umas horas pelas pessoas que me acompanhavam.
Havia muitas moscas e estava um calor insuportável. Alguns israelitas vestidos à civil, mas armados com metralhadoras, fumavam junto a um poste.
Um palestino, que se sentou ao meu lado, disse-me, enquanto me oferecia um cigarro: Os cigarros são a melhor coisa do mundo: deixam-se queimar por ti.
Fuma-se em todo o lado, dentro dos carros, nas escolas, nos restaurantes. Ao jantar, à minha frente, uma jornalista fumava narguilé enquanto comia. Uma baforada, uma garfada de arroz, mais uma baforada, um pedaço de frango. Fomos a um bar depois disso. Pedimos uma garrafa de arak, uma bebida anisada que se bebe misturada com água gelada. Burhan, um tradutor que vive há muitos anos na República Checa, contou-me um pouco da sua vida. Nasceu em Haifa em 1945, três anos antes da criação do Estado de Israel. A família teve de fugir para o Líbano em 1948 e depois, ainda nesse ano, acabou por se estabelecer em Damasco. Perguntei a Burhan se tinha voltado à Palestina depois disso. Respondeu-me que esta era a segunda vez:
– A primeira foi quando nasci.
Não se lembrava de nada, tinha apenas três anos quando se tornaram refugiados. Explicou-me que tencionava ir a Haifa, pois pretendia encontrar a casa que fora dos seus pais.
De facto, dois dias depois conseguiu chegar à sua cidade natal. Quando regressou a Ramala estava muito feliz. Tinha lágrimas nos olhos. Ofereceu-me um cigarro e disse-me: Hoje nasci outra vez.
Burhan teve a sorte de encontrar em Haifa um historiador que conhecia muito bem a cidade e a sua história e que, depois de umas perguntas e telefonemas, conseguiu localizar alguns familiares de Burhan, parentes que este nunca vira (a maioria primos, mas também uma tia materna).
Burhan parecia uma criança a contar isto. Talvez a criança que ele fora, sufocada em muitos anos de humilhações, estivesse agora a emergir para respirar um pouco. As crianças são muito mais resistentes do que imaginamos e, sem querer mitificar a ideia da infância, estas parecem manter-se intocadas para surgirem em ocasiões especiais impondo uma ternura inocente aos rostos mais magoados. A verdadeira pátria do Homem é a infância, disse Rilke. A infância é a pátria comum a todos os mortais, disse Delibes. A minha pátria é a infância, disse Baudelaire. A infância é a pátria de todos, disse Saint-Exupéry.
Perguntei a Burhan se tinha conseguido encontrar a casa onde nasceu.
– Sim. Por coincidência, o tal historiador vivia mesmo ao lado da minha casa de família.
Bebeu um golo de cerveja e acendeu um cigarro.
Quando voltou a falar, a tal criança que há poucos segundos ainda o iluminava desvaneceu-se:
– A casa já não existe. Agora é um parque de estacionamento.
Quando voltámos a passar a fronteira, de volta a Amã, pediu-me para guardar os papéis onde tinha anotado os nomes e contactos dos familiares que tinha conhecido em Haifa. Tinha medo que pudesse arranjar problemas na alfândega se fosse apanhado com eles. Tinha medo que não acreditassem que fossem contactos de familiares. Tinha simplesmente medo. É estranho como uma estrela de seis pontas bordada numa farda, com todo o passado de sofrimento que evoca, seja agora, nestas circunstâncias e contexto, uma visão que provoca medo.
Concordei em levar os tais papéis, evidentemente.
Ao chegar ao lado jordano, quis devolver-lhos, mas Burhan recusou, pois ainda tinha medo que algum soldado israelita o abordasse. Já de noite, no hotel, entreguei-lhe o envelope com os contactos.
– Telefonei agora ao meu neto – disse-me ele – e fi-lo prometer que irá construir uma casa, ao estilo andaluz, no local onde agora é o parque de estacionamento. E se ele não conseguir, será uma tarefa para os filhos do meu neto. E se eles não conseguirem, para os filhos dos filhos do meu neto.
A esperança de refazer a sua infância será um gesto que se prolongará depois da sua morte. Burhan jamais se dará ao luxo do desespero.JL