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O Homem do Leme: Olhos Azuis

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JORNAL DE LETRAS Ambos idolatrávamos o Lou Reed e elegemos o Five Years como a melhor música do David Bowie. Eu sei que isto hoje pode parecer um bocado estranho, mas a mãe e o pai conheceram-se através de uma rede social.

Ambos idolatrávamos o Lou Reed e elegemos o Five Years como a melhor música do David Bowie. Eu sei que isto hoje pode parecer um bocado estranho, mas a mãe e o pai conheceram-se através de uma rede social. Não é que fôssemos particularmente devassos ou atiradiços, que andássemos por aí em busca de aventuras. Tínhamos ambos saído de relações complicadas e estávamos à procura de qualquer coisa. A Internet era o lugar perfeito para fugir de quem nos estava próximo e nos aproximarmos de quem nos estava distante. Um método prático de reciclagem sentimental. Bem, não sei se podes compreender isto, mas garanto-te que na altura era normal ou pelo menos vulgar. Havia várias redes dessas. As pessoas inscreviam-se e entravam em contacto com estranhos. A partir daí tudo podia acontecer. Comigo nunca acontecia nada, porque não deixava que acontecesse.
Com o teu pai foi diferente. O facto dele ser holandês talvez tenha ajudado. Escrevíamo-nos em inglês o que, seguramente, fazia com que ficasse sempre muito por dizer. Mas, à parte disso, existia o mais estranho fenómeno: tanto encontrávamos mil e um pontos em comum, como havia um não sei quê de mistério que ansiávamos desvendar. Sim, o cabelo loiro e os olhos azuis do teu pai, mais do que deslumbre, sempre me provocaram curiosidade. Uma espécie de exotismo nórdico. É que os olhos castanhos, aos quais nos habituámos por cá, sempre me pareceram mais fáceis de compreender. Os azuis assustavam-me e faziam-me desconfiar, mas os do teu pai deixavam-me simplesmente na expectativa, embasbacada, a querer tirar coisas de lá de dentro.
De início, claro, só os sabia azuis das imagens que ele ia postando. Os vídeos fizemos muito mais tarde, quando a intimidade era outra. Mas nesses pormenores não vou entrar, porque não é o tipo de coisa que uma mãe conte a uma filha. Digo-te apenas que na altura era possível duas pessoas falarem em videochamada, em direto, morando em países distantes.
Julgo que fui eu a primeira a enviar uma mensagem. Tínhamos vários interesses em comum. Aquilo pegou. E foi avançando. Chegou a um ponto em que os vídeos já não nos satisfaziam. Ou, por outra, só serviam para alimentar a insaciável vontade de nos encontrarmos pessoalmente. Foi o que fizemos, de forma grave e inevitável. Uma e outra vez. As viagens repetiram-se. As poupanças iam desaparecendo. Eu já não tinha a quem pedir dinheiro. Até porque os avós não compreendiam a natureza da nossa relação. Mas sempre conseguia. Sempre acabava por conseguir.
Tudo isto aconteceu antes do grande apagão, antes da rede ir pelos ares, quando o mundo era um só. Mas, enfim, respondendo à tua pergunta, é por tudo isto que, apesar de seres portuguesa e de te chamares Beatriz, nasceste com esses magníficos olhos azuis. JL