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Júlio Pereira: Por esse cavaquinho fora

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Júlio Pereira "O regresso ao cavaquinho"

JORNAL DE LETRAS A pretexto do seu novo álbum, Praça do Comércio, entrevista a Júlio Pereira, instrumentista português

Em tempos chamavam-lhe o homem dos sete instrumentos, mas Júlio Pereira, 63 anos, muito mais do que um virtuoso e multifacetado instrumentista, é um dos mais criativos músicos portugueses, explorando sempre os territórios de fronteira entre tradição e modernidade. Praça do Comércio, o seu novo álbum, em que toca cavaquinho e viola braguesa é disso exemplo, troca as voltas à tradição, e faz um disco tão local como universal, fazendo jus ao cosmopolitismo de Lisboa. Alguns elementos sugerem o fechar de um círculo, como a capa ilustrada por Carlos Zingaro, tal como acontecia nos seus primeiros discos, ainda nos anos 70. E o uso do cavaquinho, como fez no seu famoso álbum de 1981. Contudo, o caminho é significativamente diferente. Se em Cavaquinho recolheu sons da tradição de diferentes regiões do país, aqui a viagem ultrapassa fronteiras e limites, aproximando-se, sem preconceitos, do rock, jazz ou música africana.
Júlio Pereira, de resto, começou mesmo o seu percurso de músico pelo rock, ainda antes do 25 de Abril, com bandas como os Xarhanga e Petrus Castrus. O primeiro disco a solo Fernandinho vai ó Vinho é de 1976. A que se seguiram muitos outros como Cavaquinho (1981) - muito aplaudido pelo público e pela crítica, Braguesa (1983), Os Sete Instrumentos (1986), Janelas Verdes (1990) ou Rituais (2001). Durante vários anos, trabalhou com José Afonso, sendo coautor de alguns temas, como Índios da Meia Praia, de que grava uma versão neste novo disco. E em 2014 fundou a Associação Museu do Cavaquinho, através de crowdfunding, que se tem dedicado ao estudo e divulgação do instrumento.

JL: Alguns elementos deste disco, como a capa de Carlos Zíngaro, remetem para o início do seu percurso. Há essa ideia de círculo?
Em 1981, gravei Cavaquinho, só com temas tradicionais de várias regiões do país. Há quatro anos gravei o Cavaquinho.pt, com temas meus, porque o criador tende sempre a afastar-se da sua origem, dos seus princípios, das suas referências básicas. Para mim é sempre um desafio gravar com este instrumento. Senti a necessidade de me libertar, de não estar preso a uma forma. Por exemplo, o tema Galope do Deserto, tem uma batida rock, mesmo sem guitarra elétrica, nem bateria acentuada. Durante estes últimos quatro anos estive à frente da Associação Museu Cavaquinho, um universo absolutamente ligado a este instrumento, com propósitos didáticos.

Daí a necessidade de partir para rumos diferentes?
Hoje somos muito diferentes do que éramos, por exemplo, no 25 de Abril. O êxodo do campo para a cidade, com todas as questões mais ou menos filosóficas e de caráter social que implica, é transportado para os instrumentos. Tenho muito prazer em tocar um instrumento musical, seja ele qual for, de uma maneira livre, sem me estar a retrair ou a canalizar para este tipo ou aquele.

Mas não foi sempre esse o seu caminho? Não tocou sempre de forma livre e descomprometida, e por vezes com experiências até bastante ousadas, como no álbum Rituais?
Referia-me à minha faceta de instrumentista. O Rituais é um disco de orquestrador. Mas acredito que a opinião de quem está de fora e conhece os meus discos seja essa. No princípio dos anos 80, era dos raros músicos em Portugal que trabalhava com eletrónica, apesar de estar muito ligado à nossa música tradicional. Nunca abandonei a tecnologia, pelo contrário, acompanhei-a sempre. Mas ao fazer um disco de cavaquinho, depois de passar quatro anos envolvido na defesa do instrumento e próximo da tradição, criei amarras ao próprio conceito da obra. Por isso tive que me libertar. Mas sei que há muitos tocadores de bandolim ou de cavaquinho, que gostam dos meus discos. Prefiro sempre que o disco seja fresco, que tenha a ver com os dias de hoje e não com o passado.

O Ricardo Rocha fala de uma relação amor ódio com a guitarra portuguesa, que considera um instrumento muito limitado. Sente algo parecido com o cavaquinho?
É uma questão gira para um instrumentista. Acontece com todos os géneros musicais que são fortes e concretos, como o fado, o tango, a salsa e o flamengo. Os solistas desses estilos ficam muito presos à sua própria técnica. Já fiz experiências com um tocador de Guitarra Portuguesa e notei que determinados ritmos tornam-se completamente inglórios, por causa da técnica e da característica do instrumento. O cavaquinho também tem características próprias, uma delas, conhecida por toda a gente, é o facto de ser muito pequeno e de ter quatro cordas que dão notas agudas.

Neste disco, quis percorrer vários ambientes sonoros. O título, Praça do Comércio, alude a uma praça-porto que, no fundo, simboliza o cosmopolitismo?
É mesmo isso. É bem possível que naquela praça um branco tinha visto um preto pela primeira vez. Como imagem, sempre gostei muito de praças, de mercados, de trocas de coisas.

O minuto de solo de cavaquinho, com que começa o disco, é uma espécie de afirmação ?
Ele saiu assim, até tentei orquestrá-lo, mas acabei por desistir a meio. É tocado com uma técnica antiga só que, na realidade, a melodia nada tem a ver com o passado. Para mim aquilo é tocar cavaquinho de uma maneira nova.

Uma maneira nova que liga ao que o Rui Vieira Nery identifica como a sua principal característica - o ritmo.
Faço muita percussão enquanto toco o instrumento. Se calhar foi esse ritmo que me aproximou do cavaquinho. E o que me terá fascinado, quando o meu pai me ensinou a tocar bandolim, quando eu tinha sete anos.

Neste disco compôs geralmente ao cavaquinho?
Há três temas onde compus e toco braguinha, que sendo parente familiar do cavaquinho é muito mais doce, com cordas nylon. O braguinha com que gravei foi feito por um construtor do Funchal, o Carlos Jorge Pereira, a quem eu pedi um modelo com um tom acima do habitual.

Há vários temas que acabam por ser cantados com ou sem letra. Como instrumentista como é que lida com a questão das vozes ?
De algum modo eu sempre gostei de utilizar a voz humana dentro do contexto da música instrumental. No caso do Comboio Azul, na altura que estava a gravar, passou aqui por Lisboa o Chney Wa Gune, músico de um grupo moçambicano, Timbila Muzimba, com o qual fiz uma digressão em 2004. Veio mesmo a calhar. Pedi-lhe que inventasse palavras, mas ele não conseguiu, e acabou por contar uma história. Além deste, só em A Noitada Extravagante aparecem palavras seguidas, numa quadra tradicional do Alentejo. Lembrei-me de convidar o António Zambujo por motivos óbvios.

Porque resolveu gravar Os Índios da Meia Praia, música que fez com o Zeca Afonso?
É a minha primeira música com o Zeca, está no disco de 78. Felizmente, gostou e acabei por trabalhar com ele até à sua morte. Já tinha tocado o tema ao vivo, mas só agora gravei.

A vida de um instrumentista em comparação com outros músicos não costuma ser fácil, no universo da música tradicional, popular, porque dá-se sempre muito mais atenção aos cantores. Sente essa dificuldade?
Tem algumas particularidades, não passa na rádio portanto é mais difícil dar a conhecer. Isto, apesar de eu ter sido um músico com muita sorte devido, sem dúvida alguma, ao disco de 1981 ter tido um reconhecimento nacional muito grande. Tal como aconteceu mais tarde com o Rão Kyao e o Pedro Jóia.

E a Associação Museu do Cavaquinho, como está a correr?
É incrivelmente pequena e com falta de recursos. Sobreviveu basicamente à custa de apoios pontuais dos próprios colaboradores. É a primeira vez que de uma maneira organizada estamos a compreender qual é o universo do cavaquinho no nosso país. A associação fez uma grande exposição coletiva itinerante que se chamava e chama 70 cavaquinhos, 70 artistas que passou por uma dúzia de cidades, e esteve inclusivamente na Feira de Arte Contemporânea de Montreaux. Estou a fazer de tudo para que ela vá a Nova Iorque. Além disso já produzimos e editámos os discos de cavaquinho de Amadeu Magalhães e Daniel Pereira e estabelecemos protocolos com várias entidades e escolas de ensino superior. E estamos a trabalhar num disco coletivo com dez tocadores de cavaquinho.JL