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Rui Knopfli (1932-1997): "...ecoo inteiro a força do meu grito"

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Rui Knopfli "Autor de tantos livros de uma poesia moderna, visitada e fecundada por uma vasta leitura"

JORNAL DE LETRAS Eugénio Lisboa recorda vida e obra de Rui Knopfli (1932-1997), poeta, jornalista e crítico literário e de cinema português.

Passam, a 25 de dezembro, vinte anos sobre a morte, em Lisboa, do poeta Rui Knopfli, escritor português de raízes moçambicanas e cultura universal. Nascido em Inhambane (Moçambique), em 10 de agosto de 1932, Rui Knopfli (RK) viveu a maior parte da sua vida em Lourenço Marques, para onde a sua família se transferiu em 1934 e onde produziu também a maior parte da sua obra. Nesta cidade do Índico concluiu os seus estudos liceais, tendo, depois, entre a África do Sul e Lisboa, congeminado a hipótese de um curso superior – possivelmente de arquitetura – que nunca, contudo, levou a efeito. Regressado a Moçambique, ali viveu até 1975, chumbado àquela “cidade provinciana”, que tanto amou, apesar da aguda e omnipresente consciência de estar a viver no “país dos outros”. Um país dos outros que era, paradoxal e pungentemente, também muito seu.
De um temperamento vivo, nervoso e com traços fundos de depressão não vigiada, o autor de tantos livros de uma poesia moderna, visitada e fecundada por uma vasta leitura, Knopfli dedicar-se-ia a uma agitação da vida cultural laurentina, nos setores da literatura, do cinema, do jazz, da pintura… Irrequieto, acutilantemente polémico, com toques vivos de uma maldade salutar e frutuosa, RK, repito, contribuiu, como poucos, para animar a paisagem cultural não só de Lourenço Marques, mas de toda a colónia, da Beira a Nampula e Porto Amélia. Irreverente e provocador (gostava de dizer, com acinte, que preferia, de longe, o Bucha e Estica ao Charlot), leitor omnívoro, devorador de cinema (o americano e o outro, mas com uma clara preferência pelo americano, mesmo o de assim não tão boa qualidade), leitor assíduo e colecionador de revistas inglesas e francesas (de cinema, literatura, teatro e artes plásticas), o Rui passou, como toda a gente, por uma fase de simpatia pelo neorrealismo, no qual, todavia, se não deixou ficar. Como também se não deixou ficar no marxismo-leninismo, depois de lhe ter, com algum enlevo, arrastado a asa. Ainda, como toda a gente, se deixou enfeitiçar pela literatura brasileira: o feitiço de Jorge Amado durou pouco, mas Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto ficaram.
Tive, com o Rui, o grande e inquietante prazer de dirigir, durante breves meses, o suplemento cultural do diário A Tribuna, e, durante longos e saboreados anos, as páginas culturais de A Voz de Moçambique. Semeámos, acho eu, alguma coisa, e criámos, tenho disso a certeza, um punhado de inimigos de estimação. Tanto da sementeira como da promoção de adversários convictos nos orgulhávamos nós muito e com alguma candura. Colaborámos também, com algum vigor, no Cine-Clube de Lourenço Marques, onde nos tornávamos, a um tempo, muito necessários e muito suspeitos. Do nosso empenho, eficácia e produtividade, ninguém duvidava; do nosso “não alinhamento” ideológico, quase toda a gente desconfiava. Cultura, sim, admitiam, mas cultura enviesada, não, advertiam… A isto, eu dizia “mata” e o Rui dizia “esfola”. Como não aderíamos à “boa doutrina”, nem a ele nem a mim confiavam, no Cine-Clube, cargos diretivos. Como, no entanto, era necessária mão de obra, lá fizeram de mim presidente do Conselho Fiscal (cargo rigorosamente não executivo), pedindo-me que, com alguma frequência, orientasse debates. Ao Rui, aproveitavam-no também para dirigir debates (severamente vigiados) e mais nada. Foram, digamos, dias bem vividos. Ser pestiferado não deixa de ser um destino apetecido.
Da poesia de RK, disse já, algures, o seguinte, que aqui transcrevo para fugir à tentação deselegante das paráfrases: “A sua poesia é, simultaneamente, o produto de um temperamento muito pessoal e de uma cultura literária vasta e assimilada em profundidade. De uma dicção poética extremamente económica – apeteceria dizer: esfolada até ao osso - , quebrando-se perversamente em ritmos de jazz (uma das suas assimilações mais intensas), impregnada de ironia, angústia e, até, de sinais de presságio, a poesia de RK funde, em si, uma vivência profundamente africana mas curtida numa inconfundível aticidade que vem de uma longa convivência com autores clássicos e com os grandes modernos, sobretudo de língua inglesa.
“Pertencente a uma linha de poetas da língua portuguesa em que o discurso poético mais se busca e constrói do que espontaneamente acontece (Sá de Miranda, António Ferreira, Fernando Pessoa, Jorge de Sena), Rui Knopfli, por outro lado, desleixa (ou teme, ou recusa) o cálculo rigoroso de uma métrica ou de uma rima, que algum modernismo (mas não todo) também desleixou. Não deixa, porém, de ser curioso que as principais influências (ou encontros) literários de RK tenham que ver com o modernismo anglo-saxónico (americano e inglês), o qual, precisamente, não raro achou não ser necessário desprezar nem a métrica nem a rima.”
Quanto à economia dos seus recursos de língua, tivemos já ocasião de a contrastar com a extrema exuberância manifestada na poesia do seu amigo José Craveirinha. Nestes termos (mais uma vez transcrevo); “Se a poesia de um Craveirinha denuncia o trágico e a aridez da situação africana através de uma linguagem opulenta, luxuriante e, às vezes, quase pesadamente indiscreta, a de RK, no outro polo, sublinha a mesma situação extrema, através de um discurso magro de palavras, escorreito, tenso, quase avaro: como se a falta de tudo tornasse quase obscena a abundância da língua.”
Poesia anunciadora, desde o primeiro poema do seu primeiro livro – O País dos Outros – de um “céu de chumbo e baionetas/ caladas/ sob uma floresta de sono/ e demência” que indiciam “a cólera/ do tempo”, ela põe-nos, sem demora, o poeta no centro de um exílio-a-haver, de resto, já sentido e vivido num presente em que “gemem ventos,/ fluem surdos rios.”
Rui Knopfli conheceu já um certo módico de reconhecimento internacional, com a inserção de poemas seus em antologias de língua inglesa, com a tradução dos seus três primeiros livros, em francês, num só volume, com o título Le Pays des Autres e com uma recente versão castelhana (premiada em Barcelona) de uma seleção de poemas seus. Sem falar numa antologia por mim organizada e publicada no Brasil, em 2010.
Em Portugal este ano será um ano festivo: uma antologia já publicada em Coimbra e outra a vir à luz, em breve, em Lisboa, atestam o interesse que este poeta começa finalmente a despertar. Já não é sem tempo. Mas será também de justiça recordar que, não há muito tempo, a Universidade de Aveiro organizou, em Vila Viçosa, onde o poeta está sepultado, um belo colóquio de três dias, consagrado ao autor de Mangas Verdes com Sal. Rui Knopfli começa, por fim, a ver-se ecoado “inteiro na força do [seu] grito”. O qual poderia continuar a ecoar nalguma universidade menos distraída, que quisesse aproveitar a efeméride. Aqui fica a sugestão. JL