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João Filipe Queiró: "O Ensino Superior está no centro da questão nacional"

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JORNAL DE LETRAS Matemático com reconhecida obra, prof. catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbr, de que foi diretor, secretário de Estado do Ensino Superior no primeiro elenco governativo do anterior governo, PSD / CDS, vai dar a lume um ensaio sobre esta área na coleção de Ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Ouvimo-lo a esse respeito e antecipamos um fragmento do livro

Além do que acima fica dito a seu respeito, João Filipe Queiró foi vice-presidente do Centro Internacional de Matemática, é membro da comissão científica responsável pela publicação das Obras de Pedro Nunes, do Board da International Linear Algebra Society, autor de diversas obras não só sobre Matemática e Ciência em geral como sobre a Universidade Portuguesa, etc. O Ensino Superior em Portugal é o seu próprio título, um novo voluminho editado pela FFMS, à venda a partir do próximo dia 20 (96 pp. 3,5 euros capa brichada, 5 euros capa dura). Aqui nos revela o que o seu novo livro é, e se publicam excertos do capítulo relativo ao financiamento.

Jornal de Letras: Qual a temática e o ângulo de abordagem deste seu O Ensino Superior em Portugal?
João Filipe Queiró: Trata-se de um curto ensaio sobre a sua importância para o país, organização, história recente e dos principais problemas que se lhe colocam. O ponto de vista não é do estudante, nem o do professor, nem o do dirigente ou gestor. Embora potencialmente interessantes, essas são perspetivas internas, particulares. O texto dirige-se mais ao cidadão com vontade de compreender o sentido das políticas públicas nacionais e sistémicas.
Quanto aos temas entre eles estão tão as missões do Ensino Superior e o sistema binário (politécnicos e universidades), a regulação do sistema, as vagas e o acesso, o financiamento, as propinas e as bolsas, os muitos aspetos da autonomia e da governação das instituições, a investigação e a avaliação, o ensino e a sua integridade. A seu propósito procurei chamar a atenção para debates e alternativas – a respeito das quais, como sociedade, temos de pensar e escolher – sem necessariamente se tomar posição, preferindo-se descrever e analisar os valores e tensões em presença.


Escreveu este novo livro com que objetivo?
Antes de mais, informativo: o que é o Ensino Superior, para que serve, que problemas enfrenta. Há um grande desconhecimento público em relação a ele, ao seu valor estratégico,àa sua complexidade e variedade, às suas diferenças em relação ao Ensino Básico e Secundário. Tentar combater esse desconhecimento é a principal razão para a existência do livro.

Que ideias principais defende?
A principal, que influencia todo o texto, é que o Ensino Superior está no centro da questão nacional, do que significa Portugal ser um país hoje. A elevação do nível cultural dos portugueses e da sua preparação é essencial para a permanência de Portugal como comunidade autónoma com um mínimo de identidade e capacidade de afirmação no mundo. Um país deficitário em matéria cultural e intelectual perderá progressivamente o controlo sobre o seu destino.
Por outro lado, existe uma relação causal – esclarecida cada vez mais pela investigação empírica – entre o nível educativo da população e o desenvolvimento económico. A este propósito deve também referir-se a atividade de incubação de empresas em instituições de Ensino Superior, em vários casos feita a sério e há muitos anos, bem como as múltiplas relações das universidades e politécnicos com a economia e a sociedade.

Que outros interesses estão em causa?
Outro interesse coletivo tem que ver com a natureza das atividades levadas a cabo nas instituições de Ensino Superior. Nestas deve escapar-se ao frenesim alimentado pelas notícias e pseudo-notícias do quotidiano e praticar-se o estudo e o debate lentos, refletidos, informados. Pessoas formadas em ambientes assim contribuirão para uma opinião mais preparada para elevar a qualidade do debate público, e portanto do próprio processo político democrático, por aumentar o nível de exigência dos cidadãos.
Aos fins ou interesses coletivos juntam-se os perfis e interesses individuais dos estudantes, desde o acesso a uma profissão específica até aos gostos pessoais, que devem também ser valorizados, pois a realização de cada cidadão é uma riqueza em si. Os estudos superiores podem ainda ser vistos como um investimento numa boa retribuição mais tarde, pois continuam a ser um dos poucos mecanismos de efetiva mobilidade social e económica e de igualdade de oportunidades. JL