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Rodrigo Guedes de Carvalho: As portas que a música entreabre

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Rodrigo Guedes de Carvalho

JORNAL DE LETRAS Agripina Carriço Vieira escreve sobre o último romance de Rodrigo Guedes Carvalho, O Pianista de Hotel

Agripina Carriço Vieira

O último romance de Rodrigo Guedes de Carvalho, publicado depois de dez anos de silêncio literário, não só confirma como supera as promessas deixadas pelos quatro títulos anteriores. O Pianista de Hotel é o livro de maior e mais amplo fôlego do autor, aquele em que a voz autoral toma um caminho próprio e singular, distanciando-se das opções discursivas dos seus primeiros romances.
É sob o signo da música que a efabulação se constrói, trazendo as histórias de duas personagens centrais, Luís Gustavo e Maria Luísa, a que se junta um leque reduzido de colegas, amigos ou desconhecidos que com estes se cruzam nos meandros das suas existências, povoadas pela solidão e pela dor, mesmo se ponteadas aqui e ali com réstias de cumplicidades e fugazes prazeres. O romance apresenta uma estrutura discursiva fragmentada, muito por via da sucessão de capítulos curtos, cada um centrado num dos protagonistas, dando ao discurso um ritmo sincopado e rápido, que embala a narrativa numa cadência musical, envolvendo e conduzindo o leitor num turbilhão estonteante de sensações, emoções e mistérios. O trabalho de leitura é, à vez, uma descoberta de segredos e uma formulação de hipóteses onde cada leitor empreende o seu próprio caminho em busca de sentidos às histórias que o narrador vai desfiando, deixando sempre por revelar partes dos enredos.
Levados pela música, descrita como capaz de “alcança[r] aquele espaço a que as palavras não chegam e onde o silêncio pede que o traduzam” (p. 343), entramos nos mundos de Luís Gustavo, o enfermeiro, e de Maria Luísa, a jovem órfã, dois seres que, na grande cidade, percorrem os mesmos espaços, seguindo caminhos paralelos que por vezes e durante breves instantes se cruzam sem se tocarem. Somos conduzidos pelo narrador, uma curiosa personagem que, a coberto de um confortável anonimato, deixa marcas constantes da sua presença e participação que se revelam nas múltiplas e esclarecidas opiniões que tece acerca das personagens e das desconcertantes interpelações aos leitores. Dá-nos a descobrir as vivências mais secretas, experienciadas pelas personagens, sobretudo a solidão que preenche as suas vidas, inscrita numa das epígrafes que abre o corpo do texto, um verso da letra de uma canção dos Beatles, que identifica, na perfeição, as personagens que povoam as páginas do livro: “Ah, look at all the lonely people”.
Cada uma dessas personagens (Luís Gustavo, Maria Luísa, a sua mãe, Pedro Gouveia, Saúl Samuel, o pianista do hotel …), a seu modo, “vive, há muito tempo, numa espécie de circuito fechado, círculo pequeno, de eterna meia-luz” (p. 223), e isto apesar da teia de relações, essencialmente profissionais, que vai tecendo e que o narrador aponta com lucidez: “Claro que sim, claro que há muito boa gente que tende a sentir-se só no meio de uma multidão, claro que certas pessoas, e não são poucas, arrastam orfandades depressivas mesmo que cercadas por numeroso sangue do seu sangue” (p. 88). Para além dessa condição, carregam outros sentimentos e vivências que calam e escondem, incapazes de decidirem se são realidade ou fruto de alucinações. Luís Gustavo, Maria Luísa, Pedro Gouveia, a voz narrativa que toma a palavra, em discurso direto, no último capítulo, todos eles convivem no seu dia-a-dia com a presença daqueles que, em algum momento das suas vidas, foram importantes e que já morreram. É toda uma plêiade de seres fantasmagóricos que cruza o espaço dos vivos num relembrar constante da efemeridade da existência humana a que também dá corpo o pianista do hotel Mirage, em que Pedro Gouveia e Luís Gustavo se encontram para conversar e cuja música inebria os dois homens. No entanto, e num traço de humor que aliás percorre todo o texto, o leitor chega à conclusão que mais ninguém parece ter reparado nem no artista, nem na sua obra, como se o pianista do hotel fosse uma miragem, tal como o nome do espaço em que atua.
Vivendo numa sociedade marcada pelo imediatismo e pela aparência em que, como insistentemente afirma o narrador, “o nosso corpo chega sempre aos outros antes de nós”, a efabulação dá-nos a conhecer os pensamentos e as emoções daqueles que tomam o tempo de olhar para o outro (para os pianistas de hotel) que apenas se torna visível se formos capazes de nos determos, de prestarmos atenção, de observarmos, em suma, de nos interessarmos por esses outros que se cruzam connosco. JL