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JORNAL DE LETRAS O novo disco de La Compagnia del Madrigale, Vespro Della Beata Vergine/Il Pianto Della Madonna, comemora os 450 anos do nascimento do compositor italiano,Claudio Monteverdi

Maria Augusta Gonçalves

Vespro della Beata Vergine e Il pianto della Madonna são dois projetos de La Compagnia del Madrigale, que, de algum modo, limitam temporalmente a passagem dos 450 anos do nascimento de Claudio Monteverdi e constituem, sem dúvida, dois dos mais importantes momentos dessa celebração.
O mais recente, dedicado às Vésperas, reúne o ensemble vocal e instrumental Cantica Symphonia e os instrumentos de época de La Pifarescha, a La Compagnia del Madrigale, todos sob a direção de Giuseppe Maletto.
A abordagem das Vésperas traduz a longa experiência dos músicos com este repertório e o domínio da diversidade de situações imposta por uma das mais dramáticas obras sacras de Monteverdi, tal como publicada em Veneza em 1610, que é acompanhada também da mais “conservadora” Missa In illo tempore.
Assim, da natureza sacra dos salmos e motetes, aos ‘madrigalismos’ dos textos, do apelo a referências tradicionais ao ritmo imposto, da escolha de instrumentos a opções de tempo e afinação, cada decisão foi tomada caso a caso. O resultado impõe pensamento e resulta numa viagem fascinante através da obra e da sua época.
O ensaio de Giuseppe Maletto, que acompanha esta edição, não só constitui um guia preciso para as opções tomadas, como desafia quem ouve a encontrar o “espírito do compositor” e recuperar a calma de outra era. Maletto não põe de lado práticas renascentistas, em lealdade ao texto de Missa In illo tempore, nem deixa de projetar o futuro presente nas Vésperas e na corporização do seu drama, sublinhando o Barroco emergente e o carater visionário do compositor.
Gravadas na Basílica de São Maurício, em Pinerolo, Itália, em outubro do ano passado, as Vésperas contam com os cantores de La Compagnia del Madrigale, como solistas, com o coro do ensemble Cantica Symphonia e com o som sumptuoso dos instrumentos de época da orquestra La Pifarescha.
Com uma individualidade bem marcada, esta interpretação encontra o seu lugar a par de outras versões notáveis – se não superando-as, em muitos momentos – do Concerto Italiano, de Rinaldo Alessandrini (Opus 111/Naïve), e da La Venexiana, de Claudio Cavina (também da Glossa), assim como da gravação recém-reeditada de John Eliot Gardiner, com o Coro Monteverdi, os Solistas Barrocos Ingleses, o London Oratory Junior Choir e His Majesties Sagbutts and Cornetts (Archiv/Deutsche Grammophon).
Quanto a Il pianto della Madonna, trata-se de um projeto de 2016, que reúne obras sacras de Monteverdi, a partir da produção profana, com base num dos grandes recursos da época – o ‘contrafactum’ –, a conversão de uma obra sacra ou profana, no seu oposto, adaptando um novo texto à música original. Na prática, o álbum concretiza a grande e eterna demanda – levar ao universo sacro a “harmonia celestial” das obras seculares do compositor de La favola d'Orfeo.
O próprio título resulta aliás de uma das mais emblemáticas transposições – ou contrafacta – do conjunto, a passagem do célebre Lamento d’Arianna a uma elaborada versão polifónica de Il pianto della Madonna, feita pelo próprio compositor para a sua derradeira coleção sacra, a Selva morale e spirituale, de 1640. Do mesmo modo, reencontram-se melodias do Terceiro, Quarto e Quinto Livro de madrigais, que servem agora as mais profundas reflexões religiosas, do nascimento à morte de Jesus.
La Compagnia del Madrigale faz apelo a textos de Angelo Grillo e Aquilino Coppini, contemporâneos de Monteverdi, editados no início do século XVII, para Stabat virgo Maria, madrigal espiritual sobre a música – ou ‘contrafactum’ – de Era l’anima mia, do Quinto Livro, assim como para Qui penpendit in cruce (de Ecco Silvio), Maria, quid ploras (de Dorinda ah! Diró mia), Te, Jesu Christe (de Ecco piegando) e Pulchræ sunt genae tuae (com origem em Ferir quel petto). São também textos destes autores que se encontram Rutilante in nocte (com a música de Io mi son giovinetta, do Quarto Livro) e Qui pietate tua (de Ma se con la pietà, do Terceiro).
A estes ‘contrafacta’ juntam-se peças sacras de Monteverdi, publicadas por Giulio Cesare Bianchi, outro contemporâneo do compositor, incluindo as extensas Litaniae lauretanae. Aqui se encontram então Letanie della Beata Vergine, assim como alguns dos mais célebres motetes, como Christe, adoramus te, Cantate Domino, Adoramus te Christe e Domine ne in furore tuo.
O resultado, tanto em Il pianto della Madonna como em Vespro della Beata Vergine, é assombroso: o domínio da tensão, o equilíbrio das diferentes linhas, um apuro extremo, uma dicção perfeita e uma beleza sublime, que emerge do conjunto, em que tudo flui naturalmente, algo só possível com um cuidado extremo e muita atenção a todos e cada um dos pormenores.
As sopranos Rossana Bertini e Francesca Cassinari, a contralto Elena Carzaniga, os tenores Giuseppe Maletto e Raffaele Giordani, o barítono Marco Scavazza e o baixo Daniele Carnovich constituem o núcleo da Compagnia, a que se juntaram a harpista Marta Graziolino e o organista Luca Guglielmi (com Tocatas de Frescobaldi), para Il pianto della Madonna.
Este disco possui ainda um precioso ensaio do musicólogo Marco Bizzarini, da Universidade de Pádua – um dos nomes recorrentes da Glossa e um dos principais investigadores da música italiana, associado à nova edição da obra de Antonio Vivaldi – em que expõe, de modo muito claro, a importância da interação entre a palavra e a música, no tempo de Monteverdi.
La Compagnia del Madrigale é um dos mais importantes agrupamentos da atualidade neste repertório, a par do Concerto Italiano, de Rinaldo Alessandrini, e de La Venexiana, de Claudio Cavina, com os quais partilha elementos, história, investigação e percurso.
O universo de Monteverdi surge após os discos dedicados a Carlo Gesualdo (Sexto livro de madrigais, Terceiro livro e Responsórios da Semana Santa) e Luca Marenzio (Primeiro e Quinto livros de madrigais). William Byrd, Cipriano de Rore e programas dedicados ao Cancioneiro de Petrarca e a Gerusalemme Liberata, de Tasso, são universos que se seguem na rota da Compagnia del Madrigale. JL