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A Antígona de Slavoj Zizek

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JORNAL DE LETRAS André Freire comenta e reflete sobre o pensamento de Slavoj Zizek e Sófocles em A Antígona

A Antígona, de Sófocles, é uma tragédia grega clássica que é, simultaneamente, uma obra-prima da dramaturgia universal e uma reflexão sobre conflitos fundamentais da existência humana em sociedade, designadamente entre a razão de estado e as liberdades individuais (ver Bonnard, 1989, e a introdução de Maria Helena da Rocha Pereira, MHRP, em Sófocles). A importância da obra está bem espelhada no seu impacto na literatura, nas artes e na história das ideias ao longo dos tempos (Steiner). O caráter de obra seminal está também subjacente quer às múltiplas interpretações sobre o seu sentido último, quer às múltiplas tentativas de reescrever o mito homérico. Uma das tentativas é precisamente esta recente Antígona, de Slavoj Žižek, que hoje aqui nos ocupa, mais precisamente As três vidas de Antígona.
Zižek é um dos mais proeminentes pensadores críticos da atualidade, próximo da galáxia da chamada esquerda radical (no sentido técnico do termo, ou seja, não pejorativo: ver March & Freire, e Keucheyan), mas com uma influência que vai muito para além dessa esfera. Classificando-se a si próprio como "filósofo hegeliano", "psicanalista lacaniano" e "comunista", Žižek é investigador sénior do departamento de filosofia da universidade de Liubliana, na Eslovénia, diretor do Birkbeck Institute for Humanities, da Universidade de Londres, e prof. visitante na Universidade de Nova Iorque. O seu interesse pelas artes dramáticas está bem patente, por um lado, nos inúmeros filmes e peças de teatro que usa amiúde para ilustrar os seus argumentos, mas também nos trabalhos que tem feito mais diretamente sobre cinema e teatro. Aqui pretendo situar As três vidas de Antígona face à versão original da obra de Sófocles, sobretudo quanto às suas implicações para a história das ideias políticas.
Comecemos por recordar as grandes linhas de força da peça matriz (Antígona, segundo original escrito por volta do ano 440 antes de Cristo, traduzido do grego por MHRP). O pano de fundo é a dinastia dos Labdácidas, a família real de Tebas, e as trágicas existências dos seus membros na Grécia antiga, segundo os velhos mitos gregos depois levados à cena por vários dramaturgos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, etc.). Antígona é filha do rei Édipo, o qual matou o pai Laio e casou com a mãe, Jocasta, assumindo o trono de Tebas. Dessa tragédia resultaria o suicídio da segunda e a cegueira (e abdicação) autoinfligida do primeiro, quando os factos são conhecidos. Édipo deixa quatro descendentes: Antígona e Ismena; Etéocles e Polinices. A peça começa tendo como pano de fundo o fim da guerra entre os dois irmãos, Etéocles, que teria herdado o trono, e Polinices, que junto com seis aliados estrangeiros (Os Sete Contra Tebas) tenta conseguir o controle do reino para si.
Perante a morte de ambos, nessa guerra, é o tio de Antígona, Creonte, que assume a condução política de Tebas. E o seu ato fundador é lançar um édito em que decreta um funeral com honras de Estado para Etéocles, que defendia Tebas do irmão e dos seus aliados estrangeiros, e o abandono do cadáver de Polinices, "o traidor", para que seja comido pelos cães e pelas aves de rapina, sem direito a quaisquer ritos funerários. Creonte decreta ainda a pena de morte para quem contrariar tal ordem. A peça gira em torno do desafio de Antígona às ordens de Creonte, invocando a solidariedade familiar, os costumes ancestrais e as leis divinas. Perante tal desafio à autoridade do Estado, Creonte decreta a morte de Antígona por emparedamento.
Todavia, pelo meio Hémon (filho de Creonte e noivo de Antígona) tenta convencer (sem sucesso) o pai a infletir caminho, nomeadamente por o édito não estar sintonizado com o sentir maioritário dos cidadãos de Tebas. Mais importante, o vidente Tirésias acusa o rei de estar a atuar contra leis divinas e a atrair a maldição dos deuses sobre as cidades gregas. E, por isso, perto do final o coro aconselha Creonte a libertar Antígona e, subsequentemente, a sepultar o cadáver de Polinices. Arrependido, o rei inverte a sequência aconselhada e começa por sepultar o sobrinho. Quando chega à caverna onde Antígona iria ser emparedada, para a libertar, é já tarde: esta já se tinha suicidado. Hémon suicida-se de seguida (renegando o pai), tal como a sua mãe (Eurídice). A tragédia abate-se mais uma vez sobre a dinastia dos Labdácidas, desta feita às mãos das decisões de Creonte.
Independentemente da qualidade ímpar da dramaturgia, as implicações da obra para a filosofia e a história das ideias políticas são imensas. Já se disse que em larga medida está em causa a razão de Estado, as leis positivas, de um lado, e as liberdades individuais (religiosas, consuetudinárias, etc.), de outro. Todavia, é preciso sublinhar que tal conflito é apresentado por Sófocles sem qualquer tipo de maniqueísmos e dando conta da enorme complexidade do assunto. Primeiro, note-se que os ritos funerários eram absolutamente cruciais para os gregos, porque sem eles as almas continuariam eternamente a vaguear sem poder transitar para o além, e sem puderem juntar-se aí a familiares e amigos já falecidos (Sófocles, pp. 35-36). Todavia, há que ter em conta que, no caso dos traidores, os costumes gregos previam a possibilidade de não realização dos ritos funerários (Lane & Lane, pp. 169-170, nota 12). Segundo, há quem veja na rebelião de Antígona uma luta pelas liberdades contra um poder protoditatorial (Lane & Lane; Bonnard): o édito de Creonte é uma espécie de decreto-lei emanado do soberano e não uma lei aprovada pelos cidadãos; Hémon adverte o pai de que a sua ordem não estará sintonizada com o sentir maioritário dos cidadãos de Tebas.
Todavia, por outro lado, os tempos eram extraordinários (final de uma guerra civil, com intervenientes estrangeiros à mistura; sucessão no trono por morte dos sucessores naturais) e, em tais contextos, mesmo os regimes mais democráticos admitem medidas de exceção… (Bonnard). Finalmente, há na tragédia de Sófocles uma certa contestação feminista à ordem política machista da Grécia antiga (mesmo nas cidades mais democráticas como Atenas): toda a contestação é protagonizada por uma mulher e isso é sublinhado, e até vilipendiado, em várias falas de Ismena e de Creonte (Lane & Lane).
Dadas as ressonâncias políticas da obra original, não admira que Slavoj Žižek tenha querido também dar a sua interpretação da mesma, reescrevendo-a como As três vidas de Antígona. Primeiro, Žižek sublinha que o maior tributo e respeito que se pode prestar às obras seminais clássicas é adaptá-las à contemporaneidade de cada época, algo bastante em linha com a cultura político-literária grega. Segundo, o filósofo esloveno assume a sua rescrita como estando, por um lado, alicerçada em contributos de Eurípedes (Electra), de Hegel (Fenomenologia do Espirito), de Walter Benjamin (ensaio sobre a arte da tradução), de Orson Wells (Citizen Kane), de Paul Claudel (Hostage), de (poemas de) Bertol Brecht, entre outros; e, por outro lado, assume que tal rescrita, mais de que uma obra artística, pretende ser um "exercício ético-político". Finalmente, em termos de reescrita, a Antígona de Žižek assenta sobretudo numa transformação do final da peça (o "êxodo"), agora desdobrado em três finais paralelos, "as três vidas de Antígona".
A "primeira vida" é idêntica ao final da obra de Sófocles. Na "segunda vida" Creonte segue rigorosamente a instruções do Coro, ou seja, salva primeiro Antígona da sua prisão na caverna e só depois vai sepultar Polinices. Porém, os adversários deste último rebelam-se e instaura-se a anarquia na cidade… Na "terceira vida" o coro assume um papel ativo na tragédia e pretende ver-se livre quer da liderança autocrática de Creonte, quer "da representante da voz dos que não têm voz" (Antígona), condenando ambos à morte, e estabelecendo a necessidade de autogoverno democrático como via de saída. É uma espécie de pulsão democrática que preside à Antígona de Žižek. E, a fechar a peça, o Coro (como conjunto de atores) dirige-se ao público para que decida por si, responsável e autonomamente, qual o desfecho que prefere para esta tragédia clássica.
Termino com um desafio para editores (Relógio de Água, Cotovia, outras) e encenadores portugueses (Tiago Rodrigues, Jorge Silva Melo, outros) para que, respetivamente, editem e levem à cena As três vidas de Antígona. A importância desta obra seminal de Sófocles está por demais estabelecida, e a sua atualidade também; a versão de Žižek é, do meu ponto de vista, mais um motivo importante para se voltar a ela, nos livros e nos palcos. JL