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Golgona Anghel: O grande teatro do mundo

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JORNAL DE LETRAS António Carlos Cortez escreve sobre Nadar na Piscina dos Pequenos, o novo livro de poesia de Golgona Anghel.

António Carlos Cortez

Há títulos que parecem nascidos de um qualquer acaso (e se por acaso assim for, este título é um verdadeiro achado e diz muito da voz, da visão de mundo e do estilo de Golgona Anghel), como se atirados para a capa mais para suscitar perplexidade e confusão que para indicar um caminho de leitura, ou sugeri-lo, ao menos. Nadar na Piscina dos Pequenos é uma estranha isotopia, posto que ambígua, excêntrica, plural.
A voz que fala, numa primeira pessoa dramática, teatral, enuncia banais acontecimentos, por vezes anedóticos sucessos: em pleno palco “aparentando um rebanho de boas intenções” esse sujeito atacou “pela calada” e não sabe, nesse palco, se foi César ou se foi Bruto. Uma espécie de poética do não saber é o que este livro de Golgona a todo o momento parece defender. Num discurso posto muitas vezes no pretérito, igualmente se dá conta de planos frustrados, ambições arruinadas (“Eu, que sou romântico,/ queria estudar literatura, mas lia demasiado/ devagar. De maneira que não me foi possível./ Passei então para a filosofia. Para estudar Kant,/ a velocidade não é importante./ Ainda assim fracassei. [...]” (p.33), e é alegoricamente que o poema põe em andamento as leis do seu ritmo, da sua respiração, como se entre fracasso e vitória esse “eu” que se vê e a partir da sua história vê os outros, fosse um emblema, um símbolo, nadador que, na piscina dos pequenos, luta por não naufragar, ou resistir ao viver no quotidiano charco.
Procurar atalhos que conduzam, pelo caminho mais curto, ao entendimento do que é complexo, essa é uma finalidade que se esgota nos limites da sua própria enunciação. Se Sóflocles, a partir deste sujeito que mata a sua própria mãe para que haja tragédia, é aqui mais do que o autor de um género maior, tal só é possível porque por sobre o “eu” que neste livro se constrói é a própria ideia de literatura, ou de filosofia, de arte ou de existência, que se suspende. E é na exata medida do fracasso que o eu textual se esgota entre as exigências de um tempo burocrático e a ânsia de viver vidas alheias. Um sujeito a braços com um formulário que se preencheu e se carimbou, mas que de nada serve; sujeito que dá “passos em falso nos mais caros sapatos”, vítima da cínica maneira de ser cumprimentado por alguém com “um aperto de mão/ uma palmadinha nas costas”; tudo é aqui somatório de pequenas/grandes ruínas domésticas (“À hora do lanche, ao abrir uma lata de atum/ fraturei um dedo”). A impossibilidade de meter férias na vida, conduz-nos a essa maneira mais que irónica, trocista, de fazer do poema um remoque, um chiste, uma constante fala onde a derrisão é lei.
Observam-se cenas, esconjuram-se males pelo lado mais fraturante que o poema pode ter: esse lado reservado a torcer, a pegar nas palavras de todos os dias dando-lhes um uso ínvio, obtuso de tão literal. É o caso, por exemplo, de alguns versos do poema “como sempre, nestes lugares, o lanche foi frugal”: “Depois da sesta, tentei fugir./ A fuga exigia velocidade/ e eras tu quem me abria sempre a porta./ Quem apertava a corda./ Quem preparava a cicuta.// Por tua causa é que o Inverno começou e se repete./ Estavas em tudo o que ruía./ Muros e pontes,/ meteoritos, governos, fortunas.// Caías à desgraça como uma luva:/ cómodo e capaz,/ bem encostado a tudo o que te apetecia ocultar.// Sejamos francos, Félix. Há casas que terminam num jardim./ A nossa dá para a fossa das Marianas.” (p.36). Noutros momentos, entre a voz que fala e se dirige a tu ou o eu que exerce o monodiálogo, o que impera é a constatação de que nada pode salvar essa vida que, como uma pessoa longe de nós, nos olha, ou nos escapa. O efeito cénico da escrita pode desenvolver-se, subtilmente, no próprio desenho estrófico, como se lê em “Sentes-te bem ao ar livre”, texto onde dois ‘eus’ parecem trocar palavras ora duras, ora sarcásticas entre si: “Descansa, minha vida,/ mesmo se tu até em sonhos acredites/ que todos merecemos salvar-nos./ Sobrevivermo-nos.// Dorme, meu estupor,/ enquanto as jarras de lírios/ dissimulam a porta do teu breve inferno.” (p.38).
Algures se diz que houve um tempo feliz, com natureza viva, simples, “árvores cheias de fruta, abóbadas de vinha”; alguém, vindo desse tempo, como se dum filme, vinha assaltar esse outro que, do lado de cá da vida – no presente concreto da desilusão e do abandono – gostaria, então, “de pôr a conversa em dia”, servir um café a essa aparição do passado... Isso que se diz, esse movimento da memória retroativa, implica que, à medida que o livro avança se multipliquem, então, as vozes da enunciação. Quem fala são “eus” vários, máscaras das vítimas do tempo detergente que é o nosso, espelhando a vacuidade humana nas palavras, nas ações, nos desejos. O subúrbio torna-se o motivo, e de certo modo o tema do livro, até porque, exígua, comezinha, desvitalizada, muito do que este eu experiencia e/ou vê, obedece à lógica de um mal banal: “Não conseguimos conceber um desastre maior/ que a falta de bateria no comando” (p.47).
Por isso, entre “forma de vida” e “pão de forma”, oscilando entre heróis e impérios, tudo o que é humano acaba por cair, já que todos molhamos o pezinho na história da barbárie e dela participamos. Não espanta que, no masculino ou no feminino, estas vozes (ou a voz que em várias se estilhaça) se dirijam ao apocalipse que, atrasado, tarda em ser a solução. Procurar um poema de Joaquim Manuel Magalhães e que não se encontra, fechar o livro do poeta e ficar “à espera que a vergonha de estar viva/ devorasse o meu ridiculum vitae”, isso é ainda outra forma de afirmar a única realidade: a vida esvai-se nos pequenos charcos. JL