Jornal de Letras

Siga-nos nas redes

Perfil

O Homem do Leme: Máquina de Ser

Jornal de Letras

JORNAL DE LETRAS " Aquele avô de chapa metálica e milhões de bits trazia uma enorme vantagem: sempre que não dava jeito visitá-lo ao fim de semana, bastava colocá-lo em pause, que ele nem sequer se queixava."

O avô era um grande especialista em inteligência artificial num instituto em Nova Inglaterra. Passara grande parte da vida, ou pelo menos os últimos anos, a desenvolver um protótipo. Um robot que não tivesse necessariamente forma e textura humanas, mas onde pudesse nele ser depositada a alma. Entenda-se que alma, nos termos da gíria científica de Nova Inglaterra, não adquiria o mesmo significado inconfesso de muitas religiões, era apenas uma forma prática dos cientistas se referirem a tudo aquilo que era impalpável e difícil de definir através de um conjunto de zeros e uns.
O passo essencial foi desenvolver um software autorregenerativo. Ou seja, em vez de ser uma programação direta, feita por um técnico cientista, o robot foi criado com a capacidade de desenvolver o seu próprio software. No fundo, de se criar a si próprio, como um deus hermafrodita ou os grandes mitos do empreendedorismo. Contudo, a criação não partia do vazio. A máquina sentia a permanente necessidade de se alimentar de modelos e idiossincrasias humanas.
O avô tinha dado um parco contributo para a criação do software. A sua verdadeira especialidade era o emotional training. Passava horas frente-a-frente com a máquina, a transmitir-lhe conhecimentos e comportamentos, emoções e disfuncionalidades. Toda a gente sabe que um bom robot se faz através do desenvolvimento controlado das imperfeições. Só assim se consegue criar algo surpreendentemente humano.No erro é que está a virtude.
Naturalmente, o avô não tinha nenhum melhor exemplo para o enriquecimento do robot do que de si próprio. Aos poucos o robot foi aprendendo os seus hábitos, os seus gestos, a arrevesada (mas altamente previsível) forma de pensar, de agir e de reagir, assim como o significado dos silêncios, nas mais variadas formas. O avô era o cientista e a musa. Como qualquer bom Deus, criou o robot à sua imagem e semelhança. E, aos poucos, a máquina foi adquirindo os seus traços.
Quando o avô morreu, o robot serviu de enorme consolação para filhos e netos. Estava ali presente, o clone de si próprio, com cara de bit e coração de manteiga, sempre disponível para escutar ou dar os mais sensíveis conselhos. Inevitavelmente, todos se afeiçoaram à máquina, tão delicada, embora por vezes resmungona. Para ser o avô, só lhe faltava ser o avô. Mas isso era coisa que só incomodaria o próprio e, tendo em conta que o próprio deixara de existir, não incomodava ninguém. Aquele avô de chapa metálica e milhões de bits trazia uma enorme vantagem: sempre que não dava jeito visitá-lo ao fim de semana, bastava colocá-lo em pause, que ele nem sequer se queixava. JL