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O Homem do Leme: Teovigilância

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Aos poucos, a Internet, a tecnologia, as redes sociais, o algoritmo do Google, tornaram-se o deus do rapaz

Deus está em todo a parte, segue todos os teus passos, sabe todos os teus caminhos, está sempre a olhar por ti, está sempre a olhar para ti". O rapaz manteve-se cético, apesar do discurso empolgado do monge, o conceito parecia-lhe demasiado vago, abstrato, distante da realidade. Então Deus criou a Internet. Não terá sido exatamente Deus quem a criou, mas antes um conjunto de cientistas e engenheiros nos Estados Unidos. Contudo, sabemos bem que são ínvios os caminhos do Senhor. E Este age frequentemente através de intermédios, engenheiros, cientistas, enfim...
Aos poucos, a Internet, a tecnologia, as redes sociais, o algoritmo do Google, tornaram-se o deus do rapaz. Ele passou de cético a crente. Fizeram-se vida as sábias palavras do mestre. De repente, o virtual e intangível, uma força estranha e indecifrável, operada através de códigos binários guardados no segredo dos deuses, passou a dominar e a vigiar os homens e a intervir sobre a realidade.
O monge não via nada daquilo. Para ele a Internet era o diabo. O diabo mascarado de deus. E é incrível como os dois às vezes se parecem, como os dois às vezes se confundem. Ele sabia do que estava a falar pois já tinha visto o diabo com outras saias, com outros hábitos.
Apesar de regularmente se recolher, afastado do mundo, no seu convento, com longos períodos de jejum e de silêncio, sobretudo na Quaresma, o monge nunca se julgava sozinho, pois acreditava que Deus o vigiava em todos os seus atos. De nada servia pecar às escondidas, quando ninguém estava a ver, pois os olhos de Deus, mais velozes que o tempo, mais penetrantes que mil fortalezas, conseguiam sempre vê-lo.
O rapaz, aos poucos, também se foi convencendo, de forma progressivamente paranóica, da vigilância invisível. Não do mesmo tipo da do monge, mas apenas a ideia de que havia uma entidade superior, os donos dos algoritmos, as polícias secretas, os vendedores de produtos online, os russos, os árabes, os chineses, que sabiam sempre onde ele estava e o que estava a fazer. Que não adiantava fechar-se na casa de banho porque alguém, algures na Internet, no ciberespaço, sabia o que ele estava a fazer e eventualmente iria publicar a imagem no Instagram.
O rapaz sentiu-se de tal forma pressionado pelos mil e um olhares que acabou por ingressar secretamente num mosteiro, onde vivia mudo a comer apenas o que a terra lhe dava, sem comprar nada, para não deixar rastro no cartão de crédito nem nos stocks dos armazéns. O monge, pelo contrário, acomodou-se tanto aos olhares permanentes que relaxou, assim como fazem os concorrentes do Big Brother. Deixou-se cair em tentação e criou uma conta no Facebook, como um nome falso, só para enganar o diabo.JL