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Miguel Real escreve sobre Afonso Cruz: Romance sobre a culpa

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JORNAL DE LETRAS Miguel Real escreve sobre o último romance de Afonso Cruz, Nem Todas as Baleias Voam.

Miguel Real

Afonso Cruz acaba de publicar dois livros, um novo volume da Enciclopédia da Estória Universal. Mil Anos de Esquecimento, que, devido à sua complexidade, recensearemos mais tarde, e o romance Nem Todas as Baleias Voam. Não se pode dizer que haja novidade no conteúdo dos dois livros. Pelo contrário, ambos prolongam tanto os habituais temas que envolvem a sua escrita como o estilo do autor desde o seu segundo romance. No entanto, entre todos, Nem Todas as Baleias Voam é porventura o seu melhor romance: um estilo já totalmente depurado de retórica, de floreados empolados ou de um número excessivo de preciosismos eruditos, evidenciando o autor como um dos mais cultos escritores portugueses atuais, em conjunto com Patrícia Portela e Gonçalo M. Tavares; uma coesão muito, muito sólida entre o universo das personagens e a história que as vincula à mesma ação e ao mesmo enredo; jogos paralógicos (paradoxos, contradições, situações absurdas, habituais nos seus livros) descritos com evidente clareza, espantando o leitor; caracterização assombrosa das personagens através de uma fortíssima simbiose entre imaginação e realismo.
Mais do que os restantes, talvez este seja o romance de Afonso Cruz no qual as personagens assumem o lugar principal. O seu tema explícito consiste na tentativa feita pela CIA, na década de 60, de “converter” ao liberalismo as massas russas através da música americana não erudita, jazz, blues, folk, sobretudo através de concertos de músicos negros (desconhecemos se este tema corresponde a uma realidade efetiva ou se se trata de uma efabulação do autor). Porém, o tema “oculto” ou latente, que atravessa e caracteriza todas as personagens, consiste na exploração do sentimento de culpa existente camufladamente na nossa sociedade após a II Grande Guerra: como foi possível a morte de 60 milhões de homens às mãos de outros tantos em pleno século da Ciência, da Razão, do Progresso? Como foi possível o Holocausto?
Porém, tanto como o tema, são as personagens que atraem o leitor, tão fabuloso é o seu desenho, com características além ou aquém das propriamente humanas, um desenho racional e voluntariamente desequilibrado. Antes de mais, Erik Gould, personagem principal, que “via” as notas musicais, não no sentido exterior, mas incorporando-as em cada ato da vida, como se a música fosse a roupa que vestia, tocando ao piano acordes desconcertantes, nunca existentes, que, no entanto, experimentados, se revelavam mais atractivos aos ouvidos do que a música “normal”. Desesperado pelo desaparecimento da amada, Natasha Zimina, russa, Erik apaga os cigarros no braço, penalizando-se pela impossibilidade de completar o seu amor, como se se culpasse de o amor não ser possível depois de Auschwitz. Tristan, filho de ambos, sofre de “sinestesia”, isto é, corporifica os sentimentos e, neste sentido, vê com clareza as figuras que os personificam: a Tristeza, o Nojo, mas sobretudo a Morte, uma velha discreta que o acompanha permanentemente, quase até ao fim do romance.
Tristan é não só a personagem mais enternecedora como sobretudo a mais bem desenvolvida: relação de desejo e amor com a ex-prostituta Clementine, a caixa de sapatos onde sintetiza a sua pequena vida, a permanente ausência do pai, o lançamento da mensagem ao mar em Honfleur. Tristan paga a culpa de ausência atual de sentido de vida, representa uma geração que já não pode acreditar em Deus, a História deu-lhe todas as razões para não acreditar n’Ele. Isaac Dresner, judeu, psiquicamente coxo por um amigo ter sido morto a tiro num campo de concentração e a cabeça deste, tombada, ter tocado no seu pé; Isaac coxeia desde o final da guerra, sobrevive carregando a culpa de todos os judeus mortos; editor de livros que se não vendem, alguns deles publicados por escritores anónimos que lhe enviam os manuscritos por correio; busca completar e editar o Evangelho das Putas Gnósticas, o que consegue com a ajuda de Tristan; Tsilia, mulher de Isaac, judia, sofre das chagas de Cristo, sangra da testa, das mãos e dos pés, como se carregasse a culpa pela humanidade ter matado Cristo, simbolizando a morte de todos os homens inocentes e bons. O Escritor, simultaneamente inspector da CIA, incapaz, por si próprio, de escrever com originalidade, extrai as histórias anónimas, que envia a Isaac, por via da tortura de duas mulheres conservadas secretamente na cave; terno e amável para com a sua mãe, torna-se um monstro horrível para as suas vítimas. Natasha é uma das suas vítimas. É pelo Escritor que o narrador caracteriza o mal puro e a sua culpa indelével.
Como se constata, tanto como o tema da culpa, são as personagens, de recorte maravilhoso e extraordinário, benigno ou maligno, que estruturam a arquitetura de Nem Todas as Baleias Voam. Este título exprime um grito de revolta humanista contra a estratificação rígida da sociedade, no sentido de ser possível a uma instituição dominante e ditatorial (a CIA) manipular de tal modo a sociedade que até pode convencer as multidões que as baleias voam. Não, haverá sempre alguém que resiste e afirme que “nem todas as baleias voam”.JL