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Luís Cardoso: E ao fim do 20º dia descansou

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Luís Cardoso

Agripina Carriço Vieira escreve sobre o último romance de Luís Cardoso, Para Onde vão os Gatos Quando Morrem?

Agripina Carriço Vieira

Vinte anos após a edição do seu primeiro romance, Crónica de uma Travessia (Dom Quixote, 1997), e depois do sucesso alcançado com os cinco títulos antes publicados, Luís Cardoso, nome maior não só da literatura de Timor mas da literatura em língua portuguesa, desafia-nos agora para novas viagens de leitura com este seu belíssimo romance Para Onde Vão os Gatos Quando Morrem?. Surge muito bem acompanhado, ladeado por duas interessantes e desafiantes leituras, a primeira de frei Bento Domingues, a segunda de Carlos Reis. Timor é mais uma vez o tema central da efabulação, constituindo-se como o sexto painel de uma tela em devir onde surge representada a História de Timor. Com efeito, livro após livro, Luís Cardoso vai resgatando, na e pela escrita, a(s) memória(s) do seu país, reconstruindo o percurso que levou Timor até à conquista da sua independência após vários movimentos de ocupação colonial do território.
O título, em forma de pergunta, interpela desde logo o leitor, levando-o a empreender a sua leitura em busca da resposta (sempre adiada) à interrogação inicial. A esta dúvida primordial acresce-se um subtítulo enigmático e fugidio, porque enunciado uma única vez numa das páginas que antecedem o texto narrativo: “Uma Parábola Bíblica”. Desta forma, surge convocada toda uma linhagem de escritos bíblicos na qual este romance se inscreve, reiterada de vários modos na narrativa. Desde logo pela organização gráfica do texto que se apresenta organizado em vinte capítulos, divididos em curtos parágrafos numerados, como se de versículos se tratasse, correspondendo aos vinte dias da narração, na primeira pessoa, da história da criação do mundo de Ernesto, o protagonista, numa clara analogia com a estrutura do Livro do Génesis, mas igualmente com o livro de Miguel Torga A Criação do Mundo, que acompanhará a existência da personagem principal, constituindo-se como “o único bem material que o seu pai lhe deixou quando partiu para o outro mundo” (p. 220), ou seja, o seu legado familiar identitário.
No prefácio da obra já referida, Torga afirma que “todos nós criamos o mundo à nossa medida”, é, pois, o mundo de Ernesto criado à sua medida que aqui nos é relatado. Trata-se, obviamente, da história da viagem iniciática deste jovem nascido em Ataúro, que percorreu um longo caminho e regressou às suas origens, à ilha que foi recebendo vagas sucessivas de degredados: “Primeiro, foram os portugueses que se opuseram ao regime de Salazar. Depois, os timorenses acusados de terem colaborado com os japoneses durante a ocupação. Mais tarde, os indonésios fizeram desta ilha um campo de concentração para os nacionalistas” (p. 19).
É em torno da temática da viagem que toda a efabulação se alicerça, não só a empreendida pelo protagonista, com partida e regresso a Ataúro, passando por Paris, Díli, Bali, Manila, Trás-os-Montes, mas também a que trouxe a Prometida à ilha com a missão de cuidar do jovem Ernesto, e ainda aquela que o leitor realiza no seu percurso de descoberta do texto e do entrecho. A leitura leva-nos a entrar no mundo do protagonista, feito de “enganos, dúvidas e incertezas” (p. 19), mas também de solidão que adveio da conjugação de várias circunstâncias: uma mãe ausente e desconhecida, um pai distante e Silêncio, uma estranha personagem que o acompanha para todo o lado sem nunca proferir qualquer palavra. O seu mundo é ainda preenchido pelo sentimento de não pertença que experiência nessa ilha de desterrados. A dupla condição que carrega, de filho do chefe de posto e mestiço, relega-o para um espaço excêntrico, porque fora da comunidade, reservado aos estrangeiros, por isso constata já no final do entrecho: “Eu era um malae, um estrangeiro” (p. 242).
Nesta citação surge ainda representada uma outra viagem, aquela para a qual o leitor é desafiado e que ocorre quando se cruza com uma palavra numa língua desconhecida, cujo significado apenas lhe é revelado no glossário. Aí começa a viagem entre culturas e sobretudo entre línguas, consubstanciada no movimento físico e intelectual, que a leitura do texto e a consulta do glossário implica. O saltar de páginas, do corpo do texto para o glossário e novamente para o texto narrativo, surge como a representação da viagem entre sentidos, entre culturas, mas também do vaguear incessante intrínseco à condição de “eu” pós-colonial, aquele que vive num espaço híbrido feito do cruzamento e imbricação de culturas. Por outro lado, ao transportar o texto para fora dos seus limites, o autor desafia-nos para uma leitura reflexiva, pondo em evidência a tensão dialógica entre línguas e culturas a que a efabulação dá corpo. O sentido de humor que caracteriza a escrita do autor está aqui também presente, já que, não raras vezes, verificamos que partimos em busca de um conhecimento que já tínhamos, ao constatarmos que ao lado do vocábulo em português está o seu equivalente em tétum, ambos inseridos no discurso efabulativos, numa prática de tradução que assume contornos de repetição.
Percorre todo o texto um sentido de recorrência que se manifesta ainda no modo peculiar de construção da diegese, constituindo-se a repetição, em modo de litania, como um dos procedimentos primordiais sobre o qual a narrativa toma forma. O caso paradigmático é a pergunta que dá título ao romance, no entanto, outras frases há que ressoam dentro de uma mesma unidade capitular. Estas repetições em eco, marcas da presença do código oral no texto escrito, desempenham a função de fios condutores do entrecho, apontando caminhos de leitura, indicando dominantes significantes a partir das quais se desenha um quadro interpretativo que se constrói em torno da tristeza de Ernesto expressa no seu olhar (2º dia), a mestiçagem cultural (3º dia), a revelação de novas informações sobre o seu pai (4º dia) e a incerteza que o futuro reserva, expressa na afirmação “Não sei o que me espera!” que ecoa na mente de Ernesto no momento em que regressa a Ataúro (18º dia).
Se “o regresso ao passado é uma grande aventura” (p. 55), e a prová-lo está o relato que acompanhamos ao longo dos 18 dias da sua narração pela voz de Ernesto, que vai desfiando memórias e recordações, o presente traz consigo incertezas e hesitações relatadas nos dois últimos dias. Confrontado com o seu passado e as decisões que então tomou, Ernesto conquista o seu “direito de cidadão do novo país” (p. 247), adquire uma nova condição: “Deixei de ser malae ou estrangeiro na minha própria terra” (p. 247), mas sobretudo é-lhe dado o acesso ao conhecimento que lhe permitirá sair do “limbo de silêncio” (p. 133) em que esteve mergulhada parte da sua existência. No último dia, tomando a palavra, assumindo esse poder que lhe é intrínseco, aquela que esteve sempre ausente torna-se presente. Ernesto reencontra a mãe e o seu passado e recebe aquilo que finalmente lhe foi dado e que lhe pertencia, a resolução do enigma da criação do seu mundo. JL