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A paixão das Ideias Saber ler os segredos de Camilo

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A publicação do 1º volume desta Camiliana corresponde a um acontecimento tanto mais assinalável quanto é certo continuarmos a ter falhas graves na disponibilização ao público de obras fundamentais da nossa literatura

Camilo Castelo Branco é um caso singularíssimo na língua portuguesa. Longe do repentismo ou da facilidade, estamos perante um cultor das letras que se evidenciou ao saber aliar grande talento narrativo, capacidade de evocação única e exigência de profissional, que se equiparam aos dos maiores escritores de sempre, como Dickens ou Balzac… Alexandre Cabral fala, com razão, do “exemplo de um profissionalismo sem mácula, nesse estrito aspeto, que não foi ainda ultrapassado”. Fialho de Almeida calculava a produção camiliana em cerca de 180 volumes e 54 mil páginas. Hoje sabemos que esse cálculo é feito nitidamente por defeito. E quanto ao rigor, não posso esquecer a sua cultura enciclopédica e o respeito dos seus contemporâneos pelas suas opiniões. Oliveira Martins retificou a 1ª edição da sua História de Portugal com base nas apreciações que pedira ao mestre Camilo. É, de facto impressionante a amplitude de conhecimentos que permanentemente cultivava e o à-vontade com que lidava com as fontes coevas. E no tocante ao uso da língua, nunca se deixou deslumbrar pelos arrebiques escusados, antes ligando a clareza à diversidade vocabular, para ser fiel às particularidades e diferenças culturais. Nesse ponto é inigualável. E não é preciso entrar em comparações com outros dos nossos melhores – Camilo é Camilo.
Aquando da prisão na Relação do Porto, no processo de Ana Plácido, D. Pedro V fez questão de visitar o romancista duas vezes, em novembro de 1860 e no final do Verão de 1861 e, como corresse a notícia de que o monarca lhe mandara oferecer dois contos de réis, Camilo apressou-se a esclarecer e a desmentir: “Eu creio que o Sr. D. Pedro V é infinitamente delicado, e só dá esmolas a quem lhas pede. Quando S. M. me fez a honra de perguntar, na cadeia, em que ocupava, respondi a S. M.: que trabalhava. Ou o Sr. D. Pedro V entendesse que eu me ocupava em chapéus de palha ou em romances, ou em caixinhas de banha, a minha posição ficava defendida para o inteligente monarca: o homem que trabalha não pede nem aceita esmolas; e, se a pedisse ao rei, julgar-se-ia tão humilhado, como se a pedisse ao ínfimo dos homens”.
Estava em causa a hombridade e a direitura da sua dignidade. De personalidade marcada e feitio tantas vezes agreste, Camilo tem, na sua longa obra, severas apreciações críticas que atingem mil suscetibilidades. Houve, por isso, razões para ódios e suspeições, mas, à distância, ao lermo-lo fica-nos a grande riqueza da matéria-prima com que lida - a vida de uma sociedade marcada por dualismos e diferenças profundos, que só poderiam ser retratados e compreendidos por quem tivesse oportunidade crítica e capacidade de ver o tempo à luz da duração e do largo prazo… Tendo-se arrependido de alguns repentes, hoje podemos entendê-los, porque permitem perceber os acontecimentos para além das simplificações imediatistas…
Acaba de ser publicado o 1º volume da Camiliana (Círculo de Leitores), o que corresponde a um acontecimento tanto mais assinalável quanto é certo continuarmos a ter falhas graves na disponibilização ao público de obras fundamentais da nossa literatura. Neste volume reúnem-se Todos os Contos, Novelas Curtas e Romances Breves de Camilo Castelo Branco, com recolha, prefácio e notas de José Viale Moutinho. Longe da polémica dos cânones, ou seja, de saber se o génio de Seide foi romancista ou novelista, contista ou escreveu crónicas romanceadas, a verdade é que na criação camiliana, independentemente do fôlego maior ou menor, encontramos um poder narrativo superlativo. Folheie-se este suculento volume e confirme-se essa qualidade extraordinária.
Permito-me, a título de exemplo, falar de “Que Segredos são Estes?”, publicado nas Noites de Insónia, e mais recentemente na antologia As Novelas de Camilo… É um texto notável, pequeno mas muito tenso, a que não faltam os ingredientes fundamentais. “O enfermeiro-mor da casa da saúde conduziu-me ao quarto de Duarte. Com certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quase sumidas na desgrenhada cabeleira e nas barbas. Imobilizava-lhe o semblante a sinistra quietação da demência contemplativa”. Duarte Valdez era um amigo do narrador, mas a vida transformara-o num farrapo… E o drama resume-se à consciência pesada pela responsabilidade de duas mortes. Valdez dizia ter morto as duas mulheres que amara… “Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgaríssima pergunta: - Como as mataste tu? – Despedaçando-as uma contra a outra. Pode ser que o leitor esteja sorrindo, porém, que o tremor daquelas palavras vibrava tanto no seio do aflito moço que uns calafrios me correram a espinha, e o turvamento das lágrimas me embaciou a vista…”. E fica a curiosidade de saber se não estamos perante um vulgar assassino. Longe disso… A narrativa desenrola-se no registo onírico e fantasmático em que o amor e a morte se confundem, urdidos sabiamente pelo novelista, que nos transmite com economia de palavras, mas com grande densidade de emoções, algo cuja verosimilhança é evidente…
Em “O Tempo de Camilo Anotado Ano por Ano”, o organizador da obra, Viale Moutinho, com grande mestria, leva-nos a partir da vida do autor de Amor de Perdição, através dos acontecimentos do país e do mundo. E sentimos como há um enredo romanesco, donde tudo parte, na existência atribulada, e nem sempre evidente, de Camilo. Desde muito cedo, há tendência para se embrenhar em polémicas, para formular juízos severos, para criar anticorpos… Em Ribeira de Pena, em 1843, escreve e afixa na porta da matriz versos ofensivos a uma família importante da vila. Para salvar a pele foge para Vilarinho de Samardã… Em 1846, devido a uma série de artigos publicados no Porto em que criticava o governador civil de Vila Real, é barbaramente agredido… Foge com Patrícia Emília para a cidade invicta, mas é acusado por um tio de roubo, sendo ambos presos. Com traços romanescos, porém, o tio confessará depois que era falsa a acusação, feita apenas para travar a fuga… Em 1850, sai a lume o primeiro romance do novel autor - Anátema…
Estes breves exemplos ilustram uma vida sentimental intensa, que culminará no caso de Ana Plácido, e uma vida familiar dramática. Este é, no entanto, o pano de fundo, de uma persistência admirável enquanto profissional da escrita. Ele confessa: “Eu inclinava o peito crivado de dores sobre uma banca para ganhar, escrevendo e tressudando sangue, o pão de uma família. A luz dos olhos bruxuleava já nas vascas da cegueira. E eu escrevia, escrevia sempre”. Ao longo de 670 páginas, a duas colunas, temos muita matéria reveladora da inesgotável qualidade camiliana. E mesmo em A Via Sacra, cujo fim desconhecemos, resta-nos a certeza de que a intensidade narrativa dispensa epílogos… JL