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A "autobiografia" de Miguel Veiga - Cidadão e advogado militante

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Miguel Veiga, faleceu, segunda-feira dia 14, aos 80 anos. Advogado e homem de cultura,fundador do PPD, autor de livros como Um advogado em redor das Letras à volta do Porto e A consciência entre o lícito e o ilícito. Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL

O tempo conta muito e não conta nada.

Os homens dizem que o tempo passa. O tempo diz que os homens passam. Certo é que os tempos são curtos para aquele que pensa e infindáveis para aquele que deseja. Fui sempre um sujeito essencialmente desejante. Ser finito com a cabeça voltada para o futuro e o infinito: o futuro do tempo e o infinito da curiosidade.

Atrevo-me a pensar eu que estou de bem com a vida que me tem tratado bem que a vida seria muito mais feliz se nós pudéssemos nascer aos 80 anos e irmo-nos aproximando pouco a pouco dos 18 anos.

Vim nascer ao Porto, rebento único de minha Mãe, francesa, parisiense de gema, e de meu Pai, beirão dos quatro costados, de Moimenta da Beira, das cercanias das terras do Demo. Portuense como sou e me sinto, fui assim também uma antecipação avant la lettre da comunidade europeia. E não se nasce impunemente no Porto.

Aqui tenho vivido, há dezenas de anos, sempre no mesmo local, rente ao mar da Foz do Douro. Pela vida fora e pela vida dentro.

As minhas raízes da terra estão no mar, no mar da Foz.

Invoco, no meu modo pessoal de olhar o Porto, a sua luz. E se aquilo que permanece, os poetas o fundam (Hölderlin o disse), então faço minhas as palavras luminosas do Eugénio de Andrade: «Esta é a luz que gostava de levar nos olhos quando morresse -a luz do mar da Foz, atravessada por duas ou três gaivotas».

Quem olha para ele, o mar (da Foz) vê-o pela primeira vez sempre (Jorge Luís Borges). Sempre. Nele dorme o meu grande navio da infância, nele os meus mortos são invisíveis, estão lá todos, só este mar pode e sabe medir a minha solidão. Um mar escrito.

Fui sempre fiel ao Porto, a que pertenço e sempre pertenci, que me pertence como uma roupa do corpo que me veste por dentro, como uma pele imemorial em que o tempo conta muito e não conta nada.

O Porto, para mim, na clareza lapidar e fulgurante da Sophia, é «a pátria dentro da pátria». Aliás, a mim, basta-me ser do Porto para ser português.

Trago sempre pela mão a infância e a criança que fui.

O tempo conta-me tanto que a primeira lembrança chega-me desse tempo de árvores carregadas de pássaros pelas ruas da Foz, desse tempo em que o esplendor do Verão durava, durava ... ..., desse paraíso perdido que não se cansa de me perseguir, rente à pele, enquanto se vai despindo de mim, poro a poro, dedo a dedo, sílaba a sílaba, cabelo a cabelo, enquanto se vai diluindo por mim em sonhos ou memórias para que eu ainda possa dormir sobre as águas. Atiro o coração para trás e corro a apanhá-lo. Como quem regressa ao tempo das cerejas. Ou ao trevo do Jorge Guillén: «Um cavalo junto ao mar/Crinas, vento, ondulação/ Que fábula irá rebentar?» No exercício autobiográfico, o autor propõe-se decifrar, por detrás do percurso que foi o seu, a identidade que lhe subjaz, a verdade profunda que o anima e determina a sua unidade. Por isso uma autobiografia é algo de muito diverso de um curriculum vitae. Através do diálogo de quem escreve e se descreve sobressai a fidelidade do autor a si mesmo. Até porque aquele que desejaríamos ter sido é tão ou mais importante na definição do que somos do que aquele que na realidade acabamos por ser como notava esse excelente escritor, ensaísta sobre autobiografias, que é Marcello Duarte Mathias.

Cada um é o que imagina ser.

Reivindico as contradições: o direito de ser outro de mim próprio e até estranho à minha própria imagem ou à definição que faço de mim mesmo. E mais reivindico o direito de não ter de me explicar sobre isso.

Com esta reserva, aos costumes declaro-me humanista personalista, heterodoxo, sujeito de razões e emoções, de convicções, de sentidos, de valores ético-sociais, pautado por referências normativas, embora desamparado de deuses e avesso às gramáticas de obediência e às cartilhas dogmáticas, sejam as das verdades reveladas, sejam as da salvação da história (que procurando instalar o céu na terra sempre dela fizeram um inferno) e reconheço-me, por vocação, destino e profissão, cidadão militante, advogado e jurista praticante. Pareço-me com um político de vez em quando, mas, mesmo quando intervenho politicamente, advogo causas. Quase sempre de cidadania.

É como advogado na vida prática do direito e da cidadania e nas esquinas da justiça que intervenho. O inventário da minha bagagem resume-se a 47 anos de ofício como advogado, a mais difícil e perigosa das profissões (Carnelutti).

Fui fundamentalmente um advogado togado. E advogar para mim foi sempre mais um modo de ser do que um modo de vida, mais do que um modo de estar na vida, mais do que um modo de ganhar a vida. Ora, a cidadania exerce-se também no cumprimento diário de um trabalho profissional sério, decente e competente. Sobretudo nestes tempos em que a escola fácil não prepara para a vida difícil. Enquanto existirem advogados a ideia de cidadania terá conteúdo. E nesta sociedade agressiva e conflitual, que é a nossa, a advocacia fornece-nos, sobre o mais, a dimensão civilizada da agressividade.

No meu pessimismo optimista trago mais interrogações e dúvidas e perplexidades, do que certezas e caminhos. Nestas décadas que levo de advocacia e cidadania não acertei senão com a eternidade de todas as dúvidas acompanhada pela efemeridade de todas as certezas. Porventura, alguns dados, algumas pistas, alguns, poucos, trilhos. Problematizar e procurar respostas, ainda que parciais e fragmentárias, atendendo unicamente ao seu interesse informativo, documental e polémico. A verdade deixou de ser um conceito hegemónico.

Mais do que uma profissão a advocacia foi a paixão, a única, com a da liberdade, a que sempre fui fiel, embora limitado à minha estatura mediana: 1,72 m de altura.

Com meu Pai, Luís Veiga, aprendi culturalmente que «um advogado que só sabe direito nem de direito sabe» (Abel Salazar). E nunca esqueci o sábio conselho desse monstro sagrado do foro e da literatura que foi Maurice Garçon: «Pour bien plaider, lisez les poètes». É bem avisado, para quem pretenda bem advogar, o dever de ler os poetas. Não sei se, durante estes 47 anos de ofício, advoguei bem ou mal, creio bem que o fiz razoavelmente, porque umas vezes bem, outras mal, mas que li uma miríade de livros de poesia, ai isso li.

A liberdade foi sempre uma das minhas fidelidades. A liberdade de um modo vital, enquanto actividade e vitalidade, dentro e fóra de portas, em todas as estações e idades, como pulsão de vida, a liberdade como desejo, a liberdade para. Foi assim que desde os 18 anos me tornei militante da liberdade contra a ditadura, representando a dita «juventude democrática» em intervenções públicas nos raros comícios da oposição, petições públicas e, sobre o mais, fui subscritor do manifesto dos estudantes das Academias, em Maio de 59 em que se solicitava a Salazar, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, a sua demissão como «contribuição para a pacificação da Família Portuguesa». E, por «nunca me ter refugiado à sombra dos abrigos», fui impedido de aceder ao ensino universitário por decisão do Conselho de Ministros de então, fundado na informação da PIDE nos termos da qual «o supracitado individuo goza de bom comportamento moral mas não oferece condições de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Assim mesmo e "tout court".

O grande sonho da minha geração foi a liberdade que o 25 de Abril nos trouxe traduzida em liberdades efectivas. O que me levou, sobre o mais, a ser um dos 14 fundadores do PPD.

Há dias escrevia-me o meu querido amigo e magnífico escritor que é António Lobo Antunes: «Cada vez mais, à medida que o tempo passa, há três coisas realmente importantes para mim: a amizade, as mulheres e os livros, e tudo o resto é vão acessório». O que me permito aqui transcrever como um meu biográfico.

A amizade é o essencial, o sol da vida. É ela que nos funda e se nos entretece nesse acerto de olhares, nesse consenso de linguagens, nessa comunhão de gostos e contragostos, de repulsas, de preconceitos, de reflexos e, sobretudo, dos afectos das nossas águas mais silenciadas. É o lugar onde mais gosto de viver, como escreveu o meu fraterno José Domingos da Cruz Santos.

Nasci, cresci e tenho vivido no meio de miríades de livros e de centenas de pinturas. De meu pai, Luís Veiga, e de meu tio, Pedro Veiga, o singular Petrus, herdei duas excelentes bibliotecas e os livros não param de crescer à minha volta, implacáveis invasores que se tornaram os donos do meu poleiro sobre o mar da Foz. As letras são a minha respiração, a literatura é a prova de que a vida não chega.

Leio para saber, reflectir, para me comover, para me inquietar, para partilhar, para sonhar e aprender a sonhar e até para esquecer. O livro é o tempo abolido. E, como um dia escrevi, enquanto outros trazem cruzes e medalhas ao pescoço, eu trago sempre um poema no bolso. Sempre. A cada um, pois então, a sua devoção, o seu «colete de salvação».