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Irene Flunser Pimentel Os refugiados fora do ‘paraíso’

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É uma história dramática e muito significativa sobre os refugiados judeus em Portugal, ou que pretendiam vir para Portugal, fugidos ao nazismo – e que neste caso foram proibidos de entrar e acabaram no campo de concentração. O livro intitula-se O Comboio do Luxemburgo, e o JL ouviu uma das suas autoras (a outra é Margarida de Magalhães Ramalho), bem conhecida investigadora e especialista em história contemporânea do nosso país, Prémio Pessoa em 2007

Maria Leonor Nunes

Em novembro de 1940, um comboio com refugiados judeus, vindos do Luxemburgo, entretanto ocupado por Hitler, foi impedido de entrar em Portugal. Depois de dez dias de incerteza, na fronteira de Vilar Formoso, impossibilitados de sair do comboio, onde permaneceram sem quaisquer condições, ajudados apenas pela população local, os quase 300 passageiros foram recambiados para França. Meia centena acabaria por ser deportada para a morte no o campo de concentração de Auschwitz. É um episódio “dramático” que Irene Flunser Pimentel e Margarida de Magalhães Ramalho agora resgatam ao “esquecimento”, em O Comboio do Luxemburgo, uma edição Esfera dos Livros. Um livro que vem pôr em causa a imagem “difusa” de um Portugal “paraíso” para os que fugiam ao nazismo e à II Guerra Mundial, como sublinha ao JL a historiadora e investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa. E que tem no presente um significado mais agudo, perante a atual vaga de refugiados que chegam à Europa, também a fugir da guerra e da fome. Hoje como há décadas, são muitas as portas que se fecham, os países que lhes vedam as fronteiras. Talvez a História não dê “lições”, acrescenta Irene Pimentel, mas se não se atentar no passado, tudo poderá ser ainda “pior”. Por tudo isso, não se pode “ignorar” este comboio.

JL: O que traz de novo sobre Portugal e os refugiados da II Guerra Mundial?
Irene F. Pimentel: Tem havido bastantes estudos sobre os refugiados na II Guerra, embora seja um tema bastante tardio. Começou, aliás, a ser investigado no estrangeiro e só depois em Portugal, como muitas vezes acontece.

Porquê?
Tem que ver com o facto de termos vivido em ditadura e da historiografia exigir o seu tempo. Estudaram-se primeiro as instituições do Estado Novo e aspetos que são muito importantes mas parecem mais laterais, foram por vezes esquecidos. É o caso.

Mesmo sendo o século XX o “século dos refugiados”, como dizia a filósofa Hannah Arendt, citada no livro.
E foi sem dúvida a II Guerra que veio transformar o séc. XX no século dos refugiados. Melhor, as duas Grandes Guerras, embora a segunda o tivesse potenciado em termos de números. A verdade é que o próprio regime salazarista deixou cair a questão no esquecimento. Primeiro, logo a seguir ao final da guerra, tentou ‘’pôr a render’ o facto de alguns refugiados terem passado por Portugal, muitos dos quais com vistos dados pelo cônsul Aristides Sousa Mendes, contra as ordens oficiais. Como os Aliados ganharam a guerra, Salazar queria manter o regime e havia que conseguir as boas graças …. E dá-me ideia que a imagem que existe é ainda um pouco difusa, como se o país tivesse sido um paraíso para os refugiados que fugiam da guerra.

Em que sentido?
Há a ideia que apesar de se viver numa ditadura, os refugiados foram muito bem recebidos pelos portugueses e salvaram-se. Só que as coisas não foram assim tão simples.

É isso que O Comboio do Luxemburgo vem mostrar?
Sim. Mostramos que era muito difícil os refugiados entrarem em Portugal, como aliás, nos outros países europeus, fossem eles democráticos ou ditaduras.

O episódio que serve de base ao livro é nesse sentido elucidativo.
É muito dramático e e vem pôr um pouco em causa essa imagem paradisíaca, embora sem a destruir, porque houve evidentemente muitas pessoas que se salvaram porque conseguiram entrar em Portugal. Só que nesse caso, correu mal, o que fez com que dos cerca de 300 judeus do Luxemburgo que vinham nesse comboio que não conseguiu entrar em Portugal, tendo sido recambiado para França, pelo menos 50 acabassem por ser deportados para Auschwitz, onde foram assassinados no Holocausto. Outros foram para campos de internamento, alguns conseguiram fugir, arranjar vistos e escaparam.

De alguns perdeu-se o rasto?
Sim. Mesmo o número de refugiados que vinham no comboio não é certo, tendo pequenas variações, por isso falamos no livro de cerca de 300. Uma mulher morreu de ataque cardíaco e ficou enterrada em Portugal, outros tentaram fugir do comboio em andamento, em Espanha. Imagine-se o trauma que devem ter sentido essas pessoas que estavam a um passo de serem salvas, entrando num país neutral, e que tiveram que voltar para trás. Por isso não se pode ignorar que aquele comboio aconteceu. No livro, quisemos também dar nomes àquelas pessoas. Não sabemos todas as suas histórias, mas tentamos reconstituir os seus destinos. Quando os números são elevados, como hoje, dizemos um milhão de refugiados e tendemos a esquecer que cada um deles tem um nome, uma idade, uma profissão. Mas é preciso ter sempre presente que não se trata de números, mas de pessoas.

Alguma das histórias dessas pessoas a tocou especialmente?
A de um dos recambiados que acabaram em Auschwitz, uma mulher que esteve nesse campo e sobreviveu. Encontramos excertos do seu depoimento nas entrevistas que foram feitas para o filme de Spielberg e são terríveis. Foi um dos testemunhos que mais me marcou. Por outro lado, estivemos com uma sobrevivente, já com 93 anos, que vive no Luxemburgo. Ela disse-nos que tinha tido muita sorte, porque tinha conseguido arranjar vistos já em França, quando o comboio voltou para lá, e acabou por conseguir chegar aos Estados Unidos.

Só começou a investigar em 2013?
Há alguns anos, um historiador alemão descreveu-o em algumas linhas, num livro sobre refugiados alemães em Portugal, Espanha e na América Latina. Fiquei sempre com curiosidade e no meu livro dos judeus já falava desse comboio. Tive vontade de o investigar e fazer um livro, mas o processo foi demorando. Entretanto, apercebi-me de que no Museu de Vilar Formoso tinham entrevistado a tal sobrevivente desse comboio, a Margarida Ramalho estava a trabalhar lá e convidei-a a participar na feitura do livro. E realmente só há três anos iniciámos a investigação.

Em O Comboio do Luxemburgo faz também uma contextualização histórica.
Tratamos de três países: Luxemburgo, Alemanha e Portugal. O Luxemburgo foi ocupado pelos nazis em maio de 1940 e como a comunidade judaica – cerca de três mil pessoas- era pequena, as autoridades nazis tinham a ideia de fazer aí um primeiro país livre de judeus. Nessa altura, de 1938 a 1941, a política nazi era de expulsão dos judeus, removê-los dos territórios ocupados, depois de os ter retirado do espaço público. Ao perceberem-no, os outros países fecharam as suas fronteiras, como Portugal. Nesse contexto, os próprios nazis organizaram transportes de judeus do Luxemburgo rumo aos Estados Unidos. Para isso, tinham que atravessar França ocupada, e a Península Ibérica.

Foram três os comboios que chegaram então à fronteira portuguesa.
Um primeiro, em agosto, que entrou em Portugal; um segundo em outubro, que já encontrou algumas dificuldades, mas depois de algumas negociações, também conseguiu; e este terceiro, em novembro, que ficou parado na fronteira de Vilar Formoso.

E em péssimas condições, já que as pessoas nem sequer puderam sair do comboio. A população portuguesa procurou ajudar esses refugiados?
Os testemunhos que conseguimos referem-se a essa solidariedade. Até há um filme, sem som, de um americano que documenta a entrada de refugiados, não neste comboio, e veem-se alguns que chegavam de carro, com um ar próspero, alguns com casacos de pele, em contraste com a população miserável de Vilar Formoso, com as mulheres com lenço, descalças, mas a trazerem-lhes o que tinham: sopa.

Uma das razões que apontam para esses refugiados terem sido recambiados é o facto de muitos não terem visto.
Exatamente. Porque não tinham conseguido vistos para os EUA e, muitos deles a conselho dos próprios nazis, compraram vistos para Cuba, em Antuérpia. Só que foram considerados fraudulentos pelas autoridades portuguesas. E como Salazar queria que o país fosse sobretudo de trânsito e já que tinham que passar por aqui que fosse rapidamente, percebeu que essas pessoas iriam instalar-se cá por algum tempo. Mas houve outras razões.

Por exemplo?
O facto de o comboio vir acompanhado de elementos uniformizados das SS. Ao contrário dos comboios anteriores em que tinham ficado na parte espanhola, porque sabiam que Portugal era neutro, enquanto a Espanha era não beligerante, pelo que a Gestapo podia andar uniformizada pela rua, os SS que acompanhavam esse terceiro comboio provocaram a polícia de fronteiras portuguesa, pisando território de neutralidade fardados. Houve tiros e inclusivamente chegaram a ser presos. Isso ainda veio trazer mais luz sobre esse comboio quando interessava o máximo de discrição, como tudo naquele período exigia. Por outro lado, como trazia muitos judeus que não eram de nacionalidade luxemburguesa, polacos, alemães, apátridas, o governo no exílio do Luxemburgo, que esteve temporariamente em Lisboa, procurou zelar sobretudo pelos ‘seus’ judeus.

Este livro remete inevitavelmente para o que se passa hoje com os refugiados na Europa. Houve essa intenção?
É evidente que de alguma maneira este caso remete-nos para a atualidade, com a vaga de refugiados a que assistimos. Quando me perguntam se a História dá lições, sinceramente não sei. Porque infelizmente continuam a acontecer desgraças, barbaridades, genocídios. Mas tenho a certeza de que seria ainda pior se não conhecêssemos o passado. JL