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"Excelente, excelente, excelente", Miguel Real lê Mário de Carvalho

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Miguel Real escreve sobre as Ronda das mil belas em frol, de Mário de Carvalho.Um livro que "fala sobre sexo interligando o atrevimento da intimidade com o pudor da linguagem"

Miguel Real

Não é difícil aplicar este título à obra de Mário de Carvalho (MC), mas dificilmente encontramos outro livro de contos do autor tão excelente como este Ronda das mil belas em frol. Excelente porque faz o milagre de contar histórias sobre sexo cruzando o atrevimento da intimidade com o pudor da linguagem. À alcova romântica que excita, acresce o recato burguês do melindre – sim, adultério sim, mas resguardado, sem o picante lascivo da devassidão.
Excelente porque escreve sobre sexo sem encher o texto de impropérios, ausente de um calão doesto próprio dos antigos bordéis de Alfama e do Intendente. Trata-se de um narrador elegante, que, peralvilho, descreve com preciosismos de linguagem um casquilho copulando com uma sécia. Nada literariamente mais excitante que uma metáfora, dizia nas suas aulas o padre Manuel Antunes - assim a arte de escrever sobre sexo em MC, com abundantes perífrases que, cruzadas, se destinam, não a um leitor libidinoso, devasso, promíscuo, pornográfico, wikipédico, mas a um leitor médico da alma que observa e pratica com prazer pessoal e curiosidade diderotiana as pulsões lascivas do corpo.
Excelente porque a mulher (o narrador é um homem) não é, nestes contos, um objeto de prazer do homem, como o era Amélia para o padre Amaro, não é um objeto de uma paixão devastadora, como a de Simão Botelho por Teresa, não é uma heroína saramaguiana, uma desequilibrada loboantunesiana, uma ingénua ou interesseira agustiniana, uma voragem de prazer lúbrico luispacheciano, ou uma vexada ou opressa à Maria Teresa Horta, não. É um ser humano completo, normal, curioso do seu corpo, considerando a monogamia (as casadas) uma imposição social a que se deve obedecer, sem que deixe de aproveitar-se um momento de distração conjugal e se experimente uma relação carnal com outros homens.
Não é traição. É o que o povo designa por “dar uma facada no matrimónio” sem dissolução deste. Trata-se da mulher, apenas, sem adjetivação, sobretudo de ordem moral, nem Virgem Maria nem mulher de Sodoma e Gomorra. É este, talvez, o grande contributo destes contos para a historiografia do sexo na literatura portuguesa: o de fazer ver que o corpo da mulher também é sujeito e há muito deixou de ser objeto. Um salto literário pós-Maria Teresa Horta.
Excelente porque o léxico é ambicioso, mais amplo não podia ser, um imenso leque semântico como o autor há muito nos habituou – pormenor concreto contrabalançado com erudição abstrata, medievalismos (título dionísio) com realismos à século XXI, algum romantismo serôdio (da parte de algumas mulheres: velas, flores, quartos idealizados…) com posições sexuais explícitas. Trata-se, em Mário de Carvalho, não já de assumir esta ou aquela corrente, mas de assumir uma escrita transtemporal ou, talvez dito de um modo mais correcto, de evidenciar uma escrita clássica, proporcionada nas partes, única no todo, operando uma síntese da história da língua portuguesa.
Não é novidade na escrita do autor, os seus últimos romances e livros de contos parecem ousar atingir este patamar clássico, mas Ronda das mil belas em frol atinge mesmo: fusão de períodos da história da língua, sintaxe ora barroca, ora racionalista, ora romântica, ora realista, fusão entre imagem metafórica e realidade concreta, experiência da ductilidade da língua através de expressões de sintaxe temerária (barroca), frase etérea, vaga, nefelibata, lado a lado com descrição pormenorizada. Está aqui tudo – o primeiro Eça de perto, todo o Camilo de longe, o pudor transmontano de Araújo Correia e Torga, a insinuação de Botto e a aspereza direta de Nuno Bragança, o labirinto metafórico de Mário Cláudio/Tiago Veiga a escrever sobre o corpo, a ironia de quem não leva o sexo a sério de Vasco Graça Moura (é apenas mais uma coisa do mundo), a serenidade literária de Fernanda Botelho quando descreve um corpo macho a penetrar um corpo fêmea. Não está aqui a raiva explosiva e insurrecta de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta nem a lubricidade patológica de Luís Pacheco.
Freud está longe, Masoch está longe, Sade está longe, Bataille está longe. E, quando viramos a última página, constatamos, à V. G. Moura, que o sexo é importante mas talvez não seja o mais importante do mundo a não ser quando se é adolescente ou quando na infância se sofreram traumas indeléveis.
Conclusão: excelente, excelente, excelente, excelente, quatro vezes excelente, como tentámos provar. Cabe ao leitor comprovar.JL