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Lídia Jorge: Contos, viagens e enigmas

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Lídia Jorge

António Pedro Ferreira

Como uma respigadora, procura no passado experiências que deixam marcas mais profundas, episódios reveladores, confissões capazes de desvendar algumas das perplexidades da vida. Assim ganharam corpo os nove contos que compõem O Amor em Lobito Bay, que a escritora, uma das vozes mais singulares da Literatura Portuguesa, já distinguida com vários prémios, como APE, PEN, Casino da Póvoa ou Vergílio Ferreira, apresenta ao JL em entrevista

O Amor em Lobito Bay é a quarta recolha de contos de Lídia Jorge, depois de Marido e Outros Contos, de 1997, O Belo Adormecido, de 2004, e Praça de Londres, de 2008, a que se pode juntar duas histórias curtas que mereceram edição isolada: A Instrumentalina, em 1992, e O Organista, em 2014. "Em termos de género, o conto é um híbrido. Ele promove os dotes copiosos da narrativa mas dirige-se para a forma sucinta do poema. Gostaria que os meus contos, oscilando entre uma e outra forma, contivessem filmes de ação no seu interior, e ao mesmo tempo se aproximassem da música livre, sucinta, feita com um mínimo de palavras", escreve a autora na contra capa deste volume. Ao JL, confirma a tendência de escrever e juntar contos entre romances. Absorvida na escrita de uma nova ficção longa, deixou de lado a árvore que a tem dominado para se dedicar aos ramos que surgem ao correr das experiências do quotidiano. É essa, de resto, a marca das nove histórias de O Amor em Lobito Bay: são enigmas, viagens, confissões violências retirados da vida. E convertidos, através de um fluxo verbal transformador, numa vontade de captar o tempo que já vivemos e o que se adivinha através da escrita.

Jornal de Letras: Nove contos que tomaram o lugar do diário, assim descreveu numa entrevista estes contos. A ficção curta substituiu o registo diarístico?
Lídia Jorge: Não se pode dizer que tenha substituído, porque são registos muito diferentes. Além da atitude fragmentária, o diário exige uma outra atenção: mesmo o que não é essencial é fixado. No conto, retém-se apenas o mais importante de determinados momentos. Quando associo estes contos a um diário é porque eles têm, de facto, a marca de um percurso. Provêm de acontecimentos que podia dizer biográficos, que ocorreram e se destacaram.

O que fez com que se destacassem?
Apresentaram uma espécie de face enigmática que não consegui resolver. Escrevo contos dessa forma: quando há um acontecimento ou um dado que não se resolve. Tenho a ideia que ao escrever me aproximo do que poderá ser uma solução. Na busca, cria-se um caminho. Não há desenlace, mas o percurso ilumina.

No conto Novo Mundo escreve: "No meio do enigma está o suspense, e no meio do suspense está a descoberta".
Exatamente. A solução está no frémito do suspense, o que é sugerido noutra passagem: "Acredita que no meio da inteira disponibilidade existe sempre uma aventura para o espírito. E no meio do espírito está o coração de carne e sua loucura, enquanto músculo vivo." A própria busca é, para mim, a solução. O caminho é o fim. É a este princípio que a escrita dos contos obedece. E a um outro, que esteve para servir de epígrafe ao livro. É um provérbio oriundo dos desertos: "Uma mulher contou um conto às nuvens e choveu durante três dias". É uma espécie de testemunho vital.

Que corta a ligação entre o episódio biográfico e o resultado final?
Sim. Neste jogo, a transfiguração entre aquilo que se passa e o que se imagina depois é redentora. Os episódios que deram origem a estes contos foram, logo no início, aventuras de alma muito intensas, que em geral decorreram de testemunhos. Nasceram da voz dos outros.

Um tom de confissão percorre, efetivamente, todo o livro.
Motivado por encontros em espaços distantes e sobretudo incomuns, sem nada de turístico. São experiências singulares em situações inusitadas, como no caso do segundo conto, Overbooking, que recria a conversa entre dois desconhecidos, na qual um fala de um remorso sem remissão, do sentimento mais radical e duro que o acompanha. Mas ao falar em voz alta, a personagem (não o autor) encontra para si uma solução.

Tempos de violência

Usando a imagem do primeiro conto, podemos dizer que todas as personagens deste livro vivem o dilema de comer o coração da andorinha, de cair na violência ou ser capaz de a superar?
Foi por isso que senti que estes contos faziam um livro. Ainda tinha outro mas saía fora do conjunto.

Foi o primeiro, O Amor em Lobito Bay, a puxar os outros?
Sim. Primeiro, puxou os que já estavam escritos: O Tempo do Esplendor, Dama Polaca Voando em Limusine Preta e Um Rio Chamado Mulher. Depois, incentivou a escrita dos outros cinco, que seguiram idêntica direção. De vez em quando escreve-se sob uma mesma atmosfera. Senti que estes nove contos obedeciam a uma espécie de verdade temporal.

Se acertamos na matéria ficcional, conseguimos alargar o tempo, falar de uma época, do presente e antever ainda o que aí vem. Gostaria que estes contos fossem lidos assim, com as suas marcas cronológicas e datas, mas também com antecipação do que aí vem

Sabendo que sempre se mostrou atenta à História e aos seus movimentos, a violência que encontramos nestes contos está de alguma forma relacionada com a crise em que vivemos?
Quando acertamos na matéria ficcional, conseguimos alargar o tempo, falar de uma época, do presente e antever o que aí vem. Gostaria que estes contos fossem lidos assim, com as suas marcas cronológicas e datas, mas também como uma antecipação. Passagem para Marion, por exemplo, é um conto sobre o futuro que já nos toca.

Um futuro no qual a nossa dignidade está a ser posta à prova?
Pelo menos, em que uma gramática da violência nos quer padronizar e insensibilizar. Um futuro em que, desculpe-se o cliché, as pessoas são números ou meros fatores de produção. É essa a linguagem que encontramos no dia-a-dia, absolutamente cruel e verdadeira. Hoje, até os sentimentos humanos são incluídos nos contratos económicos. Num projeto de captação de petróleo, já se imagina que as multidões se vão amotinar e quantificam-se os seus prejuízos. Estamos no domínio do homem instrumental, sem que se perceba a sua finalidade. Passagem para Marion é uma revolta de um jovem que não aceita essas regras. No meio do deserto das emoções, apaixona-se por um animal. Fiel a um sentimento, destrói o que podia ser um futuro brilhante.

A estranheza dos lugares distantes

Todos os contos se passam em geografias distantes. Foram ditados por viagens?
Também, embora o sentimento que lá está, conduzido pela voz narrativa, seja português. Há nestes contos a ideia de que em sítios estranhos a confissão é mais provável e forte. Longe deparamo-nos com um espelho mais iluminado e que nos fala de outra maneira.

A distância é por si só personagem, acontecimento, aventura, que permite que enigma esteja presente. É propícia à revelação. Toda a Literatura é uma proposta de viagem que se cumpre num fluxo verbal criador.

A escrita muda nessa distância?
A distância é por si só personagem, acontecimento, aventura, que permite que enigma esteja presente. É propícia à revelação. Toda a Literatura é uma proposta de viagem que se cumpre num fluxo verbal criador.

No conto Um Rio Chamado Mulher essa fusão entre viagem e criação, realidade e literatura, está muito presente.
É o verdadeiro conto sobre a literatura, em que Old Man, de Faulkner, acaba por ser vivido intensamente, quer por quem escreve, quer pela personagem. A verdade literária, que é uma mentira mas não uma falsidade, transforma-se em algo de concreto e real, numa vivência possível, uma viagem dentro de outra viagem.

Em encontros com os leitores, já se cruzou com pessoas que se apropriaram das suas personagens, como faz a Bárbara desse conto em relação ao romance e ao filme A Escolha de Sofia?
Acontece muito. E o contrário também: as pessoas contarem um episódio e eu aproveitá-lo. É o caso de O Tempo do Esplendor, que me foi contado, abreviado. Por sentir que tinha percebido o que está por de trás, arrisquei uma espécie de excursão aumentativa. Apresentar o conto à pessoa revelou-se um jogo muito tocante ("foi exatamente isto", disse-me), porque reforçou a ideia de que nos adivinhamos uns aos outros. O grande fascínio da literatura é percebermos que, encontrando um autor com o qual nos sentimos bem, podemos fazer parte de uma matéria humana mais vasta, uma enorme rede de relações. Uma pessoa lê Tolstói e não deixa de se espantar com a forma como aqueles sentimentos continuam vivos. É por isso que defendo que os escritores, independentemente do seu nível ou da sua sorte literária, que é uma outra coisa, têm uma capacidade de premonição, de sentir o que está no fundo das coisas. Em geral, são capazes de descrever um tempo que não é o jornalístico. O que um esconde, o outro desvenda.

O volume acaba com O Poeta Inglês, um conto desconcertante. É um retrato do escritor enquanto carne?
É um conto sobre escritores, seu ofício e, acima de tudo, sobre o desfasamento entre a capacidade de se superarem através da escrita e as suas falíveis dimensões humanas. Neste caso, tão mortal, tão mortal, que morre diariamente. A última coisa que esse poeta inglês diz é justamente: "Adeus, meninos/ Tudo no mar me chama/ Viagem, Vela/ Mortalha/ Cama." Ele tinha um vício, uma limitação, a morte dentro dele e mostrou-a. Talvez seja o mais sério de todos, que de certa forma repensa e questiona o autor dos oito contos anteriores.

Entrevista publicada no JL 1190, de 11 de maio de 2016.