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Sá Carneiro visto por Régio: O oiro e a neve

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Mário de Sá Carneiro morreu há 100 anos, precisamente a 29 de abril de 1916. Leia aqui o que José Régio pensava sobre o poeta modernista, escrito por Eugénio Lisboa.

Eugénio Lisboa

É próprio de todos os grandes escritores admirarem alguns dos seus pares e amarem outros: admirar não é o mesmo que amar. Pessoa admirava Milton e amava Dickens. Flaubert admirava Zola, mas amava Hugo. Régio admirava Eça e Pessoa, mas amava Camilo e Sá-Carneiro. Há aqueles com quem sentimos afinidades e aqueles em quem admiramos qualidades que não temos nem nos interessa particularmente ter.


Régio admirou, estudou e ajudou a promover os argonautas do chamado “primeiro modernismo” (Sá-Carneiro, Pessoa e Almada), mas não se reviu em todos, por igual. Consultando os textos – atividade exótica mas indispensável – torna-se óbvio que preferiu Sá-Carneiro a Pessoa – no primeiro, reconhecia verdadeiro génio, no segundo, via apenas elevadíssimo talento. E não foram conclusões tardias, no seu percurso: já em 1925, por ocasião da apresentação da sua tese de licenciatura à Universidade de Coimbra, Régio, muito embora reconhecendo em Pessoa egrégias qualidades e até grandeza, não lhe dava a honra de capítulo separado, que reservava para Sá-Carneiro. Mas fazia mais, já nessa remota data: considerava, por um lado, o autor de A Confissão de Lúcio como “o maior intérprete de certa personalidade contemporânea”, por outro, aludindo às revistas do modernismo, afirmava que “é nelas também que nos aparece o nome do Mestre – Mário de Sá-Carneiro.” Note-se bem: não fala de “um” Mestre, mas “do Mestre”.


A última e maior “perfídia” é, aludindo ao “sacudir as velhas fórmulas e os velhos meios de expressão”, dizer que isso [a Sá-Carneiro] o distancia de todos os imitadores e simuladores – dando à sua lição a força e a grandeza da sinceridade”. Por tudo quanto já nessa altura escrevia e, depois, não deixou de continuar a escrever, não custa muito deduzir que tinha, para Pessoa, lugar reservado entre “os imitadores e os simuladores”.


Régio ficará sempre fiel ao autor de Dispersão, dando-lhe a sua atenção de ensaísta e dramaturgo. Com efeito, o seu livro fundamental – Ensaios de Interpretação Crítica – colige textos consagrados a quatro amores de sempre: Camões, Camilo, Florbela e Sá-Carneiro. Pessoa está ausente. Eça também. (Escreveu bastante sobre um e outro, mas não os colocou neste trono.) Por outro lado, das suas Três Peças em um Ato, uma tem, como protagonista, Sá-Carneiro, e, como miolo, a sua agonia. E é sabido como José Régio privilegiava o teatro, de entre as suas mais vitais e necessárias pulsões criativas. Dedicar, portanto, uma das suas peças de teatro a um personagem da feira literária contemporânea é homenagem de truz.


No magistral estudo que lhe dedica, nos já citados Ensaios de Interpretação Crítica, Régio indica, penetrantemente, certas características particularmente constituintes e definidoras do peculiar génio de Sá-Carneiro, que são, curiosamente, características também suas. Por exemplo: “Se mais prosador que poeta, mais poeta que prosador, é questão difícil e bizantina a propósito de Mário de Sá-Carneiro, desde que reconheçamos, como deve ser, o fundo poético de toda a sua criação. Uma unidade indiscutível se verifica entre os seus poemas e os seus contos, novelas, trechos em prosa: unidade na matéria e na forma, no conteúdo e no estilo.” O mesmo, palavra por palavra, se poderia dizer da obra do autor de Mas Deus É Grande. (Muitos críticos de Régio passaram muito tempo, e gastando muito papel e muita paciência ao leitor, tentando decidir se ele era sobretudo poeta ou sobretudo prosador). Para aduzir um argumento de natureza pessoal, se me é permitido, não me fez mal nenhum entrar na obra de Régio pela porta da prosa, o mesmo me acontecendo com a obra de Sá-Carneiro: com ambos, a poesia veio depois – e nada se perdeu.


Outra característica que Régio aponta em Sá-Carneiro e que eu, já por mais de uma vez lhe apontei, a ele, Régio: a “monotonia do génio”. Eu cito: “Decerto é muito verificável na obra de Sá-Carneiro a monotonia do génio; isto é: certo perpétuo reaparecimento, numa obra, dos temas íntimos e mais pessoais a uma original personalidade humano artística”. Monotonia que se verifica em tantos grandes criadores, como, por exemplo, Tolstoi. E até a “correção” com que matiza esta característica de “monotonia” se pode aplicar à do próprio autor de A Chaga do Lado: “Nada, porém, de linear ou reto se implica forçosamente numa unidade psico-estética, e a unidade da obra de Sá-Carneiro não recusa uma relativa diversidade, notável sobretudo em obra tão pouco extensa.” Tal diversidade manifesta-se, talvez, com mais força, na obra, por outro lado, também “monótona”, de Régio, dada a sua muito maior extensão.


Outra importante característica detetada na personalidade de Sá-Carneiro, pelo autor de Poemas de Deus e do Diabo, é o de existir, fortemente, numa pessoa tão singular e que tão obviamente arrasta a asa ao anormal e ao patológico, uma tão grande apetência pelo normal e até pelo banal. Mais uma vez, cito: “Uma de tais evidentes contradições (se é que não são antes aparentes ou superficiais) é a sedução do normal, do simples, do comum, num autor por outro lado tão atraído para o Estranho, o Privilegiado, o Escabroso, o Misterioso; tão fora do comum ele próprio como homem. O tédio, o cansaço, até o ódio pelo que esteja fora, ainda que acima, do normal, não manifestam senão o mesmo: pois, simultaneamente, não invalidam a estima que continua a merecer-lhe o que até ao ódio o enfastia. Será a primeira vez que um autor ao mesmo tempo aborrece e preza a sua pesada originalidade?”


Isto que Régio tão penetrantemente sonda no seu estudo clássico dedicado à obra do autor de Princípio, detetei-o eu mesmo na obra do escritor presencista, ao escrever o meu longo ensaio José Régio – A Obra e o Homem, quando ali assinalei, no personagem Lélito (alter ego de Régio), esta mesma empatia com a gente simples, normal, vulgar, pessoas como, entre muitos outros, o Sr. Bento Adalberto, do romance A Velha Casa. E lembrei, a propósito, as penetrantes observações que, a este respeito, faz o personagem Tonio Kröger, da novela com o mesmo nome, de Thomas Mann, nos seus desabafos com a artista Lisaveta. Aí declara ele, personagem singularíssimo de artista criador, o seu ocasional cansaço do convívio com os “duendes” da criação literária, os grandes anormais e pervertidos, e o seu desejo de um outro convívio com gente simples, quotidiana e tributável, não excecional…


Estas contradições, que dividem o ser humano em mais de uma pulsão forte, existem, em certa medida, em toda a humanidade, mas agudizam-se, com excecional intensidade, nos grandes criadores de arte, que são, segundo Proust, os grandes nervosos, o sal da terra… Era talvez neste sentido que o grande romancista americano F. Scott Fitzgerald observava: “Os escritores não são exatamente pessoas, ou, se são minimamente bons, são uma data de gente diferente, esforçando-se por serem uma única pessoa.”


Régio via em Sá-Carneiro o génio que não via em Pessoa, a quem classificava de grande homem de letras, mas não de grande poeta. Mas o que é, afinal, um génio? Nabokov, sempre inventivo e original, sugeriu que génio seria, por exemplo, um africano, torrado pelo sol, que, sem nunca ter ouvido falar nisso, congeminasse o conceito de neve… Assim sendo, Sá-Carneiro, pelintra, pedinte e fisicamente disforme (o Esfinge Gorda), congeminou, para seu uso imaginário, a elegância do Outro-Ele, as festas excessivamente requintadas e perversas de ricaços sofisticados e anormais, os jogos de luz prodigiosamente caprichosos e sexuados, em palácios delirantemente sumptuários – os “indícios de oiro”, que, nunca possuiu. Sonhar a neve ou sonhar o oiro – não será o mesmo? Passarmos a ter o que não temos? O grande criador compensa-se, como pode, daquilo que a vida lhe não deu, disse-o Valéry e tê-lo-ão dito ou pensado muitos outros, antes e depois dele.