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Ana Margarida Carvalho - "Neste Romance sou uma espécie de Deus"

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Ana Margarida Carvalho lançou o seu segundo romance . Assim, conta ao JL, numa auto-entrevista, os pormenores sobre Não Se Pode Morar Nos Olhos de Um Gato, que se passa no Brasil, nos finais do século XIX.

Ana Margarida Carvalho

Segunda ficção de quem, logo com a de estreia, Que Importa a Fúria do Mar, venceu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE, Não Se Pode Morar Nos Olhos de Um Gato (D.Quixote) chega para a semana às livrarias. Licencidada em Direito, da redação da VISÃO desde o início, o JL pediu à autora, e ela aceitou, que retomasse uma tradição deste jornal, em que durante anos o principais escritores, também jornalistas, se auto-entrevistaram, a propósito dos seus novos livros mas não só. É o que aqui acontece, ao que se acrescenta a pré-publicacão de páginas daquele romance.

Jornal de Letras - Porque é que escreveste este livro? Podemos tratar-nos por tu…
Ana Margarida Carvalho - Preferia que não, para mantermos o tom de distanciamento profissional e não criar a ilusão de uma falsa intimidade.

Não lhe parece um grande atrevimento da sua parte escrever um livro passado num continente que não é o seu, num século que não lhe pertence, o XIX, ainda por cima abordando um tema tão delicado como a escravatura ou a religião?
Talvez. Outros fá-lo-iam certamente muito melhor. Em relação a esses o que eu sinto não é inveja, mas um embaraço que me tolhe… Ainda assim, posso dizer que a verdade não me interessa grande coisa. Como dizia o velho Aristóteles só a verosimilhança serve ao drama. Só a ficção tem de fazer sentido. A vida, já se sabe, não tem sentido nenhum. E eu neste romance sou uma espécie de Deus, criei o meu próprio universo, só espero que ele seja coerente com os parâmetros que eu própria defini… Mas se a realidade está também ela tão cheia de absurdos, achei que mais verosímil que este deus, que sou eu própria, também criasse o seus próprios absurdos…

Não receia que pelo facto de ter colocado uma santa a falar durante todo o primeiro capítulo lhe apareça algum leitor a dizer «as santas não falam assim»?
Sim, de certo modo. Como na história de Woody Allen, se não estou em erro, em que um produtor recusa um guião dizendo ‘ah os ETs não falam assim’… Aconteceu-me algo parecido em Que Importa a Fúria do Mar, quando uma leitora me perguntou porque é que eu maltratava tanto os animais no meu livro. E eu, que sou contra todas as formas de mau tratos a animais, até os maus tratos literários, neste livro escrevi uma advertência que diz «ao longo da escrita deste romance nenhum animal foi maltratado»…


Mas afinal Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato é um livro sobre quê?
Sobre alteridade. Sobre a dificuldade em nos colocarmos na pele daquele que está em posição desfavorável. Sobre a facilidade com que julgamos o outro com base na cor da pele, na aparência física e intelectual, na ascendência social – ou seja, julgamos o outro com base naquilo que somos. E isso nunca pode dar bons resultados. E depois acontecem imensas coisas.

Porque é que foi buscar um assunto de outros tempos?
Porque são tempos de agora. É o "car je est un autre", do Rimbaud, que também anda lá pela história, para quem o queira encontrar. Tenho mesmo uma firme crença de que a melhor definição para "pessoa de esquerda" que até agora encontrei é aquela que consegue colocar-se na pele do mais fraco. Por exemplo, perante as leis laborais mais, assumindo o eufemismo, flexíveis, uma pessoa de direita pensa "que sorte para o patrão que vai poder despedir ainda com mais facilidade", porque automaticamente se coloca no papel dele. Uma pessoa de esquerda, pensa "os trabalhadores mais vulneráveis estão tramados".

Às vezes, parece que não vai direta às questões e anda a rondar, sem lhes acertar em cheio? Não acha que testa demasiado a paciência dos leitores?
Porque isso não é uma vontade gratuita, pode ser um desespero de querer dizer uma coisa e não saber exatamente como e nunca me ocorrer a frase certa, e cai-se numa fuga, ou antes numa busca um pouco divagativa. Nem todos podemos ser José Cardosos Pires e tentá-lo não é mais do que um exercício. Ou uma espécie de epígonismo, mas também a verdade é que não pode ser Cardoso Pires quem quer: apenas quem consegue. É a tal maldição de que falava Eco, os leitores leem o que querem, os escritores escrevem o que podem.

E se os leitores lhe fugirem, desertarem, já cansados dessas divagações?
Pode acontecer. Mas tenho esperança de que alguns me acompanhem e até se sintonizem nas minhas referências que contaminam o romance. Como no livro anterior, as interpretações dos críticos e dos leitores até eram mais bem pensadas do que as minha próprias. E isso foi uma felicidade para mim.Tenho sempre em mente que estou a escrever para pessoas muito melhores que eu, que consigam ir para além da literalidade, da aparência e vejam o lado de trás das frases. Se calhar, muitos leitores podem achar que as personagens estão mortas desde o princípio do livro e eu aceito isso.

Não pertence a tribos, nem faz parte de lóbis nem de clubes amiguistas...?
Tem toda a razão. Significa que posso ser um bom alvo para snipers mas muito irrelevante para as matilhas de haters. Seja como for, e como dizia o outro, eu não não entraria num clube que me aceitasse como membro.

Foi importante para si ter ganho o prémio APE com o Que Importa a Fúria do Mar?
Foi. Fiquei muito lisonjeada, por se tratar de um dos mais prestigiados prémios literários portugueses, por ser ter sido dado por unanimidade por um conjunto admirável de jurados, ainda por cima académicos e escritores, pelos quais tenho o maior respeito e toda a consideração. E por ser a APE a instituição que é, com a história que tem, e também porque os prémios valem pelos autores que distinguiram. E a verdade é que quase todos os grandes escritores do século XX e XXI estão lá representados.

E isso não lhe subiu a auto-estima?
Não, de todo. Primeiro, porque também tenho a plena noção de que ganhar um prémio não é mais do que um conjunto de gostos que coincidiram em dada altura. Depois, porque tenho alguma repugnância pela vaidade, pela presunção, pela futilidade (ou por certo tipo de futilidade, enfim...). Tenho imensa dificuldade em levar as pessoas assim a sério - a mim ainda menos. E sou geralmente imune ao elogio. Se calhar, também fruto da (má) educação que recebi. Sempre que fazia qualquer coisa bem, era minha obrigação. Sempre que fazia alguma coisa mal, era uma tragédia.

Alguém a incentivou a escrever?
Não, nunca me disseram "escreve, escreve". Mas disseram-me várias vezes "lê, lê". E acredito muito que ler pode ser uma experiência vital, mais importante do que a maioria dos encontros que tivemos com pessoas reais são aqueles que tivemos com o capitão Ahab ou com o Hamlet .

Gostava que os seus livros fossem transformados em filmes?
Ainda bem que me faz essa pergunta. Sim, gostava. Sobretudo se fossem feitos pelo Mallick ou pelo Béla Tarr - que são realizadores nos antípodas um do outro. Mas já ficava contente se fizessem uma novela gráfica. Do que eu mais gostei em escrever um livro infantil, A arca do É, foi trabalhar com o ilustrador Sérgio Marques, e ver como ele punha em imagens as minhas ideias. Foi muito bom. Portanto, se alguém estiver a ler isto, fica lançado o apelo, pode comunicar comigo por mp...

Qual deles é que se prestava mais a uma adaptação?
Depende dos realizadores. Mas este último é mais difícil porque a história muda de perspetiva o tempo todo, como se houvesse uma lanterna sempre a mudar de mãos e apontar a face do outro protagonista. Ainda por cima a história conta-se por detrás dos olhos que veem.

Ficou contente com o resultado?
Por acaso, acho que fiz muitas cedências a mim própria. Pode ter sido benevolência, que nem sempre é uma boa atitude. Por exemplo, eu queria que o livro tivesse apenas dois capítulos, o primeiro e o último, a parte do meio seria um contínuo. Mas depois pensei que isso, ao longo de 300 páginas, se tornaria muito maçador. Portanto, sinto que os capítulos são um bocado fictícios, como as fronteiras dos países colonizados.

Tem algum tabú literário?
Assim à partida não. Há escritores que detestam a nota de rodapé, outros que não podem com o pretérito-mais-que-perfeito, outros embirram com a palavra tal... Eu aceito tudo, e gosto de sentir que tenho os recursos todos à minha disposição, não vá dar-se o caso de precisar de algum. E, de um ponto de vista puramente oportunista, não renego nada e bebo de todas as águas, desde que sejam potáveis. Claro que não me entendo bem com os pôr-do-sol da literatura. Acho que nunca vou escrever "paisagem luxuriante", ou "águas cristalinas", ou "bases fundamentais", ou "horizontes longínquos", ou chamar à neve "manto branco", ou ao silêncio "sepulcral". São os lugares comuns, pré-fabricados da escrita, uma espécie de estações de serviço, sítios de passagem, onde na realidade nunca se fica. Palavras incestuosamente ligadas a adjetivos, que de tão usados, dizia Sophia, e tão repetidos parecem cuspo. Acho que nunca vou usar. E vai daí não sei...

Acha que um escritor é aquele que escreve bem?
Não. Acho que essa é um definição terrível, e até é perigosa. Ao dizer-se isso, está a nivelar-se por baixo. Está, no fundo, a dizer-se que um escritor domina estes mecanismos da sintaxe, da ortografia, da gramática... Isso é o que fazem os bons alunos na escola. O escritor é o que transgride, que subverte, que baralha tudo. Os muito bons inventam uma nova voz. Os geniais até uma nova linguagem.

Então o que é que tem de ter um bom romancista?
Não sei exactamente. Mas "escrever bem" não está entre os ingredientes - senão o que seria da Clarice Lispector? Tem de ser alguém que se deslumbre com vulgaridades. Alguém que repare. Também não me parece mal que procure estar sempre sobre o efeito do assombro - o que neste mundo tão cheio de absurdos e maravilhamentos não será tão difícil. Só para aqueles que têm olhos de ver passar, como quem anda de carro e olha, pela janela do lado, a paisagem a ficar para trás, e acaba por apanhar muito pouco de tudo e nada de muito. Noutro dia vi uma definição boa de Philip Roth que dizia que o romancista é mais parecido com um cão do que com um erudito, porque tinha de ter alta sensibilidade a certos estímulos. E depois rematava: "good dog, good book".

Porque é que está sempre a falar de animais?
Mas não fui eu, foi o Philip Roth...

O que acha dessa conversa da literatura feminina?
Acho isso mesmo: uma conversa...

Essa sua irritante mania de dizer coisas inconvenientes sem pesar as consequências não lhe traz dissabores?
Traz. O tempo inteiro. Mas custa-me mais não dizer do que sofrer as consequência. Fui vítima de uma péssima educação pós-25 de Abril, em que sempre me disseram diz, fala, se achas que está mal, protesta, não te importes com o que os outros pensam… Agora, com esta idade já não vou a tempo de mudar...

Gosta de falar de si?
Não, detesto.

Então porque estamos a fazer isto?
Porque o Zé Carlos me pediu e é das poucas pessoas a quem eu nunca consigo dizer não. Além do mais, completa agora 50 anos de carreira...

Escreve poucos diálogos, porquê?
Para já, porque todo o livro se conta por dentro do pensamento dos protagonistas, que como se sabe, anda em círculos, se interrompe, suspende e volta atrás. E depois porque acho que não tenho muito jeito, como se pode verificar pelo exemplo presente.

Onde é que se inspira?
Não acredito que me esteja a fazer essa pergunta!?!

Gosta mais de Lobo Antunes ou de Saramago?
Não me faça perguntas difíceis…

Do Chico ou do Caetano?
Hum… sinto-me mais do ‘time’ do Chico…

Do Tolsltoi ou do Dostoiévski?
Oh…